Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligente, mas imóvel. Se, de repente, numa hipótese totalmente absurda, todos os humanos sofressem um acidente como Clako, a espécie humana desapareceria rapidamente numa geração. Numa única geração desapareceriam, então, a matemática e a lógica do mundo. E a geometria. E a literatura.
Se a matemática fosse assim tão divina e universal, como conceber que a eliminação de uma única espécie — o Homem — de entre biliões de espécies existentes pudesse eliminar por completo essa lógica dos números em toda a superfície do planeta? Se o que se encontra disseminado por mais seres da natureza tem o nome de divino, então divino é o movimento e a capacidade de procriação; e a matemática apenas a especialidade de uma minoria.
Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump