A verdade e o erro do que nos põe em causa o destino são o saldo indistinto de uma indistinta procura do nosso equilíbrio interior. As razões que os justificam são como a desculpa de quem é apanhado em flagrante: as suas raízes mergulham onde já as não sabemos. Só serão «objectivas», meu amigo, as verdades indiferentes, essas em que nada de nós está comprometido. Mas quantas são as verdades que nos não comprometem? Que a verdade de Copérnico seja o erro de Ptolomeu, que a Terra gire em torno do Sol e não o Sol em torno da Terra, pode pagar-se ao preço máximo que é o preço de uma vida. Um problema de verdade-e-erro só é nosso quando o sangue o reconhece.
E no entanto — ou por isso, porque nos afectam a vida — são essas verdades sem estalão visível para aferi-las, as que mais profundamente nos afirmam ou mais radicalmente recusamos: tais verdades não se aferem por um estatuto, mas são antes a nossa própria carne, a tessitura do que somos, a indizível realidade do nosso ser — e nada há mais evidente que a nossa própria pessoa.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
tão linda a minha dolphinzita!
:)
a objectividade, a a factual observação da realidade, só existe em termos subjectivos
essa diferença entre todos e cada um, que pode ter origem na já referida "sensibilidade" primordial do indivíduo, é um dos factores fundamentas na prevalência da nossa espécie, tal como o é a multiplicidade de colecções de genes
a realidade é uma percepção - subjectiva - a análise da mesma, o esmiuçar, o autopsiar dessa percepção pode, por caminhos travessos, levar às conclusões "realmente objectivas", não frágeis reféns do contraditório - o que não sendo liquido, pode ser bastante sólido...
ou seja: a realidade está na minha cabeça, e na tua e na deles... aí somos objectivos. a subjectividade é tudo o que a envolve, é tudo o que não é certo, não é fundamentado, não é alicerçado, não é o nosso "sangue" nem a nossa carne nem o nosso ser
uma e outra, ob e sub, não são no entanto, nunca, a meu ver, carimbos desprezáveis - nenhuma tem mais valor quando posta frente a outra - podem sim, e convém estar sempre atento a isso, ter pesos diferentes...
Dito por: kay no dia 11 de dezembro 2003, às 14h22