Era alguns de nós, o olhar
queda-se paralelo
ao do mocho
que há muito do ombro
nos voou.
Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.
Em seu retiro, velam
separando
a luz das trevas.
Este poema talvez ainda não o entendas bem. Mas o que quero dizer é que acreditamos sempre nos que amamos, não é um poema de amor lírico. Não há um só, em todo o livro. Falo, nele, da obscura influência que todo o artista exerceu, desde sempre, sobre o nosso destino. Detendo o segredo das palavras, das notas musicais, dos números, ele (o artista) empresta à vida uma gravidade e uma beleza que, um dia, verificarás que ela não tem. O título é: "Os bruxos".
Terás que enfrentar sozinha o ofício, como eu o papel em branco.
E os que depois te aplaudirem, esses, não estavam ao pé de ti antes, isto é, quando quase entorpecida, mal sabendo o que fazias, estavas a vencer, no entanto, as tuas dificuldades.
Em seu retiro, velam
separando
a luz das trevas.
erguem-se, baixam-se. Mas como explicar um poema, dir-te-ia o teu pássaro "é como acrescentar um dedo à mão".
Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.
Como se, enfermeirazinha imaginária, baixasses a febre a um doente.
Mas o poema é de uma grande economia verbal.
Sebastião Alba, in Albas
é
a poesia pode ser entendida por isso: um ferramental e profundo domínio de liguagem que permite a transposição de uma extrema economia de significantes para uma arrebatadora riqueza de significados
Dito por: kay no dia 22 de dezembro 2003, às 15h45gostei deste excerto do "Albas", sempre me fascinou o processo de criação/elaboração estética
kay, as tuas palavras ajudam a mostrar isso, disseste bem da natureza verbal da poesia