dezembro 22, 2003

Hermenêutica

Era alguns de nós, o olhar
queda-se paralelo
ao do mocho
que há muito do ombro
nos voou.

Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.

Em seu retiro, velam

separando
a luz das trevas.


Este poema talvez ainda não o entendas bem. Mas o que quero dizer é que acreditamos sempre nos que amamos, não é um poema de amor lírico. Não há um só, em todo o livro. Falo, nele, da obscura influência que todo o artista exerceu, desde sempre, sobre o nosso destino. Detendo o segredo das palavras, das notas musicais, dos números, ele (o artista) empresta à vida uma gravidade e uma beleza que, um dia, verificarás que ela não tem. O título é: "Os bruxos".
Terás que enfrentar sozinha o ofício, como eu o papel em branco.
E os que depois te aplaudirem, esses, não estavam ao pé de ti antes, isto é, quando quase entorpecida, mal sabendo o que fazias, estavas a vencer, no entanto, as tuas dificuldades.

Em seu retiro, velam
separando
a luz das trevas.

erguem-se, baixam-se. Mas como explicar um poema, dir-te-ia o teu pássaro "é como acrescentar um dedo à mão".

Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.

Como se, enfermeirazinha imaginária, baixasses a febre a um doente.
Mas o poema é de uma grande economia verbal.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em dezembro 22, 2003 01:30 PM
Comentários

é

a poesia pode ser entendida por isso: um ferramental e profundo domínio de liguagem que permite a transposição de uma extrema economia de significantes para uma arrebatadora riqueza de significados

Dito por: kay no dia 22 de dezembro 2003, às 15h45

gostei deste excerto do "Albas", sempre me fascinou o processo de criação/elaboração estética
kay, as tuas palavras ajudam a mostrar isso, disseste bem da natureza verbal da poesia

Dito por: margem no dia 24 de dezembro 2003, às 11h24