dezembro 26, 2003

Carta de Natal de Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre, o filósofo ateu, enviou do seu cativeiro aos padres que admirava uma meditação sobre a pintura que gostaria fazer do Natal

"A Virgem está pálida e olha para o menino. O que seria necessário pintar neste rosto é um encantamento ansioso que não apareceu senão uma vez sobre uma figura humana. Porque Cristo é o seu menino: a carne da sua carne, o fruto das suas entranhas. Cresceu nela durante nove meses e dar-lhe-á o seu seio (...) e, por momentos, a tentação é tão forte que ela esquece que ele é Deus. Aperta-o nos seus braços e diz: 'Meu pequenino.'

Mas noutros momentos ela suspende esse movimento e pensa: Deus está aqui. E fica possuída pelo horror religioso, por este Deus mudo, por esta criança terrificante. Todas as mães ficam assim suspensas, por um momento, diante deste fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho, sentem-se em exílio diante desta vida nova que se faz a partir da sua e habitadas por pensamentos estranhos. Nenhuma criança, porém, foi tão cruelmente e tão rapidamente arrancada à mãe: aquela criança é Deus e ultrapassa sempre tudo o que Maria possa imaginar.

Penso que também há momentos, rápidos e fugidios, nos quais ela sente, ao mesmo tempo, que Cristo é seu filho e que ele é Deus. Ao olhar para ele, pensa: este Deus é meu menino. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. Ele é Deus e parece-se comigo.

Nenhuma mulher teve, desse modo, o seu Deus só para ela, um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobri-lo de beijos, um Deus quentinho que sorri e que respira, um Deus que se pode tocar e que ri! É num destes momentos que eu pintaria Maria, se fosse pintor."

Tradução de Frei Bento Domingues, O.P.
Tirado do Público online, dia 21/12/03

Publicado por dolphin.s em dezembro 26, 2003 05:08 PM
Comentários

Uma palavra de apreço para Frei Bento Domingues, com quem já tive o prazer de estar pessoalmente.
Claro está que esta tradução por si efectuada não é em vão. A mensagem não pretende encher espaço. Serve sobretudo para reflectir. Mas para reflectir, de facto, e não ler de passagem.
Sartre...foi Sartre e o seu pensamento não pode deixar de ser tido em conta. Neste caso, para pensarmos/repensarmos nas pinturas que devemos fazer. Ou que devemos fazer por aí. Ou que em nós devemos fazer. E nelas, posicionando-nos no âmbito da essência do Universal.

Dito por: Sandra no dia 26 de dezembro 2003, às 18h00

Um pouco diferentemente de Sartre, prefiro uma (bastante) maior separação entre Deus e Cristo ou entre Deus e Jesus. E Maria mãe de um e privilegiada por Outro. Ou Maria mãe de um e, pela Humanidade, sacrificada por Outro.

Dito por: Sandra no dia 26 de dezembro 2003, às 18h04

Se Deus fôr só Pai e Cristo fôr só Filho, o quadro muda de figura?

Um abração do
Zecatelhado

Dito por: Zecatelhado no dia 26 de dezembro 2003, às 21h36

...terei algures lido que, em determinados presépios que não posso localizar a virgem apareceria deitada ao lado do menino com se acabasse de o dar à luz...Deus efectivamente encarndo pelo corpo e dor da mulher...depois a virgem passa a estar de pé dando azo a um afastamento, e já agora desenvergonhado o pobre do S.José...
morfeu ( ...pela altissima qualidade de intervenção, recomendo aos domingos as intervenções de Frei Bento Domingues)

morfeu

Dito por: morfeu no dia 26 de dezembro 2003, às 22h16

Oi Zacatelhado!
É só para dizer que o meu comentário tem, tão só, a ver com um preciosismo histórico, nada mais. Não consegui evitar. :p
Quanto ao eventual quadro, o importante é que a sua pintura seja percebida e, mais do que isso, que nós a transformemos em prática quotidiana.

Abração para ti tb.

:))

Dito por: Sandra no dia 27 de dezembro 2003, às 09h07

O mais evidente na carta de Sartre, pelo menos para mim, é que apenas se fala de carne, de gente viva, de mulher e filho, e não de espiritualidade ou divindades ;)

Dito por: dolphin.s no dia 27 de dezembro 2003, às 15h39

Reflexos e prolongamentos. Inflexões.
Materializações do autor ou imaterializações posteriores.
Descida ao Reino dos Homens. Subida ao Reino dos Céus.
"Cidade de Deus" versus "Cidade dos Homens".
A pluralidade/possibilidades de/para as leitura é aquilo que, sem dúvida, as enriquece.

;)

Dito por: Sandra no dia 27 de dezembro 2003, às 16h07

descobri uma coisa muito interessante ...

Jesus Cristo estava no principio...parece estranho...mas qdo se diz na biblia que o Verbo(ser/haver/estar) se fez carne...o verbo ja existia ..e era Jesus Cristo...
Deus disse "HAJA" luz e ouve luz, mas...sol e lua so foram criados no terceiro dia...ou seja a luz era Jesus...o verbo..."HAJA"...e ouve !!!

NOSSA!!! isso é de mais...

E o verbo se fez carne e habitou entre nós...cheio e de graça e de verdade...e vimos a sua gloria como a do PAI ....

Dito por: polis no dia 27 de dezembro 2003, às 17h46

Reflexos e prolongamentos.
:)

Dito por: Sandra no dia 27 de dezembro 2003, às 19h22