Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um Sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim. Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão. O dia cresce, sem luz — e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a ultima vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te.
Al Berto, in O Anjo Mudo
ola d,
estou a comentar a partir do meu telemovel e estou engarrsfado em espinho. nice post.
ehehehe
Olá Altino! O Silêncio para passar tempo no trânsito... eheheheh
bem.... eu passo-o com os livros de que vou deixando rastro aqui ;)
Por vezes é cruel o que sentimos quando já não sentimos. E este é um bom texto para dar a ler esse facto, com as palavras fundas, cortantes e sempre muito belas com que Al BErto foi povoando as páginas que deixou.
Dito por: Sara Figueiredo Costa no dia 5 de dezembro 2003, às 22h20'deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói'
pois ' o coração não pode ser partido, mas pode ser rasgado'.
rasgo
rasgar
rasgado
são intenso não são? (eu acho)
não tenho certezas qto ao 'matava-te', mas tenho certezas qto aos rasgões, e a sua longevidade, só piora, são feridas estranhas de sarar... os rasgões.
Dito por: margarete no dia 9 de dezembro 2003, às 10h10matava-te... é a metafora para a força da dor que sentimos... uma maneira de a arrancarmos um pouco de nós.
Dito por: dolphin.s no dia 9 de dezembro 2003, às 10h57é um grito
Dito por: dolphin.s no dia 9 de dezembro 2003, às 10h57sim...
mas não tenho certeza, matar na alma é mais morte do que no corpo, e eu não sei se matava, sou demasiado cobarde.
tb não sei se matava... mas acho que gritá-lo alivia... quanto mais não seja para nos enganarmos com a nossa força.
Dito por: dolphin.s no dia 9 de dezembro 2003, às 11h05AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!
Dito por: margarete no dia 9 de dezembro 2003, às 11h56LOL!!!
Dito por: dolphin.s no dia 9 de dezembro 2003, às 12h09