Sobre o piano vertical tcheco (é assim que devemos começar uma frase, às
vezes, por humildade, numa espécie de homenagem à nossa estupidez) vi um objecto que seria teu.
Peguei-lhe e pousei-o logo, como quem o sacode. Não era fetichismo.
Alguém viu; apercebi-me logo de que tinha sentido o que eu sentia.
A sua escola é a do olhar (a minha também, mais próxima, talvez, de Flaubert que de Beckett; a propósito, lê as primeiras páginas de "Madame Bovary", repara bem na descrição daquele chapéu).
E o que ele pensou foi: "este gajo anda com o pavor de ceder à ternura, a família perdida, os amigos já quase intemporais. O leite da ternura humana, como diria Shakespeare, coalhou nele. Qualquer dia, não traz mais livros ou pássaros a nossa casa."
Sebastião Alba, in Albas
gosto de objectos... do culto do objecto... da memória guardada neles :)
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 14h00mas também é preciso saber deitar fora.não entupir o presente com o passado.
Dito por: arosendo no dia 10 de dezembro 2003, às 14h25concordo.. e foi uma coisa que fui forçada a aprender eheheh
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 14h27os meus pais diziam-me: tens de saber deitar fora. se não sabes deitar nada fora, um dia sentes que não há espaço para ti na tua própria vida.
Dito por: arosendo no dia 10 de dezembro 2003, às 15h08eu aprendi quando deitei uma vida fora
agora, ainda faço o "culto dos objectos"... talvez ainda lhes dê mais importância, porque os que ficam, são de facto importantes (para mim) e não apenas representativos de algo que é suposto existir...
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 15h13eu guardo-os por um período só para mais tarde ter o prazer de os deitar fora indiscriminadamente
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 15h29neste momento acredito que há coisas de que nunca serei capaz de me despedir....
Dito por: dolphin.s no dia 10 de dezembro 2003, às 15h32é...
mas eu tenho essa particularidade/característica/virtude/deferito de ter uma facilidade inaudita em fechar portas atrás de mim que quando atravessava me pareciam impossíveis de deixar de outra forma que não abertas
sem nenhum tipo de desonsideração para os outros silenciosos, mas sente-se muito a ausência da margarete...
Dito por: kay no dia 10 de dezembro 2003, às 15h44há objectos fetiche que têm a ver com paixões e interesses e manias, e que pouco têm a ver com "portas" (argh! faz-me pensar no outro!!!)
e esses têm-me acompanhado... mesmo quando fecho portas.
acho que já têm neles alguma essência de mim :)
pois... e eu agora fiquei a pensar...
nunca seria capaz de me desfazer dos meus livros... (a ideia do bookcrossing é violenta demais para mim)
nem dos meus cds... nem das minhas fotografias... mas já deitei kilos de papeis escritos ao lixo... fotografias de outros e/ou tiradas por outros... mas nunca consegui deitar fora um livro, mesmo aqueles que não têm o mínimo interesse para mim...
todos os outros objectos que me envolvem são lixo que eu uso temporáriamente antes de me libertar dele...
eheheheheheheh
como ser incapaz de me desfazer ou trocar por outro em melhor estado, um livro que já li. tem que ser mesmo aquele, aberto e marcado por mim. é nele que ficou a história que li :)
uma fotografia que me ofereceram... nunca me separarei dela. sei-o.
vcs disseram coisas myo imps hoje... aqui e no outro post, e eu gosto de ter vindo só ler, 'ouvir'... muito assertivos ali em baixo, muito.
kayzinho és um queriduxo!
quem sentiu falta fui eu, inda por cima sabendo-me tão perto de ti d., e 'presa', sem poder ir xcar um xi...
não tenho problema de dizer que me faze falta, isso não invalida a minha vida de 'carne', tb gosto dos meus amigos de 'vidro', k, devagar, se vão tornando 'carne'.
prontch, acabadas as dedicatórias, vês já sabem que eu sou lamechas... 8|
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(d., eu tb copio o kay, gosto das reticências dele, como as organiza)
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culto dos objectos - "eu guardo-os por um período só para mais tarde ter o prazer de os deitar fora indiscriminadamente" (kay)
"neste momento acredito que há coisas de que nunca serei capaz de me despedir...." (d.)
pois... eu disse um dia que bastaria um pouco de sol, já disse isto, foi um devaneio da minh'alma... 'preciso' dos meus objectos... vou estando convencida que são o meu aconchego, que trazem de volta ao fim do dia...
até já me passou pela cabeça, após ter 'perdido' 'tanto', o que seria após um assalto ou um incêndio...
'perdido' assim escrito pq nada é nosso, não é possível 'perder',
...assim, se um dia, 'perder' as minhas fotos, os meus livros sublinhados, os desenhos e dedicatórias dos meus sobrinhos, os meus brincos,... as minhas queridas telas e os meus escritos...
...
...eu... eu cá estarei para reconstruir
não tenho um piano
queria ter um, mas nunca seria meu assim como essas telas
só... não queria perder a minha memória
só isso, e é já tanto,
mesmo que me doa tantas x a memória.
um beijo.
O objecto de que fala S.Alba não lhe pertencia, mas era "teu", seria de alguém de quem ele gostava muito. Porque o largou rapidamente? Sentiu que seria sacrilégio pegar nele? Como relata em várias ocasiões do seu livro, nem sempre estava à vontade com os outros e preferia afastar-se deles e dos objectos com significado.
Não sei se estou a analisar bem o texto "O Boné de Carbovari". Só sei que hoje vi o livro "Albas" numa livraria, no meio de todos os outros. Quantos livros preciosos não se encontram misturados, nas prateleiras das livrarias, com obras sem valor?
Desculpem o tom, mas ando a ler Albas e não se lê este livro impunemente.
pois não.... deixa-nos um tristeza imensa.. é inevitavel.
penso como tu, em relação a este texto.
acho que o largou rapidamente pela emoção que o objecto lhe provocou... às vezes parece que apanhamos um choque eléctrico quando algo nos toca demasiado, sem esperarmos.
também eu gosto de tocar os objectos que pertencem a pessoas que amo ... como se um bocadinho deles estivesse ali, perpétuado... quase que se sente o toque da pele, da mão que já tocou naquele objecto ...
Dito por: dolphin.s no dia 11 de dezembro 2003, às 10h28