dezembro 12, 2003

O futuro mais real que o presente

Jean-Paul SartreQuando as testemunhas desaparecem, o passamento de um grande homem deixa para sempre de ser um golpe fulminante, o tempo converte-o em traço de carácter. Um velho defunto está morto por constituição, como está no baptismo tanto quanto na extrema-unção; a sua vida pertence-nos, entramos nela por uma ponta, pela outra, pelo meio, descemos, subimos o seu curso à vontade: é que a ordem cronológica explodiu; é impossível reconstituí-la: essa personagem já não corre qualquer risco e nem espera que as cócegas na narina o levem à esternutação. A sua existência oferece as aparências de um desenrolar, mas, quando se queira infundir-lhe um pouco de vida, recai na simultaneidade. Debalde tentaríamos colocar-nos no lugar do desaparecido, fingir que lhe partilhamos as paixões, as ignorâncias, os preconceitos, fingir que ressuscitamos resistências abolidas, um quê de impaciência ou de apreensão: não poderíamos impedir-nos de lhe apreciar a conduta à luz de resultados que não eram previsíveis e de informações de que ele não dispunha, nem de atribuir particular solenidade a eventos cujos efeitos mais tarde o marcaram, mas que ele viveu negligentemente. Eis a miragem: o futuro mais real que o presente. O que não é de espantar: numa vida acabada, é o fim que se toma pela verdade do começo. O defunto fica a meio caminho entre o ser e o valor, entre o facto bruto e a reconstrução; a sua história torna-se uma espécie de essência circular que se resume em cada um dos seus momentos.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em dezembro 12, 2003 12:35 PM
Comentários


Porra, dolphin, na minha leitura recente com "As Palavras", não tive o discernimento de isolar este excelente excerto, que resume muito bem grande parte das ideias que Sartre quer transmitir na sua obra.

Boa ! :)))

Dito por: Paulo Silva no dia 12 de dezembro 2003, às 15h04

;)

Dito por: dolphin.s no dia 12 de dezembro 2003, às 15h17