janeiro 07, 2004

Individualidade

Os jornais, por via das notícias, produzem um barulho fixo. Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê. Mas na notícia acontece isto: os sofrimentos individuais e as alegrias íntimas desaparecem, tudo se torna propriedade colectiva: o jornal como teoria geral da inexistência do indivíduo. Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente, individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por ninguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa. Toda a parte da nossa vida que é testemunhada constitui o modelo do jornal: vejam o que acontece ou aconteceu. E só isso existe na História. E o que fica de fora são os indivíduos.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em janeiro 7, 2004 01:34 PM
Comentários

Excelente excerto, dolphin.s... esse foi mesmo de tirar o fôlego.

Goethe também tem umas reflexões semelhantes sobre a imprensa, mas esta do Tavares é também muito boa.

Esse Gonçalo Tavares promete muito... tenho mesmo que ler esse livro.

Dito por: Paulo Silva no dia 7 de janeiro 2004, às 14h56

Tenho a certeza que vais gostar muito deste livro :)

Dito por: dolphin.s no dia 7 de janeiro 2004, às 15h02

Acho que a apresentação vai ser amanhã, Quinta, na fnac do Chiado. (Convém confirmar na agenda - www.fnac.pt)

Dito por: marta almeida no dia 7 de janeiro 2004, às 22h28