A vida quotidiana era límpida: visitávamos pessoas assentes que falavam alto e bom som, que baseavam as suas certezas em princípios sadios, na sabedoria das nações, e não se dignavam distinguir-se do comum a não ser por um certo maneirismo da alma ao qual eu estava perfeitamente habituado. Apenas emitidas, as suas opiniões convenciam-me por uma evidência cristalina e simplória; se queriam justificar a sua conduta, forneciam razões tão enfadonhas que só podiam ser verdadeiras; os seus casos de consciência, complacentemente expostos, perturbavam-me menos do que me edificavam: eram falsos conflitos resolvidos de antemão, sempre os mesmos; as suas faltas, quando as reconheciam, quase não pesavam: a precipitação, certa irritação legítima, mas sem dúvida exagerada, alterara-lhes o juízo; por felicidade, haviam percebido a tempo; os erros dos ausentes, mais graves, nunca eram imperdoáveis: a maledicência era banida, entre nós, mas verificavam-se, na aflição, os defeitos de um carácter. Eu escutava, compreendia, aprovava, achava tais palavras tranquilizadoras e não estava errado, já que se destinavam a tranquilizar: nada é irremediável e, no fundo, nada se mexe, as vãs agitações da superfície não devem ocultar-nos a calma mortuária que é o nosso quinhão.
As nossas visitas despediam-se, eu ficava só, evadia-me deste cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura nos livros. Bastava-me abrir um deles para redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de uma ideia a outra tão depressa que eu largava a presa cem vezes por página, deixando-a escapulir, aturdido, perdido. Eu assistia a acontecimentos que meu avô julgaria inverosímeis e que, não obstante, possuíam a deslumbrante verdade das coisas escritas.
Jean-Paul Sartre, in As Palavras