A minha vida dispõe de algumas testemunhas carrancudas que não me perdoam nada; surpreendem-me muitas vezes a reincidir nas mesmas rotinas. Dizem-mo, eu creio nelas e, no último momento, felicito-me: ontem, estava cego; o meu progresso de hoje é ter compreendido que já não progrido. Às vezes, sou eu próprio a minha testemunha de acusação. Dou-me conta, por exemplo, de que, dois anos antes, escrevi uma página que poderia servir-me. Procuro-a e não a descubro; tanto melhor: cedendo à preguiça, ia introduzir uma velharia numa obra nova: escrevo hoje muito melhor, portanto vou refazê-la. Quando termino o trabalho, um acaso põe-me entre as mãos a página extraviada. Pasmo: exceptuando algumas vírgulas, eu exprimia a mesma ideia nos mesmos termos. Hesito e depois atiro para o cesto o documento prescrito, guardo a nova versão: ela tem um não sei quê de superior à antiga. Em suma, é um truque: desiludido, engano-me para sentir ainda, apesar do envelhecimento que me deteriora, a jovem ebriedade do alpinista.
Jean-Paul Sartre, in As Palavras
devias compreender isto.
Dito por: arosendo no dia 23 de dezembro 2003, às 14h02