Sempre tememos o desconhecido. Certamente que te recordas do rapaz da tua turma que era excepcionalmente brilhante, recitava e respondia quase sempre, enquanto os outros ficavam sentados como muitos ídolos pesados, odiando-o. E não foi este rapaz brilhante que escolheste para punir e torturar? Claro que foi. Devemos ser todos parecidos. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos foram tornados iguais. Cada homem é a imagem de todos os outros; depois todos ficam felizes, porque não há montanhas que os obriguem a aninhar-se, a julgar-se. Assim! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala da arma. Abre-se uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser o alvo de um homem letrado?
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451
este é um dos livros que tenho em casa, em espera...
este excerto remete-me para aquele medo inquisitorial/medieval do conhecimento, dos detentores do conhecimento e do poder do conhecimento.
o livro é sobre isso mesmo... a facilidade com que se controla o homem já vazio de conhecimentos e quase sem laços emocionais com outros seres humanos, e onde a única informação que lhe chega é basicamente ligada ao consumismo.
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 11h58as instituições anulando a individualidade humana
Dito por: margem no dia 10 de dezembro 2003, às 12h05neste caso (ou neste livro) acho que foi o homem que procurou ser anulado...
a busca constante por divertimentos e estimulos tipo "fast-food", a preferência a coisas de consumo rápido em relação a um livro que exige o seu tempo... foi o próprio homem, sem pressão de entidades superiores, que passou a achar o livro um inimigo da diversão, do bem-estar e principalmente da felicidade - porque o fazia pensar!
a sociedade foi respondendo às suas necessidades, e o homem deixou sequer de pensar em querer algo mais.
e não isso que está a começar a acontecer agora?
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 12h13
Interessante, bem interessante... por acaso também tenho esse livro em casa...
Quanto a mim, não são os tipos que têm e geram conhecimento que nós devemos recear, como sabemos e a história tem-no rpovado, são os outros, que se SERVEM dos que têm o conhecimento, para, muitas vezes apoiando-se numa visão envisesada dos seus conhecimentos, os usarem para os seus próprios fins.
Como o tipo que inventa a teconologia atómica para fins completamente diferentes dos que foram depois usados... quantos mihares de exemplos destes não existem ao longo da história ?
Por isso, não são destes tipos que tenho realmente receio... o conhecimento e a procura dele, não faz mal a ninguem, abre-nos os horizontes... o problema são os que vão lá à procura de qualquer coisa que sirva os seus fins... então fazem, como fazem as seitas que vão buscar à biblia apenas os trechos que lhe interessam, combinados na forma que lhes interessa... e depois dizem "Está tudo lá!!!".
Dito por: Paulo Silva no dia 10 de dezembro 2003, às 12h17e eu tenho mais medo daqueles que nada sabem, nada querem saber, mas que são a maioria que domina o mundo.
são esses que se borrifam se se queima livros ou papel higiénico.... inconscientemente são eles que modelam o mundo à sua imagem....
tudo é feito para ir de encontro aos interesses (ou falta de..) da maioria, e como eles só têm como interesse aquilo que lhes é enfiado pela goela adentro, é facílimo dizer-lhes do que gostar e o que censurar.
mas esses são os mais influenciáveis; anulando a sua própria individualidade, por comodismo muitas vezes, permitem que outros (instituições, por exmemplo) os moldem e integrem num todo colectivo, de conhecimentos condicionados
Dito por: margem no dia 10 de dezembro 2003, às 12h35O paradoxo é que são os que menos sabem que se servem dois que sabem para convencer todos os outros que sabem.
O que pega na bomba atomica não percebe nada dela e atira-as contra os outros que também não percebem nada dela.
Agora é subsituir "bomba atómica" por qualquer coisa que se queira... por isso, os que têm o conhecimento ainda são os mais inocentes no meio disto tudo.
O ignorante é um criminoso em potência... mais que o conhecedor - o conhecedor pára para pensar, o ignorante age.
Dito por: Paulo Silva no dia 10 de dezembro 2003, às 12h47Onde se lê:
"O paradoxo é que são os que menos sabem que se servem dois que sabem para convencer todos os outros que sabem"
deve-se ler:
"O paradoxo é que são os que menos sabem que se servem dos que sabem para convencer todos os outros que NÃO sabem"
Dito por: Paulo Silva no dia 10 de dezembro 2003, às 12h48yep..... e isto é que é deprimente....
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 12h55sim margem, mas precisamente por serem a maioria, o perigo vem deles, pq o mundo acaba por ser moldado à sua imagem e necessidades
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 13h12muita coisa aconteceu neste mundo desde a revolução industrial... muita coisa se revolucionou nas sociedades... a globalização é mais uma dessas revoluções... da forma como está a ocorrer provavelmente uma involução...
o factor determinante nos nossos dias de nuvens capitalistas super-liberais é o lucro... daí a importancia da normalização... a alemanha foi o exemplo paradigmático do real valor da criação de normas - no seu tempo básicamente industriais - nos resultados de rentabilidade, na fase posterior à 2ª grande guerra, aquando da reconstrução do país... foi graças à padronização de conceitos, instrumentos e procedimentos industriais, que 20 e tal a trinta anos depois de um país ter sido devastado, se reerguia do lodo como uma das duas maiores potências europeias...
é óbvio, atento o exemplo - ou mesmo sem ele, como uma padronização de interesses, mentalidades e urgências é importante numa sociedade cuja estrutura se baseia num aumento sempre crescente do consumo, através dum alargamento cada vez maior dos mercados...
assim, temos cada vez mais individuos que pese embora nunca percam por completo a sua centelha de individualidade, se tornam cada vez mais 'clones' culturais... cultura essa que se encontra também cada vez mais desprovida de factores de diferenciação, de forma a ser cada vez um melhor objecto de consumo, e um molde de consumidores... apercebo-me agora dessa óbvia curiosidade - a cultura é o objecto de consumo que consumido vai limitar o consumidor ao consumo dessa própria cultura - um caminho espiral em direcção ao centro...
o pensamento, por exemplo na forma de um livro, caso saia (ou sobressaia) dessa violenta torrente dominante ou não tem interesse, ou é fagocitado pela própria corrente, nela integrado e convertido em mais um puro objecto de consumo, ou é rejeitado para longe, passando a fazer parte de uma margem que muito provavelmente se virá converter numa das pequenas correntes de contra-cultura, também elas industrializadas nos nossos dias - a essa industrialização/comercialização é impossível (ou desenganem-me) escapar...
e não falei da pop art, não falei do nihilinsmo, não falei do existencialismo, não falei de muita coisa de que até me apetecia falar, mas como esta pequena dissertação/transcrição de pensamento em curso já está a ficar um bocadinho longa vou terminar por aqui
se alguém ficar com a sen~sação que me perdi algures durante o raciocinio exposto, provavelmente está certo
deste sempre vosso
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 13h44não perdeste nada!!!
depois de uma tese destas, pouco há a acrescentar. só não se concordo com aquilo que apontaste: "a essa industrialização/comercialização é impossível escapar..."
mas é um "não sei" mesmo... uma frase que me deixou a pensar...
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 13h57é pá, o teu texto merece um arregalar de olhos 8))) ehehehhe
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 13h57eu gostava mesmo que me desenganassem... mas se os veiculos de conhecimento e informação foram sempre em certa medida controlados comercialmente, e os seus objectos em certa medida controlados industrialmente, hoje em dia essa industrialização/comercialização está cada vez mais espalhada por áreas que anteriormente eram de transmissão livre e por assuntos que eram marginais. é a tal lógica do alargamento de mercado/formação de consumidor... e os meios de comunicação são reféns, completos reféns, do dinheiro...
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 14h17mas não nos limitamos aos meios de comunicação - aliás, acho que cada vez são menos informativos e mais publicitários que qualquer anúncio. A quantidade de coisas (ideias, conceitos.. etc...) que se consegue vender quando o meio usado é considerado "sério"... enfim..
voltando à questão, não procuras conhecimento apenas nos meios mais comercializados.. arrisco mesmo que será onde procuras menos.
Ao fugires a essa comercialização/industrialização, a ideias feitas e vendidas por medida, ao tentares formar as tuas ideias e conceitos por aquilo que muitas vezes é menos óbvio, estarás a formar-te com algo não industrializado. Serás uma amalgama muito única de conhecimentos que te servem a ti e não aos outros. Buscas o teu próprio conhecimento de uma maneira que apenas fará sentido para ti.
Acho que cada um de nós é assim (o nós aqui, arrogantemente o digo, nós a minoria).
Não aceitamos aquilo que nos é dado. Apreendemos muita coisa, mas apenas adquirimos aquilo que de facto é importante para nós. Somos esses bocadinhos todos, de todos os livros, músicas, filmes.. os bocadinhos diferentes que cada um de nós conquistou e as conclusões diferentes que cada um de nós tirou.
Além das nossas diferentes sensibilidades que já de si fazem com que encaremos e analisemos coisas iguais de maneiras diferentes e com diferentes emoções.
pois, eu quando disse meios não queria própriamente dizer mass media... mas prontos, percebi-te e concordo contigo...
e é verdade quando dizes que procuro noutros sitios, menos à vista, os meus herdados pertences culturais...
se há algo que tenho, prezo, batalho por conservar e fazer crescer - algo que considero uma dádiva que muito acarinho e protejo - é o meu espírito crítico... a partir do momento que se espera que alguém raciocine por nós passamos à fase de autómato... deixamos de viver, no sentido que eu encontro à vida...
mas a minha questão pôe-se perante a classificação generalista de comercial/alternativo... para mim não existe tal - existe comercial de massas/comercial de minorias... de uma forma muito simplificada, percebes?
as diferentes sensibilidades de que falas fazem parte do lote de pequenos gérmens que remanesceram da individualidade asfixiada que eu refiro como a centelhga de individualidade que nunca se perde... mas mesmo essa pode ser mitigada e padronizada - vê o caso da sensibilidade portuguesa relativamente a timor - muitos complexos de culpa + uma inundação mediática de intenções = uma manifestação social há já muito tempo não vista por cá... gostava que fosse assim relativamente ao poder político, tb...
e que alguém acabasse com o portas...
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 14h49tás a ver como me perdi :)
quando falei do caso de timor, queria dar um exemplo de pessoas que reagiram por impulso a conclusões tiradas por outros. este é um exemplo moralmente bom, por que a causa era boa.... mas quando as pessoas são pelo mesmo método convencidas que "portugal está de tanga" já não é moralmente tão aceitável...
e quando digo que queria ver uma sublevação popular contra o poder politico, queria que fosse consciente
quanto ao portas, tanto fazia, desde que acabassem com ele... (portas paulo - o miguel eu curto)
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 14h53concordo basicamente com tudo o que dizes... é um discurso muito parecido com o meu.
e até concordo que existe um tal "comércio de minorias". mas a diferença é que enquanto a massa come o tal comércio de massas sem pestanejar, as minorias questionam até o "comércio de minorias" e não o comem apenas por ser dirigido a eles.
A questão é basicamente essa: questionar tudo!
E também acho que tens toda a razão: a questão de Timor vai de encontro àquilo que falamos antes: as pessoas vão atrás de tudo o que lhes dizem, se lhes for dirigido da maneira correcta.
Assim como agora será muito fácil o Paulinho das Feiras suscitar um racismo exarcebado com a conversa fácil de os emigrantes roubarem os poucos empregos que há. É tão tão fácil. As pessoas nem pensam - reagem. São comandadas como robozinhos, manipuladas por demagogia.
Seja para o bem, seja para o mal...
Sublevação consciente??? Nem no 25 de Abril houve tal... o povinho esteve e está sempre sossegadinho no seu canto à espera que algo ou alguém lhes diga para onde ir. Não vive sem um paizinho e às vezes acredito piamente que sentem muita falta de um Salazar que lhes dite todas as regras.
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 15h04és capaz de ter razão... mas...não sei... sou um romântico que sonha com maios de 68 agendados para de cinco em cinco anos... :)
IMAGINAÇÃO AO PODER!!! - é e sempre foi e provavelmente sempre será o melhor slogan político de sempre... passe as redundâncias, passem todas, sff
e há raciocínios tão óbvios: ainda hoje ví no jornal que a partir de 2010 a nossa população vai começar a diminuir... quem se espera que trabalhe? os velhinhos? quem se espera que trabalhe para que faça descontos para a segurança social para pagar as reformas aos velhinhos? as crianças que não nascem? e a produtividade, essa meta máxima, como melhorá-la sem mão de obra? - aiaiaiaiaiaiai que me mete tanto nojo tanto asco TANTA NÁUSEA aquele %&%&" de $*$%# daquele fundamentalista...
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 15h10mas se a população não diminuir, quem morre é o planeta....
estamos a consumir todos os recursos sem moderação nenhuma... e não acredito sequer que se vá a tempo...
eeerr... acho que mudei drásticamente de assunto...
mas posso voltar já a ele:
que me mete tanto nojo tanto asco TANTA NÁUSEA aquele %&%&" de $*$%# daquele fundamentalista...
posso fazer minhas as tuas palavras?? ;)
o imenso magnetismo da anulação do indivíduo... a constante procura de um qualquer Pai que vele por ele, a instituição, o oráculo, o opinólogo, o jornalista que moraliza, o livro condensado, o não-livro; as ideologias e as praxis políticas totalitaristas, o apelo da colónia - em que o sofrimento é repartido mas em que o individual mais não é do que uma peça substituível numa engrenagem que o anula; as saudades do oligarca que acena e promete ler (fazer) tudo aquilo de que necessitamos.
é fascinante.
somos todos fascinantes.
a culpa não é do homenzinho nem da instituição: é a espécie, esse rascunho cobarde com paralisia histérica.
(desde que li o Fahrenheit 451 que sei o nome que vai ter a minha livraria)
Dito por: josephK no dia 11 de dezembro 2003, às 01h06E o que eu adorei o posfacio do livro!!! e a Coda!!! :)))
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 10h22É uma arma...DE PONTARIA!
Tal como a cantiga, tudo depende da bala e da pontaria.
Um abração daqueles do
Zecatelhado
:)))
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 14h20