dezembro 03, 2003

Familiaridade com os mortos

Jean-Paul SartreConservo ainda hoje esse vício menor, a familiaridade. Trato esses ilustres defuntos como caloiros: acerca de Baudelaire, de Flaubert, expresso-me sem rodeios e, quando me recriminam por isso, tenho sempre vontade de responder: «Não se metam nos nossos assuntos. Eles pertenceram-me, os vossos génios, tive-os nas minhas mãos, amei-os apaixonadamente, com toda a irreverência. Vou então trazê-los nas palminhas?» Mas do humanismo de Karl, desse humanismo de prelado, livrei-me no dia em que compreendi que todo o homem é o homem
todo. Como são tristes as curas: a linguagem é desencantada; os heróis da pena, meus antigos pares, despojados dos seus privilégios, retornaram às fileiras: visto luto por eles duas vezes.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em dezembro 3, 2003 10:19 AM
Comentários

Boa, dolphin.s, vem mesmo a propósito, vê-se que fizeste o trabalho de casa. :)

Para que ponhamos os mortos no seu lugar e não haja aqui mal-entendidos. ;)

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 10h18

um grande lugar Paulo!

quem me dera que muitos vivos se pusessem no seu lugar e se disposessem a aprender algo com estes mortos ;)

Beauvoir, Sartre, Al Berto, Alba, Camus...

almas grandes....

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 10h29

Mas não fazem isso, dolphin, não fazem... têm vergonha... como os que usam máquina de calcular e não têm vergonha de não saber a tabuada porque usam a máquina de calcular... é mais "avançado"... quantas coisas antigas que foram descobertas e se perderam na noite dos tipos e que o homem ainda não descobriu ?

Quantas bibliotecas de Alexandria ?

Podes crer que, se pudessem, alguém algum dia iria pôr fogo ao Silêncio... para acabar com estes caquéticos veneradores de mortos de uma vez..

Que venham pensamentos actuais melhores, estamos de braços abertos, sem falsas ironias, se vamos buscar estes e não outros e porque não encontramos os... outros. Existirão ? Ou estarão eclipsados e amordaçados pela "modernidade" ?

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 10h36

os vivos que apenas reclamam, fariam um melhor serviço a si mesmo, se nos iluminassem com a luz do seu pensamento.

nunca puz de lado os vivos. admiro muito alguns vivos. estou aberta a ouvir e aprender com toda a gente. e não são só escritores e filosófos, gente igual a nós, que têm tanto para dar como estão dipostos a receber.

mas aqueles que apenas criticam, falam mal, menosprezam, e nunca, mas nunca dizem algo que valha a pena partilhar, simplesmente porque isso é a única coisa que têm de seu, esses, esses não me ensinam nada, simplesmente porque não têm nada para dar para além de mau-humor, rancor, frustração.

gosto de te ler a ti, a margem.. o Carlos, o kay, a margarete... e etc (que me perdoem as omissões)... aprendo outras visões, outros estares, outros conhecimentos, com todos vocês.
Simplesmente porque vocês dão, não destroem.

É essa a diferença: querer apenas destruir e não dar nada.
Não merece receber nada em troca também.

ps. um dia destes volto a agarrar num livro do Saramago e passamos a ter mais um vivo no Silêncio... mas algo me diz que esse vivo também não agrada ao juri ;)

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 10h48

bom dia minha querida dolphin, e se tentasses lobo antunes? eu gosto tanto, sabes? serve os vivos! mas tu é que mandas, está bem? e nada de ressentimentos.

Dito por: arosendo no dia 3 de dezembro 2003, às 11h16

Admiro o seu trabalho, a qualidade e coerência do Silêncio, agrada-me sobremaneira o espírito com que o conduz e diariamente nos dá uma lufada humana de profundidade e humanidade através dos livros que amo....todos os que falam da alma e do SER. Já não passo sem uma visita...

Acho que foi Platão que disse: "Quem começa por queimar um livro, acaba queimando pessoas"...como HYSPÁCIA de Alexandria que foi cortada viva e aos pedaços por fanáticos cristãos!

Quem nada cria de belo, destrói sempre com ódio!Em Portugal faz-se imenso isso...
Continue em frente!
Rosa Leonor

Dito por: Rosa Leonor no dia 3 de dezembro 2003, às 11h17

sim amigo arosendo, esse é um dos que está na pilha lá em casa... mas tempo.. .tempo...
um dia destes chego lá.... é mesmo por disposições de altura e paixões...

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 11h20

Brigada Rosa :)

e vou guardar essa citação :))

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 11h21

Ora o Lobo Antunes !!!

Um dos meus escritores preferidos, arosendo - já li alguns livros dele, gostei particulamente (marcou-me bastante) de "A Ordem Natural das Coisas".

Sem querer criticar (quem sou eu para o fazer?) o nosso amigo "Lobo Antunes" utiliza muito o método de William Faulkner (por exemplo, o Som e a Fúria).

Claro que ainda não li livros suficientes dele para ter um veredicto (pessoal) final sobre ele.

O estilo dele adensa-se de obra para obra, basicamente é isso, deixa-nos completamente de rastos em termos de pensamento existencialista. Ao contrário do Vergílio Ferreira, que, apesar do ambiente deprimente de alguns dos seus romances, nos deixa sempre uma luzinha no fundo do túnel, o Lobo Antunes faz questão de escarafunchar o mais possível até ao fundo de nós. E depois vai-se embora, e deixa-nos entregues à angústia que nos criou.

Um dia destes volto a Lobo Antunes, já tenho saudades de ler outro livro dele.

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 11h53

""Acho que foi Platão que disse: "Quem começa por queimar um livro, acaba queimando pessoas"...como HYSPÁCIA de Alexandria que foi cortada viva e aos pedaços por fanáticos cristãos!""

Talvez, não tenho certeza disso... o que tenho certeza é que, é de Heinrich Heine a seguinte citação:

"Onde quer que livros sejam queimados, os homens serão também, eventualmente, queimados"

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 11h56

"o Lobo Antunes faz questão de escarafunchar o mais possível até ao fundo de nós. E depois vai-se embora, e deixa-nos entregues à angústia que nos criou."

isso mm.
pois as tarefas são nossas. por isso falar da morte. e da vida. e dos livros. e dos escritores. mortos e vivos. e por isso mm perceber que se tem de nós da nossa angústia, não pode obedecer a uma determinad interpretação aparentemente bloqueada num qq lugar que não dá para perceber.

transcrevo uma passagem de muitas que sublinhei ontem (um dia destes envio-te sr.citador):

"(...)a leitura é também autobiográfica, é também ela experiência, resistência."
Silvina Rodrigues Lopes

pois, acima de tudo e quase tudo, a leitura como uma autobiografia

(perdida pelo escritor para sempre, a responsabilidade de a ter oferecido é exclusivamente dele)

a leitura, o corolário da escrita

a sua interpretação, corre, quase sempre, o risco de ser um acto de grande pretenciosismo, nem sequer chega a ser arrogância


(e isto para quem acabou de dizer que não consegui teclar hoje, já vai longo)


Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h11

"a leitura é também autobiográfica"

este devia ser o sub-título do Silêncio :))))

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 12h14

exactamente!

foi isso mm que eu pensei...

isto parece a descrição do que é, para mim, o silencio, aliás, tu sabes o que é para mim

é isto que gosto no silencio, uma golfinha, de ferro e perfume, que partilha os seus sublinhados 'autobiograficos', pq a autobiografi que vem do exterior é a mais completa de nós

sinto que escrever é quase um exercicio para ter cromos para a troca - 'eu escrevo-te que não te conheço, por favor, escreve-me de volta para me encontrar'

não sei se fiz sentido, tenho vindo a avisar que tropeço nas palavras, após as férias espero que melhore.

o silencio, autobiográfico...
ok
mas não arrogo a conhecer-te daí, só um dedinho, talvez

8)
jinho e xi

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h20

conheces mais do que o dedinho... e compreendes bem o silêncio, e o que significa para mim ;)***

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 12h22

quer dizer que fiz sentido?
falo a sério!

...sei mm que tropeço e com estas coisas da 'qualidade' (não estou a provocar, estou a falar a sério!), com estas coisas da 'qualidade' fiquei, sei lá, inibida, vejam lá uma cachopa escorreita como eu prá ki com dúvidas de teclado...
enfim.

contagia-me, d., com a tua força.

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h27

ATENÇÂO

não queria com este discurso desviar a atençaõ do texto e sua discussão que vai muito bem.

(txiii, tou mm dramatizada, a justificar-me e tudo... são as consequências...)


8|

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h28

""(...)a leitura é também autobiográfica, é também ela experiência, resistência."
Silvina Rodrigues Lopes"

CINCO ESTRELAS para essa citação !!! Obrigado, margarete !!

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 12h28

eheheheheh

como vês, não fui a única a gostar do sentido que fizeste.

e essa conversa da qualidade é para eu te mandar à merda, não é?

(lembro-me sempre da Maria de Medeiros com o Joaquim de Almeida: vai à merda.... vai tu... LOL)


As conversas sempre foram como as cerejas, e as que vêm a seguir não têm menos importância por não serem as primeiras ;P

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 12h31

vai à merda, d.

isso é que eu gosto de te mandar á merda, significa que estás com um sorriso na cara.

sr.citador, arranjo forma de te enviar os outros 'sublinhados'.

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h35


Manda mail para

citador at citador.pt

;)

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 13h15

eu digo 'arroba'.

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 13h29

eu digo cerejas, palavras meninas.

Dito por: arosendo no dia 3 de dezembro 2003, às 13h38

eu conheci quem lhe chamasse alfarroba eheheheheh

Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 13h38

sempre em sintonia. até no tempo. mas agora vou até espanha, mesmo com chuva. o meu diário.

Dito por: arosendo no dia 3 de dezembro 2003, às 13h43

alfarroba!

LOOOOOOOL!

Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 14h01