Não se pode construir uma casa sem pregos nem madeira. Se não queremos que se construa uma casa, escondemos os pregos e a madeira. Se não queremos um homem politicamente infeliz, não lhe damos duas respostas a uma pergunta que o preocupem; damos-lhe uma. Melhor ainda, não lhe damos nenhuma. Deixamos que se esqueça que existe uma coisa como a guerra. Se o Governo é ineficiente, desequilibrado e louco por impostos, é melhor que sejam essas pessoas a preocupar-se com isso. Paz, Montag. Temos de dar concursos às pessoas que elas ganhem, recordando as letras das canções mais populares ou os nomes das capitais dos estados ou quanto cereal produziu lowa no ano passado. Temos de as encher com dados não combustíveis, atravancá-las com tantos «factos» até se sentirem empanturradas, mas absolutamente «brilhantes» com informação. Então, sentirão que estão a pensar, terão uma sensação de movimento sem se moverem. E ficarão felizes, porque os factos deste tipo não mudam. Não se lhes pode dar matéria escorregadia como filosofia ou sociologia para relacionarem as coisas. Isso causa melancolia. Qualquer homem que seja capaz de desmontar uma parede com ecrã de TV e a montar de novo, e a maioria dos homens é capaz, nos nossos dias, é mais feliz do que qualquer homem que tenta avaliar, medir e equacionar o Universo, que não será medido e equacionado sem tornar o ser humano bestial e solitário. Eu sei, eu tentei; que se dane. Por isso introduzamos clubes e festas, acrobatas e mágicos destemidos, carros a jacto, helicópteros, sexo e heroína, tudo o que estiver relacionado com reflexo automático. Se o drama for mau, se o filme não disser nada, se a peça de teatro for vazia, piquem-me, ruidosamente. Pensarei que estou a reagir à peça, quando não passa de uma reacção à vibração. Mas não me importo. Gosto de diversão genuína.
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451
e eu gosto é de heroína e sexo e passeios à noite em locais perigosos e mágicos gurus de seitas desiquilibrados mentalmente e acrobatas em circos de horrores e clubes e festas e cocaína e perversão e demência e ser humano imerso na decadência de o mesmo ser e envolto em tudo isto, besta isolada, dar-me laivos de tentativas frustradas de medição e equação do Universo
Dito por: kay no dia 6 de janeiro 2004, às 15h59Esta foi uma das passagens que mais me marcou no Fahrenheit 451, Sandra. Inesquecível. Tem uma actualidade assustadora, não é?
Dito por: Ana no dia 6 de janeiro 2004, às 20h17pena que para uma grande maioria não passe mesmo de ficção cientifica... a incapacidade de se olhar para o espelho ;)
Dito por: dolphin.s no dia 6 de janeiro 2004, às 20h33