Condenado à morte!
Há cinco semanas que vivo com este pensamento, sempre sozinho com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado sob o seu peso!
Outrora, pois parece-me que passaram anos e não semanas, era um homem como os outros. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha o seu significado. O meu espírito, jovem e rico, estava repleto de fantasias. Divertia-se a apresentar-mas umas a seguir às outras, sem ordem e sem fim, bordando inesgotáveis arabescos neste tosco e curto tecido da vida. Eram jovens donzelas, magníficos paramentos de bispo, batalhas ganhas, teatros cheios de rumores e de luz, e outras vez jovens donzelas e obscuros passeios à noite debaixo dos frondosos ramos dos castanheiros. A minha imaginação vivia sempre em festa. Podia pensar no que quisesse, era livre.
Agora estou cativo. O meu corpo está agrilhoado num cárcere, o meu espírito está preso a uma ideia. Uma horrível, uma sangrenta, uma implacável ideia! Só tenho um pensamento, uma convicção, uma certeza: condenado à morte!
Faça eu o que fizer, ele está sempre presente, este pensamento infernal, como um espectro de chumbo ao meu lado, sozinho e cioso, impedindo qualquer distracção, de frente para um miserável que sou eu, e sacudindo-me com as duas mãos geladas quando quero desviar a cabeça ou fechar os olhos. Disfarça-se sob todas as formas a que o meu espírito gostaria de se subtrair, imiscui-se como um horrível estribilho em todas as palavras que me dirigem, agarra-se comigo às abjectas grades do meu cárcere; obsidia-me acordado, espia-me o sono convulsivo, e reaparece-me em sonhos sob a forma de cutelo.
Acabo de acordar em sobressalto, perseguido por ele e dizendo-me: — Ah! não passa de um sonho! Pois bem, ainda antes dos meus olhos terem tempo de se entreabrir o suficiente para ver este fatal pensamento inscrito na horrível realidade que me rodeia, na laje encharcada e exsudada da minha cela, nos pálidos raios da minha lâmpada de presença, na trama grosseira do tecido das minhas vestes, no rosto moreno do soldado de guarda, cuja cartucheira reluz através das grades do cárcere, julgo ouvir uma voz segredar-me ao ouvido:
— Condenado à morte!
Victor Hugo, O Último dia de Um Condenado
Publicado por dolphin.s em dezembro 27, 2003 03:54 PMSandra,
Não te fiques por aqui, lê Os Miseráveis, O homem que ri, Os trabalhadores do Mar. Lê toda a obra deste Monstro Sagrado da literatura.
Beijos
Dito por: Simak no dia 28 de dezembro 2003, às 14h04Estava à espera que aparecesses por aqui ;)
Ontem estive a olhar para os livros dele...
Os Miseráveis não conto ler para já.. .mas, talvez o Homem que Ri.
Que achas?
Pega nesse, sem hesitações, é um livro maravilhoso. Quando começares a lê-lo vais ter dificuldade em parar. Garanto-te.
Dito por: simak no dia 29 de dezembro 2003, às 09h03Bolas!!! És terrível!!
Já tinha embicado no livro, agora tu a dar esse enfase todo.... ai ai ai :P
para já estou completamente agarrada pela escrita dele. Nunca tinha lido nada de Victor Hugo e agarrou-me da mesma maneira que o Thomas Mann quando li a Morte em Veneza... é muito mau sinal ;))
Como me é tão familiar essa terrível sensação de estar condenado a não existir! Só por deixar o medo dominar esta dor de parir, rosas em regaços de luz!
Desculpa-me tomar este tipo de liberdades! mas...acontece!
votos de um excelente Ano 2004
Rodrigo Ribeiro
Dito por: Rodrigo Ribeiro no dia 29 de dezembro 2003, às 12h29não peças desculpa por falares do que sentes...
boas despedidas de 2003... sabe sempre melhor a despedida do ano ;)
Dito por: dolphin.s no dia 29 de dezembro 2003, às 12h35"Já estou agarrada pela escrita dele".
As palavras são tuas dolphin....
Sabes eu nunca quiz dizer isto para não ser acusado de fanático, fundamentalista, tendencioso etc.etc. mas olha que se lixe, vou dizer - NUNCA NINGUÉM ESCREVEU COMO VICTOR HUGO, NEM ANTES NEM DEPOIS. Prontos, tá dito é a minha opinião. Eu quando me ponho a falar do Victor Hugo ou da sua obra quase choro.
Agora pensem de mim o que quiserem.
Beijinhos.
Só coisas boas, Simak... de ti, só mesmo coisas boas :)
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Dito por: dolphin.s no dia 30 de dezembro 2003, às 10h17Gostaria de saber se existe alguma forma de adquirir o livro "O homem que ri" deste escritor fantastico. Existe alguma publicação recente ou somente obras esgotadas?
Um abraço e compartilho com todos minha admiração pela obra de Victor Hugo.
Dito por: Remy Narciso Simão no dia 23 de janeiro 2004, às 18h50"Os Miseráveis", obra deste fabuloso francês a quem deveríamos nos curvar e aprender a sua nobreza.
Victor Hugo sinônimo de Nobreza
Olá!
Gostaria de convidá-los a assistir no teatro:
O ÚLTIMO DIA DE UM CONDENADO , de Victor Hugo, o qual li no original em 1996 e fiz a adaptação teatral. Fiz uma temporada entre Junho e Agosto de 2003 e volto agora dia 04 de Junho/2004 no:
CAFÉ TEATRO
R.Dr.Vila Nova, 241 (ao lado SESC-Consolação)
Sexta e sábado 22hs e Domingo 20hs.
3214.0835
Compareçam!
Edson Caeiro
CIA.ALGAZARRA TEATRAL
e em que locadlidade fica? :)
Dito por: dolphin.s no dia 2 de junho 2004, às 11h25Este livro foi o primeiro livro que concegui chegar até ao fim. Isto sim é um livro decente. Vou percorrer a sua coleção todo, espero que faças o mesmo
Dito por: Bruno Alexandre no dia 21 de janeiro 2005, às 10h56Este livro foi o primeiro livro que concegui chegar até ao fim. Isto sim é um livro decente. Vou percorrer a sua coleção todo, espero que faças o mesmo
Dito por: Bruno Alexandre no dia 21 de janeiro 2005, às 10h57