O sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o ar que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimo-nos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade — no que afirmamos ou negamos. Muita gente, meu amigo, nos explica que tal modo de sermos unos, de habitar-nos a evidência que nos coube, é o fruto da erosão ou da sedimentação do que isto ou aquilo corroeu ou semeou em nós. Sim. Mas a pedra que a água desgastou, se pudesse conhecer-se, ignorava como vã a explicação da água e do tempo, sabia-se inteira, irredutível, na sua condição de pedra mutilada. Ela seria apenas a verdade absoluta de ser pedra com desgaste, no instante em que se reconheceu assim.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
acreditam em absoluto ou em essência?
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 11h44essência... duvido sempre da existência de um absoluto
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 11h48Não será o absoluto a essência ? ou seja, o absoluto como forma complexa combinada de milhões de formas a partir dos aspectos da essência ?
Ou isto é a discussão do sexo dos anjos, talvez, ou do ovo e da galinha... :( ;)
Dito por: Paulo Silva no dia 4 de dezembro 2003, às 11h55a essência será algum dia um absoluto? não está sempre em mutação, em construção?
;P
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 11h58Essência, é a ideia principal, um conjunto das qualidades pelas quais um ser existe e se define. Essência no sentido filosófico é por oposição a acidente: o ser próprio ou verdadeiro das coisas, que produz, sustenta e torna inteligível a forma das mesmas. não será aqui que está o Absoluto, ou então o Uno de toda a essência reunida...
[acho que me troquei todo :$ ]
"um conjunto das qualidades pelas quais um ser existe e se define. "
por isso mesmo, sempre em construção... redefino-me todos os dias... ou quase :/
pelo menos em dias em que não tenho tanto sono como hoje ;)
um Absoluto não será algo já definido, construido?
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 12h17mas onde reside a essência!!?? a pergunta do paulo não me incomoda e acho mesmo que aponta para o caminho.
é preciso invocar a antítese (destruição/reconstrução) para posteriormente criar a tentativa de um laço sobre a destruição e a reconstrução. Esta ideia vem do facto que para se chegar ao Uno, à realidade absoluta, teremos que passar por várias contradições, até irmos apurando uma nova ideia (reconstrução, mutação), mais completa do que a primeira, aquela donde partimos. é como na Filosofia de Hegel, em que continuamos de ideia em ideia, cada vez mais incompleta, transitando para a sua antítese, com a qual temos de conbiná-la numa nova síntese, até se atingir a Ideia Absoluta, que é adquada a descrever a Realidade Absoluta.
embora goste mais da Essência, vejo-me obrigado a sentir o Absoluto...
"um Absoluto não será algo já definido, construido?"
o meu comentário anterior diz que sim, mas que para lá chegarmos é preciso construir destruindo tudo em que nos apoiamos (agora) para uma verdade superior.
será que com isto, nós no presente momento somos essência a caminho para o absoluto. assim como a regressão do universo para os primórdios de um novo big bang :$
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 12h30"um Absoluto não será algo já definido, construido?"
o meu comentário anterior diz que sim, mas que para lá chegarmos é preciso construir destruindo tudo em que nos apoiamos (agora) para uma verdade superior.
será que com isto, nós no presente momento somos essência a caminho para o absoluto. assim como a regressão do universo para os primórdios de um novo big bang :$
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 12h30ai ai que a cabeça não me pára.
penso então que a realidade absoluta será o Nada. é nesse nada que todo o universo subsiste. nunca pensaram, onde é que o universo se apoia?????????
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 12h32os teus conhecimentos de filosofia ultrapassam-me completamente :)
mas tentando pegar no que dizes, eu não consigo sentir o absoluto precisamente por me sentir sempre em reconstrução, nunca me sentir completa, acabada, logo, nunca atingindo a Ideia absoluta nem de mim, nem de nada.
vivo na essência de mim, que vou construindo. Sem atingir o absoluto, como senti-lo?
não sei se isto faz algum sentido... é uma tentativa de passar o que sinto :/
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 12h33ehhehehe
tás a dar cabo da minha também Nelson... e depois do dia de onte, isto hoje tá em fogo lento... e tu estás a acordar-me de maneira mto violenta :P
mas sim, de vez em quando é uma ideia que me acorre, mas que se dissipa de tão abstracta, ou na impossibilidade de ter uma resposta.
mas na minha cabeça faz sentido o que dizes. Se o universo se apoia no Nada, então a realidade absoluta, será o Nada, o final de todas as ideias e todas as coisas. o último destino.
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 12h36Nós estamos sempre em reconstrução, é um facto - por isso a essência pessoal é algo muito perene.
Assim como da umanidade, extrapolando... a nossa morte e o nascimento de novos seres é o principal obstáculo à evolução, uma vez que os novos seres, pelo menos de uma forma que pudesse fazer a diferença, estão a marimbar para a tal re-construção, para a tal evolução da humanidade (não em termos técnicos, claro, como sabemos). Cada ser novo que aparece quer viver a sua vida, a sua vida conta para ela própria, talvez aprenda e interiorize algo do ensinamento do passado e da sua experiência, e acrescente mais lago que pode contribuir para a re-construção, mas depois a humanidade em geral, coloca-o num quadro, num museu, nos livros de filosofia, quais macacos numa jaula e continuam a cometer os mesmos erros que os seus antepassados milenares cometeram.
A história repete-se, existem avanços esporádicos, mas que não são significativos para a humanidade.
Esta só os conhece sob a forma de ideologias, sobretudo politicas, que tem efeitos catastróficos como a história várias vezes provou.
Por isso não acredito na re-econtrução. Há reconstrução individual, sim, pode haver, mas cada vez que nasce um ser novo, este tem que passar pelas mesmas experiências que por vezes levam uma vida, para lá chegar, e poucos chegam aquele ponto em que, a partir daí, poderiam contribuir significativamente para uma re-construção real.
Por isso, falar-se em reconstrução da humanidade é, quanto a mim, utópico.
No entanto, a cada esquina, temos ainda um novo ideólogo, que, se a ideia pegar, lança umas ideias, comete uns massacres e tenta levar a humanidade prá frente.
Pois as pessoas, na sua esmagadora maioria, pouco se importam com a sua "re-construção" - querem é viver a sua vida.
Dito por: Paulo Silva no dia 4 de dezembro 2003, às 13h09Ah! E as pessoas em geral precisam de alguém a quem seguir, a história prova-o em milhares de exemplos.
Não se querem dar ao trabalho de pensar, mas seguem facilmente alguém que dê umas ideias fixes. As pessoas querem mudança, sim, mas vão sempre atrás de meia-dúzia de lunáticos, por mais "normais" que eles pareçam.
Em "Os Irmãos Karamazov", de Dostoievski, há um conto que explica muito bem esta ideia, qualquer coisa género "Inquisidor", a tentaiva de regresso de Cristo à terra para libertar os homens que o inquisdor convenceu, por A+B, que os homens não querem ser libertados
Dito por: Paulo Silva no dia 4 de dezembro 2003, às 13h13as nossas eternas discussões e eternas frustrações ;)
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 14h02Paulo, concordo com o que dizes.
a nossa afirmação passa em muita parte pelo nosso individualismo, precisamos errar para crer.
cometem-se os mesmos erros (pensemos na inquisição, ou nas batalhas ao virar de cada condado), mas creio que as escalas (em proporção com os séculos passados) têm diminuído, não será esta uma reconstrução?
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 14h13"Ah! E as pessoas em geral precisam de alguém a quem seguir, a história prova-o em milhares de exemplos."
então há que reconstruir novos líderes (esta é a parte utópica) ;)
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 14h15têm diminuido, ou estará a grande catástofre à espera de acontecer?
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 14h16pois... utópica mesmo... lideres é coisa que não se vislumbra :/
Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 14h22"têm diminuido, ou estará a grande catástofre à espera de acontecer?"
a tua pergunta é inquietante e emenda (o que eu errei) o meu comentário... ou seja, de facto têm diminuído, mas o poder de destruição de hoje é MUITO maior do que nos séculos passados...
Mas, e se a humanidade nos tempos da idade média, tivesse acesso às bombas atómicas e às armas químicas, teriam o medo que nós temos em as usar? eu penso que não... penso que aqui há então uma evolução pela nossa parte. contudo, o Homem continua a cair no erro de ser Homem...
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 15h28"Ela seria apenas a verdade absoluta de ser pedra com desgaste, no instante em que se reconheceu assim."
Caramba, só agora vejo o poder desta frase! O Absoluto ignora o tempo (espaço) passado, apenas reconhece o presente e com o que dele fazemos, não terá isto a ver com o que Hegel nos diz acerca de apurarmos a ideia, eliminando o que não interessa (neste caso o passado depois de filtrado), apanhando-lhe a síntese que realmente interessa caminhando para o apuramento.
Dito por: nelson d'aires no dia 4 de dezembro 2003, às 15h34Nem mais, nelson, é isso mesmo, na minha opinião.
Dito por: Paulo Silva no dia 4 de dezembro 2003, às 17h47