Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.
Al Berto, in O Anjo Mudo, Nunca mais o Lembraremos
o nosso mundo são as pessoas que cá deixamos quando partirmos. mas é preciso haver pessoas para sentirmos que perdemos o mundo quando nos apagamos.
Dito por: arosendo no dia 2 de dezembro 2003, às 21h19a morte só existe para os que ficam... e nós só existimos por eles.
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 21h49O homem, é a sua morte.
Conta-se a sua história até aí (ponto final)
Depois disso, fica a lembrança da sua vida.
(Fica?)
o silêncio é uma sala com mortos pendurados no pensamento de quem se acha vivo. al berto. sartre. beauvoir. camus. alba. meninos santinhos no altar da ignorância de quem reza missa intelectual por eles. invejamos os mortos porque eles levaram o mundo com a sua morte. ajoelhamo-nos perante as suas obras porque o medo é a interpretação da nossa vida.
Dito por: arosendo no dia 3 de dezembro 2003, às 00h55Até que a morte nos separe... até que a saudade nos arrebate... estaremos vivos enquanto soubermos e sentirmos que nos sentem e nos sabem e que alguém nos ama e nos quer. O factor estar vivo perante isto será o menor de todos os pormenores.
Dito por: blueseaisme no dia 3 de dezembro 2003, às 01h01Até que a morte nos separe... até que a saudade nos arrebate... estaremos vivos enquanto soubermos e sentirmos que nos sentem e nos sabem e que alguém nos ama e nos quer. O factor estar vivo perante isto será o menor de todos os pormenores.
Dito por: blueseaisme no dia 3 de dezembro 2003, às 01h03Quer-me parecer que há imensos "vivos" bem mais mortos do que estes mortos que lemos... :)
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 08h14Quer-me parecer que há imensos "vivos" bem mais mortos do que estes mortos que lemos... :)
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 08h15Quer-me parecer que há imensos "vivos" bem mais mortos do que estes mortos que lemos... :)
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 08h18Desculpem o eco... o servidor não respondia, e eu insisti.
Já agora, uma pequena tirada do Raul Brandão:
"O hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! - e debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas"
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 08h20bom dia paulo!
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 08h45peço desculpa, esqueci-me do tratamento que lhe dirijo, por imposição minha,
sr. citador,
pois, "há imensos "vivos" bem mais mortos do que estes mortos que lemos", tb acho, mas...
...como eram esses mortos, qdo vivos?
Eram pessoas que se interrogavam a si próprios e ao mundo - em contraste com as que não o fazem, ou não o fazem de uma forma sistemática - refugiam-se nos chavões da sociedade e da religião, tal como os rebanhos de ovelhas - vivem a sua vida linearmente, deixando as questões existenciais aos anormais e eruditos.
Um homem que não se questiona é um homem que não vive na plenitude do ser humano. Ser humano é interrogar-se, e interrogar tudo o que nos rodeia. Para tentar viver a vida nos seus limites... humanos; escapando à armadilha de viver a vida nos seus limites... animais.
Pois o prazer é ilusória, a "boa" vida é ilusória, todos os prazeres se desvanecem... só se interrogando, pode o homem encontrar a sua paz de espírito, que, paradoxalmente, se define pela contemplação do mundo em que vivemos.
As nossa questões não são muito diferentes do que há milhares de anos atrás... então, faz sentido falar-se em culto dos mortos ? Somos mais "avançados" do que eles ? Não, não creio... a humanidade julga que está em constante progresso, ao desprezar a sabedoria destes e outros "mortos", está é a dar passos atrás e a recuar ainda mais no progresso da humanidade, por não quere saber de premissas importantes de pensamento que estes estabeleceram...
Reina a ignorãncia e a arrogância dos tempos "modernos"... as pessoas confundem a progressão técnica, a melhoria da qualidade de vida (será?) com o progresso da humanidade. Não, não, a humanidade não progirde, não progride enquanto desprezarmos os nossos mortos. É o mesmo que querer fazer cálculos avançados e não querer aprender a tabuada, pois isso é coisa de tempos antigos.
Esses mortos, quando vivos, viveram a vida na sua plenitude, não acredito que tivessem menos "prazeres" que nós, independentemente de terem ou não levado uma vida regrada... pois o prazer do prazer rapidamente se esgota, como tu bem sabes... e só através da interrogação, podes tu dar um novo elan ao prazer, ou por ti próprio, ou usando estas "muletas" do silêncio.
Não há mal nenhum em usar muletas, antes usar muletas e aprendermos a andar sem elas do que andar toda a vida de rastos como a maioria das pessoas.
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 09h11Margarete,
não percebi bem essa do sr. Citador ;) :)
não que me importe, de facto eu considero-me um citador, antes de pensador - o pensamento, a pouco e pouco, começa a carburar autonomamente, pago o preço de só me ter metido nestas andanças após os 30 anos - tenho o cérebro muito enferrujado, falta-me a elastcidade mental que devria ter sido exercida na adolescência, que foi dirigida para a área das matemáticas.
Mas como dizem que bons matemáticos dão bons filósofos, ainda tenho esperanças... não de me tornar um bom filósofo, nada disso, mas de carburar um pouco mais dois mil anos de pensamento existencialista. Mas para lá chegar, estou num processo de auto-formação, de Citador... mas abarcando o máximo da diversidade possível, sem meter palas, como Citador a minha máxima é: para qualquer citação, existe sempre a sua contrária.
Só conhecendo ambos os lados posso começar a formar o meu pensamento. É um princípio
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 09h16Sr citador,
sem ironias, simplestmente, pq é assim que gosto de me dirigir a ti, tenho muitos paulos, não me apetece confundir.
sr citador há só um!
8)
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 09h21estar vivo é simplesmente ainda estar vivo, seja em que condições físicas, sociais ou psicológicas forem; é não estar morto.
creio que grande parte da nossa frustração, ou de nos sentirmos "mortos" em vida, ou de termos a sensação de que tudo é monótono e inútil, advém da nossa exigência connosco e com os outros, da nossa incapacidade, muitas vezes, de valorizarmos as coisas simples da vida; quero dizer: idealizamos uma "vida" e um "estar vivo" mas como ideiais não existem a não ser como isso mesmo, acabamos sempre insatisfeitos.
mas pouco a fazer: lembra bem o Paulo a natureza humana, feita de insatisfações, questões e aspirações.
os "mortos", aqueles que aqui lemos, por exemplo, não são "santinhos" porque ninguém o é nem depois de morto. são pessoas a que, como a muitas outras, podemos atribuir valor ou não, escolher ler ou não, pensarmo-nos a partir delas ou não. escolhas nossas sempre.
falando do passado de um modo geral, penso que não o devemos cultivar, mas sim, aceitá-lo porque faz parte de nós, de alguma maneira, e principalmente retirar dele as lições que tivermos de retirar (e desviando-me talvez do assunto, é pena que a humanidade não consiga mesmo aprender com os erros do seu próprio passado histórico).
(tentei exprimir o que penso, mas tenho consciência de que na prática cometo imensos erros)
dolphin, quando cá vieres, só para dizer que esta é uma das minhas passagens sublinhadas do "Anjo Mudo" :)
(bom dia para todos! hoje tenho um dia daqueles... até logo!)
Boa achega, margem. É claro que não pretendo fazer o culto dos "mortos".
Tu defines exactamente aquilo para que eles servem... não se deve venerá-los, e sim usá-los, a nosso bel-prazer - e penso que é isso que tanto eu como o Silêncio fazem.
Por acaso, estando a ler "As Palavras", de Jean-Sartre, o homem, que devorou uma imensa biblioteca ainda na sua infãncia, faz precisamente essa apologia... o conhecimento do pensamento dos mortos para poder tratá-los "tu cá tu lá"... e a partir daí, com base na nossa experiência de vida, tirar o melhor partido e estabelecermos o nosso caminho, ainda que, como de todos os outros, vá dar a "nenhures". Mas viveremos como seres humanos na sua plenitude, explorando ao máximo a nossa existência, que é o que, afinal, é ser homem.
E Sartre consegui-o, e de que maneira !! Só é pena é que, como se lê na "Cerimónia do Adeus", Sartre tenha querido ser mais conhecido como escritor do que como filósofo - e ficou para o mundo a ideia contrária. Ele "usava" e "construía" filosofia como meio de enriquecer os seus romances... que homem, meu Deus !! (Oopss... escapou-me)
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 09h58falam os mortos; morrem os vivos.
que silêncio - este!
O desprezo pelos mortos, pelo conhecimento que os mortos nos deixam, revelam a arrogância de quem, ainda em vida, acha que já tudo aprendeu.
Aprende-se com os mortos e aprende-se com os vivos, mas prefiro a convivência de muitos mortos a alguns mortos-vivos.
lá está o velório de quem nunca apresenta ideias e acha que os outros estão sempre a atacar.
Dito por: arosendo no dia 3 de dezembro 2003, às 10h13lá está a arrogância e o ataque de quem não suporta as ideias dos outros e acha sempre que é dono da verdade absoluta e dono do direito de despejar o seu desprezo e despeito em cima dos outros.
bom dia arosendo!
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 10h17
Já não me surpreendem as tiradas do nosso amigo arosendo... são sempre na mesma onda, é sempre o mesmo tipo de discurso - pensava que essa conversa sobre os mortos, os funerais e os velórios já estava enterrada... enfim... desafio-o a mostrar as suas ideias "actuais", uma vez que ainda não vi qualquer lampejo delas até agora... isto não é nenhuma provocação, nada disso, tenho mais que fazer que andar a provocar outras pessoas, queria apenas ver se consigo "aprender" alguma coisa consigo, até agora não houve nada que me surpreendesse.
"enaquanto estou sozinho tenho a cabeça cheia de crainças mortas.
fico. permaneço, deitado no quarto, sozinho, rodeado de trsiteza e crianças mortas."
JLPeixoto
a morte é a vida (e não digo isto à laia de profundidade)
a morte é a vida
as crianças mortas existem por isso não se pode fingir só vida
tenho um livro, já encerrado num envelope, falta escrever a morada e por no correio, é um livro, como sp, são 'canções para as crianças mortas' porque eslas existem
como diz Eugénio de Andrade 'também as estrelas morrem, também elas morrem'.
(e, no meio de tanta importância morta, aborrece-me a insistência em contradizer, que me parece, por puro exercício pessoal)
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 10h54kay!
seu elephant, tens correio...
8)
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 10h55tenho que copiar esta passagem do blueseaisme (nome difícil de soletrar!!! eheheh)
"estaremos vivos enquanto soubermos e sentirmos que nos sentem e nos sabem e que alguém nos ama e nos quer"
é linda :)
e é isto mesmo...
bom dia paulo silva. um dia havemos de conversar. testemunhos vivos.
Dito por: arosedo no dia 3 de dezembro 2003, às 11h45""tenho que copiar esta passagem do blueseaisme(nome difícil de soletrar!!! eheheh)
"estaremos vivos enquanto soubermos e sentirmos que nos sentem e nos sabem e que alguém nos ama e nos quer"
é linda :)
e é isto mesmo...""
eu gosto, é "bonito", mas demasiado "bonito" para eu acreditar nisso... seria tão fácil se fosse assim tão simples... e se calhar até é.
sinto-me vivo quando acordo comigo próprio... sem precisar de quem me dê corda para acordar
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 11h46acho que esta frase fala do estarmos vivos depois da morte...
só se alguém nos recordar, se alguém que nos ame sentir a nossa a falta, só assim vivemos.
enquanto cá andamos, estar vivos e sentirmo-nos vivos, depende de nós e não dos outros ;)
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 11h50
Pois... perdi-me dolphin.s, sorry, tens razão, no teu reparo e no que dizes a seguir.
O que é melhor ? Ficarmos conhecidos depois da nossa morte (sob uma ideia falsa, muitas vezes isso acontece, lembro-me do discurso de Camus na "A Queda") ou simplesmente passarmos algo, uma ideia, anónima, que contribua efectivamente para que a humanidade dê um passo em frente ? (mas que ambição desmedida - é claro que é só uma figura de expressão)
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 12h07Não sei... sinceramente acho, que a fazer alguma diferença, nunca o chegamos a saber :/
Imaginas o Dosti a ouvir-te falar dele, como falas, hoje?
Acho que até o Vergílio Ferreira ficaria surpreendido eheheh