Queríamos distribuir recordações às pessoas da sua intimidade. Diante do saco de palha, cheio de novelos de lã e dum tricot inacabado, diante da sua pasta, das suas tesouras, do seu dedal, a emoção submergiu-nos. É sabido o poder dos objectos: a vida petrifica-se neles, torna-se mais presente que em nenhum dos seus instantes. Jaziam sobre a mesa, órfãos, inúteis, esperando transformar-se em coisas sem préstimo, ou encontrar um outro estado civil: o meu estojo, que herdei da tia Francisca. Destinámos o seu relógio a Marta. Ao tirar o cordão preto, Poupette pôs-se a chorar: «É idiota, não me sinto fetichista, mas não posso deitar fora esta fita. —Guarda-a». É inútil pretender integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face duma coisa que o não é: que cada um se desembarace à sua maneira na confusão dos seus sentimentos. Compreendo todas as últimas vontades, e também que não se tenha nenhuma; que se apertem nos braços as ossadas, ou que se abandone o corpo amado à vala comum. Se a minha irmã tivesse querido vestir a mamã ou desejado guardar a aliança, teria admitido as suas reacções tanto como as minhas.
Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena
atirei uma chave ao mondego...
guardei,
o xaile da minha avó
o chapéu do meu avô
os tapetes
a chávena de porcelana
um chinelo
livros de páginas
tudos de metal e cor
algodão em telas
recordações e ternura,
os objectos,
recordações de ternura
as mãos dançantes da avó velhinha
o cabelo branco do avô dos pães
o 2cheveaux do avô do bigode
a força da avó dos pães
e o cheiro a farinha
guardei
ternura em recordações.
Dito por: margarete no dia 10 de dezembro 2003, às 21h21tudos=tubos
Dito por: margarete no dia 10 de dezembro 2003, às 21h21prefiro os sentimentos às coisas.
adoro a realidade.
e as coisas não fazem parte da realidade?
a realidade - só sei, só quero viver a realidade... é a única maneira que sei viver. com todos os defeitos que a transformam em vida, em oposição ao sonho, à idealização, sem contornos reais. gosto de sentir o que é real, a sonhar com o que não existe.
a realidade é. o sonho desilude e quase sempre impede de viver quando apenas se idealiza. O ideal é a mentira em que a maioria prefere viver.
Vão morrer sem terem vivido um dia que seja...
ah! as coisas não estão isentas de sentimentos.... quem tem um fetiche com portas entreabertas, devia sabê-lo ;)
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 22h05as coisas explicam o que é real. mas não precisamos das coisas para sentir o real. o sentimento é que faz o objecto ter alguma importância na nossa realidade. as portas representam outras formas de linguagem numa encenação do que existe dentro delas. viver entre portas, numa tentativa de imaginar o real. sim, as coisas são a nossa imaginação do real.
Dito por: arosendo no dia 11 de dezembro 2003, às 01h02Tenho por experiência própria, que pequenas e insignificantes coisas no que ao valor material diz respeito, são imensamente importantes e daí insubstituíveis. Os primeiros desenhos das nossas crianças, o nosso dedal de prata que temos desde sempre, a nossa caixa pequena de pinho pintada à mão que uma tia muito amiga nos deu em dia de anos, quando ainda eramos crianças, o ovo de madeira para passajar meias (quanto tempo tem!)que alguém nos deu num momento importante, as flores secas que um dia trouxemos de um sítio que nunca mais será nosso, as ofertas das nossas crianças, dos nossos amores.
Sim, alguns objectos são importantes.
os objectos podem adquirir significados complexos, tornando-se num código linguistico para comunicação com nós próprios, com o nosso passado...
no entanto, partilho da visão do arosendo: dos objectos de que gosto, nada retiro da sua essência... pelo contrário, acrescento-lhes um significado... e é esse significado que me enfeitiça... é esse o elemento que neles busco... a imagem na qual eu os tornei... e para mim, em grande parte por opção, essa é a realidade - a que se esconde do mundo dentro da minha cabeça - o resto é uma mistura de ficção, de imaginação, de propaganda, de publicidade, de espectáculo, teatro macabro e holografia inconsequente.
Dito por: kay no dia 11 de dezembro 2003, às 10h22
Os objectos pouco me dizem. Não teria qualquer problema em livrar-me de todos os meus objectos e recomeçar a coleccionar os "meus" objectos de novo.
Posso gostar muito de um novo objecto, mas passados poucos meses sou capaz de abandoná-lo sem qualquer tipo de remorso.
Parece que o objecto se "gastou", por tanto pensar "gosto muito deste objecto, gosto muito deste objecto", este sentimento gasta-se e fica apenas um pequeno resíduo, que não precisa da presença do objecto para continuar a existir.
Enfim, feitios... :)
Dito por: Paulo Silva no dia 11 de dezembro 2003, às 10h40Paulo, diz lá, um desenho do teu filhote - deitavas fora?
Uma prenda que ele te dê - deitas fora? ;P
pois.... . .. eu tb já tinha descrito a minha relação com os objectos como sendo uma de olás e adeus.... . .. ao livrar-me deles, indiscriminadamente, estou a reinventar essa linguagem com que comunico com o meu passado, reinventar o meu código de mim, reformulando-me... as metamorfoses e os objectos como simbologia destas, também... como o casulo que se deixa para trás...
Dito por: kay no dia 11 de dezembro 2003, às 10h49essa pergunta não era para mim, mas apetece-me responder...
a esse tipo de objectos, que não se é capaz de deitar fora, que são muito poucos, eu escondo-os, coloco-os em locais que sei que os manterão longe da minha vista até eu me esquecer deles, mas que também sei que mais tarde, talvez muito mais tarde, os irei re-descobrir... não é mandá-los para o lixo da lipor, é mandá-los para o lixo da memória, tendo como certa a sua reciclagem, transformando-os em luz e calor, no dia da redescoberta do tesouro esquecido
Dito por: kay no dia 11 de dezembro 2003, às 10h54exactamente pá! é isso mm kay! é isso mm!
é pá! há imenso tpo que ninguém escrevia assim, sílaba a sílaba, exactamente o que penso... sinto.
"reinventar essa linguagem com que comunico com o meu passado, reinventar o meu código de mim, reformulando-me... as metamorfoses e os objectos como simbologia destas, também... como o casulo que se deixa para trás..."
obrigada, elephant! (desculpa lá o baptismo)
é isso mm que digo qdo digo que me fique a memória como objecto restante,
d., mm os desenhos das crs, mm esses, podem ser reinventados
parece, mas não perdi o amor aos 'meus' objectos
gosto de 'ter' objectos do passado de alguém.
ehehehehhe
pois eu não me rendo.... adoro os poucos objectos que trouxe do passado. Sinto-me ligada a eles.
Se sobreviveram a essa metamorfose, hão-de sobreviver a tudo.
E não me consigo separar de algo que alguém mais querido me tenha dado.
E uma foto... uma foto que não me larga :)
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 10h59"Paulo, diz lá, um desenho do teu filhote - deitavas fora?
Uma prenda que ele te dê - deitas fora? ;P"
Isso foi um golpe baixo, menina dolphin.s eh eh eh....
Digamos que tudo o que seja "meu" eu sou capaz de jogar fora sem grandes problemas... mas quando falo em jogar fora não quer dizer que seja para o lixo.
Sim, se o meu filho alguma vez me oferecer algo que não seja um simples cumprir de um acontecimento (aniversário e afins) mas seja algo espontâneo e cheio de sentimento, não, nunca conseguirei jogar isso fora.
Mas de resto não vejo mais nada... os meus livros ? o jogar fora significaria doá-los a uma biblioteca... não vejo grandes problemas com isso, no final da minha vida, se ninguém mais os quiser.
Faz-me aflição ver as arrecadações e garagens de muitas pessoas, principalmente as mais velhas, atafulhadas de coisas que não usam. Gosto de seguir a regra: coisa que não é usada há mais de um ano, joga-se fora.
Somos uns grandes acumuladores de lixo... e cada vez mais.
Dito por: Paulo Silva no dia 11 de dezembro 2003, às 11h01Ah Paulo, mas não é desse lixo que falo. De coisas que se acumula sem razão, porque "pode fazer falta um dia"
É mesmo desses pequenos objectos, coisas que para os outros não fazem sentido, mas porque vêm de alguém ou lembram um momento, nos são especiais.
Como a tal lembrança do teu filho.. é isso :)
O resto, hoje mais do que nunca, sou apologista: deite-se fora!!! Tá atafulhar, deite-se fora!!!
também há a questão... não se compre tanto para não haver tt para deitar fora...
=§
um mal do qual acho que não sofro e que é mto característico das gds cidades é o comsumismo (já sei... tema por demais debatido...), mas isto é mto imp, já que o sr citador falou das garagens atafulhadas e a d. ordenou o deite-se fora.
eu digo...
comprem menos, reutilizem mais.
ame-se mais a natureza.
na natureza... não precisamos objectos,
na natureza... só a memória presente das cores e dos odores.
=§
=§
Dito por: margarete no dia 11 de dezembro 2003, às 11h10"É mesmo desses pequenos objectos, coisas que para os outros não fazem sentido, mas porque vêm de alguém ou lembram um momento, nos são especiais.
Como a tal lembrança do teu filho.. é isso :)"
Sim, eu sei, eu é que tenho tendência para generalizar. :)
Esse tipo de objectos não tenho quase nenhum, ou nenhum mesmo, estou a fazer um grande esforço para me lembrar e não me lembro de nada significativo. O que é preocupante... parece-me preocupante. Não encontro mais nenhum exemplo a não ser essa do presente especial do filho - poderia ser também de outra pessoa, talvez... mas não esou a ver, ainda assim esse objecto, passados uns poucos anos, no máximo, torna-se negligenciável. Se calhar até o do filho... pois quando ele te oferece isso oferece-o naquilo que sente naquele momento, passados uns anos pode sentir algo forte por ti, mas é necessariamente diferente - pelo que o objecto (para mim) perde o valor, o sentimento que o rodeava já morreu - assim como acontece com todos os outros objectos - fica apenas o resíduo.
Enfim, paranoias :)
Dito por: Paulo Silva no dia 11 de dezembro 2003, às 11h12Para mim o objecto guarda o sentimento daquele momento. Sempre que lhe tocar revejo-o, sinto-o um pouco outra vez...
E tenho 2 ou 3 que gosto muito mas que são frutos das minhas pancadas: Uma rosa do deserto que trouxe da Tunisia - pá, é linda!!! O deserto é lindo!
Um sarcófago piquenino que comprei no pavilhão do Egipto na Expo98 - tenho uma valente pancada pelo Antigo Egipto. Valente mesmo :P
Ah, e um busto em pedra tratada para parecer muito velha, que tb trouxe da Tunisia, a imitar um pedaço de um deus Romano que está por lá, nas paredes do Coliseu muito muito parecido com o de Roma (mais pequeno, eu sei). Parece mesmo um bocado que caiu de uma das paredes :)
Aquele Coliseu fascinou-me. Quando pego naquele bocado de pedra sinto o mesmo que senti lá, perdida no tempo. Tocar a pedra que milhares de pessoas têm tocado em séculos...
Adoro História :)))
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 11h21tás 'tia'... a dizer 'piqueno'
LOOOOOOOOOOOL
imaginei-te agora de blazer armani, calças rocobarroco e mala bYblos...
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
=§
LOOOOOOOOOOL
tava a esquecer o lenço hermés...
(nota: sem desconsideração para os artistas referidos)
nhacas!!! :PPPPP
a mala então...... e o lenço... tou-me mesmo a ver eheheheeheh
e o que são "calças rocobarroco"??? 8-]
ehehehehe
tás não tás?
rocobarroco é uma marca, são calças daquelas como símbolo da marca bem visível - claro! falo de 'prêt-a-porter', pq essa gentinha, na maior parte das x nem sabe a diferença da haute...
eu não sou nem uma coisa nem outra mas á força de ter a minha mana designer vou sabendo os rid´+iculos que se fazem por aí, adoro qdo ela me conta, e ela tem um sentido de humor daqueles... afinadinho, e não tem pudor de ser 'mázinha', tipo garfield (o ídolo do cêpê...)
=§
Garfield ao poder!!! eheeheh
pelo diabo que nunca me passaria pela cabeça que fosse mesmo uma marca ehehhe
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 11h38um dia destes faço um 'piqueno' glossário de moda para ti, vais ver... é o máximo
são mm loucos.
ah! lembrei-me... uma amiga duma amiga é prof de português num curso de design de moda... é mt fixe ouvi-la falar como planeia o currículo escolar, mt fixe mm, e foi dela que afinla veio esta do glossário de moda, vou-lhe perguntar se já acabaram
=§
estou a divertir-me imenso a vestir-te (deixas-me ser tua conselheira de imagem?)
falta as argolas, o cabelo com madeixas e esticado no cabeleireiro...
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
um anel no mindinho
um paxmina (note-se... paxmina) cor de rosa choque (tenho uma mm assim, a sério!, posso emprestar-te)
sapatos ferragamo, bicudinhos (como tu gostas), de tecido 'pied de poulle' (tá bem escrito?) e forrados a amarelo
um sobretudo castanho trussardi
maquilhagem: shiseido
perfume... o toque final
(desço de qld mas sei que gostarás mt do tom 'nacionalista')
txam txam txam txam...
tommy hilfiger!
Dito por: margarete no dia 11 de dezembro 2003, às 11h59entretantch... foi-se o ordenado de uns mesitos, senão anos...
Dito por: margarete no dia 11 de dezembro 2003, às 12h00entretanto tive que me levantar do chão: caí quando me vi ao espelho.
o que raio é uma paxmina!!!!???????
sapatos ferragamo???? oh pá, isso parece o pessoal na feira a gritar: OLHÓ Ó FERRAGAMO!!! OLHÓ Ó FERRAGAMO!!! OH FREGUESA, É SÓ HOJE!!! OLHÓ Ó FERRAGAMO!!!
se me metes uma daquelas chinelas nos pés, eu juro que te mordo!!!
e assim ficou provado que os objectos, ou as coisas que coleccionamos durante a vida podem tornar-se o nosso lixo sentimental. portanto, o que muda em nós, ferro-velhos da existência, é o sentimento sobre as coisas que guardamos, escondidas ou expostas.
Dito por: arosendo no dia 11 de dezembro 2003, às 14h10..."transformando-os em luz e calor, no dia da redescoberta do tesouro esquecido"- dito por kay.
É isso mesmo. E são três ou quatro coisas, não mais. Se incluir as fotografias...são muitas mais coisas!
Os livros...bem, também exceptuando alguns (poucos), poderia dá-los a uma biblioteca.
O resto não conta.Então esses sapatos bicudos...já estão no lixo. Com esses não me atrevo a descer uma escada...
Mas não deito fora as pequenas coisas que as minhas crianças fizeram. Não teria coragem.
ouch!
tens os caninos bem afiados d.!
uma paxmina é uma cena daquelas com franjinhas que é um xaile que há cerca de uns dois anos chamávamos écharpe e agora este nome aparece mais 'in'
tenho mm uma e cor de rosa, a sério!
leonor... cuidado que ainda te visto a ti tb...
=§
Dito por: margarete no dia 11 de dezembro 2003, às 23h08margarete...tudo menos sapatos de bico!
lol
A pessoa pode não ser materialista.. Mas a realidade é que todos nós temos uma relação próxima com os objectos.. Mesmo a mais sentimental das pessoas.. Uma coisa é um objecto simbólico, um talismã.. Outra coisa são os objectos pessoais k todos nós trazemos todos os dias, nos bolsos, na carteira.. O que eu propunha agora é uma espécie de jogo.. Digam-me quais os objectos que consideram essenciais no dia a dia, e como é k os transportam ao longo do dia.. De certeza k o meu objecto essencial não será o de nenhum de voces e vice-versa.. Será k isso está relacionado com o temperamento de cada um de nós? Ou com a nossa vida profissional?...
Dito por: serrana no dia 17 de dezembro 2003, às 18h10