Quando era rapaz, o meu avô morreu, e era um escultor. Também era um homem afável, que tinha muito amor para dar ao mundo, e ajudou a limpar o bairro de lata na nossa cidade; e fazia-nos brinquedos e fez um milhão de coisas na vida; estava sempre a trabalhar. E, quando morreu, percebi repentinamente que não chorava por ele, mas por todas as coisas que ele fez. Chorei porque nunca mais voltaria a fazê-las, nunca mais esculpiria um pedaço de madeira nem nos ajudaria a criar pombas e pombos no quintal, nem tocaria violino como costumava fazer, nem nos contaria anedotas. Ele fazia parte de nós e, quando morreu, todas as acções pararam e não havia ninguém que as fizesse como ele fazia. Era particular. Era um homem importante. Nunca recuperei da sua morte. Penso muitas vezes que nunca mais nascerão esculturas maravilhosas porque ele morreu. Quantas piadas faltam neste mundo e quantos domésticos que não são tocados pelas suas mãos. Ele moldou o mundo. Ele fez coisas ao mundo. O mundo ficou sem dez milhões de boas acções na noite em que ele morreu.
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451
Quando eu era rapaz o meu avô também morreu mas era tamanqueiro. Fazia tamancos (para quem não sabe são uma espécie de pseudo sapatos feitos em madeira com uma gáspea de pelica). Ele era um homem rude, falava pouco e gostava de um bom pernil (nos dois sentidos do termo). Um bom dia para ti Dolphin, já há muito que não vinha aqui, pelo que me penitencio.
Abraço
A.Torres
Dito por: A T. no dia 15 de janeiro 2004, às 10h31Bom dia Altino :)
Dito por: dolphin.s no dia 15 de janeiro 2004, às 10h32é lá!
bom dia d., bom dia altino...
o meu avô...
o do bigode, tinha um chapéu e era muuuuito forte, tinha um cofre muito grande, vermelho e prateado onde escondia segredos e eu gostava de espreitar pela porta do quarto dele, nunca me atrevi aproximar, tinha medo do peso daquele cofre do tamanho de um guarda fatos. no dia em que nasceu, o pai dele persseguiu a sua mãe, queria matá-los. aprendeu a ler a escrever sozinho. era empreiteiro, chegou a ter 60 empregados, repito as suas palavras orgulhosas ao sentir-se o pai deles todos. morreu num dia de julho em 1997, após meses de dores, sempre de pijama mas sem largar o chapéu, sempre, sempre digno. o meu avô do bigode.
o avô dos pães, era lindo, cabelo branco branco da cor da farinha que ele usava para fazer o pão, deixava-me mexer na massa, ia com ele dar de comer aos porcos e durante o telejornal tínhamos de ficar todos muito caladinhos. chorei muito no dia em que soube que ele não sabia ler nem escrever, hoje, isso não me magoa, naturalmente. era orfão de mãe e, como reza a história, enteado de uma madrasta má, foi empregado de patrões que lhe batiam se o pão saía mais torto mas a memória dele é o seu rubor ao rir de perdido por causa de qualquer rodopio maluco de um cão ou de uma partida pregada a algum dos filhos ou empregados. morreu num dia frio de fevereiro, sentou-se na terra e adormeceu. o meu avô dos pães.
tenho saudades deles.
tenho saudades de chamar 'vÔÔ!'
Que lindo :)
Dito por: A.T. no dia 15 de janeiro 2004, às 11h08Olá Avô...
Dito por: Carlos no dia 15 de janeiro 2004, às 14h05Quando alguém morre, não se chora a sua ida, mas a sua perda. É, sem dúvida, um acto egoísta, mas também sincero. As pessoas morrem. Há muitas perdas ao longo da vida. A recordação é uma boa maneira de mantê-las vivas, bem como continuar as suas acções.
Lembra-te que há dez milhões de boas acções que podes continuar ou, pelo menos, tentar.
mmm.. não conheci meus avôs, restam apenas memórias e relatos, destemidos e corajosos desbravadores de terras onde o ouro nascia nos pés de café... Brasil, terra acolhedora, pensavam q à terra do sol nascente retornariam...e cá ainda restam seus descendentes - a terceira geração, brava e destemida? nao, saudosista, apenas lembranças nao é Vania? lembranças e açoes..milhões Adorei esse blog..
Dito por: solange no dia 17 de janeiro 2004, às 13h47