novembro 29, 2003

Sóbrio e Puro

Sebastião AlbaDei-vos cartas e rosas,
nunca me deram cartas e rosas;
apresentei-vos Beethoven,
nunca me apresentaram a ninguém;
dei-vos chocolates,
nunca me deram uma ameixa;
ao papá, dei-lhe versos,
deu-me um soco da última vez que o vi.
Ai! Vou procurar outra família, chega!
Só a poesia demora. Mas há um pacto entre nós: "sempre que estejas sóbrio e puro", disse-me ela aos 25 anos, "serei tua".
E eu não estou!
Tenho pouco dinheiro, poucos amigos - morrem com uma infidelidade quase descarada, e deixam-me cada vez mais só. E não resisto a saber como estão os outros, a ir vê-los, antes que me deixem, também.


Sebastião Alba

Publicado por dolphin.s em novembro 29, 2003 02:53 PM
Comentários

Desencontros.
Demoras.
Incompreensões.
Desajustamentos.
O estado do não estar.
O estado do não estar que é.
O estado que cativa e afasta.
O estado que conserva.
O estado que conserva com fragilidades.
A procura do diferente.
A procura do que pode ser diferente.
A procura do que traga a proximidade.
A busca.
A procura.
O desejo do encontro.
O desejo de um outro encontro.
O desejo do ser que ainda não é.
O interesse.
A preocupação.
A procura da conservação.
A procura de alguma retenção.

Na sobriedade e na pureza ou não,
a necessidade da constância do insóbrio e impuro,
inegavelmente sóbrios e puros, naquele que é um estado normal numa vivência com particularidades ansiosas.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 29 de novembro 2003, às 15h18

Dei-te a verdade
Só me deste a mentira
Falei-te da minha vida
E tu usaste a minha intimidade
Fui sincero na escrita e no rosto
E não encontraste em mim o ensaio entre a vida
Abri o meu coração no teu vazio
E tu deixaste que o vazio me incomodasse
Nunca quis a tua vida
Mas as minhas palavras nunca valeram a tua existência
Não sei viver como um poeta
Mas sei viver com a tua poesia
Procuro o teu silêncio
E tu roubas o meu silêncio
Se para chegar a ti é preciso viver num galinheiro
Sebastião alba será o nosso mordomo
E todas as palavras que dissermos
Serão penas e dejectos de poesia

Dito por: arosendo no dia 29 de novembro 2003, às 20h48

Disseram-me quem o conheceu, que foi um jovem como os outros, um pouco diferente, um pouco filósofo. Disseram-me, quem o conheceu, que se alegrava com a presença de um amigo: que bom encontrar-te! Disseram-me: gostaria de o ter ido visitar a Braga. Não foram a tempo. Viveu e morreu sem nós. Nunca o conheci. Tenho saudades do Sebastião Alba.

Dito por: leonor no dia 30 de novembro 2003, às 00h26

estou a conhecê-lo agora... mto tarde, eu sei. e também já sinto saudades dele...

Dito por: dolphin.s no dia 30 de novembro 2003, às 00h44

Esqueci-me de dizer:quero recordá-lo como está na fotografia; sei que nem sempre tinha esta bela expressão. Sóbrio e Puro é um texto comovente. Pergunto-me: que foi que não fizemos?

Dito por: leonor no dia 30 de novembro 2003, às 01h16

há perguntas que já nasceram sem resposta possível...

Dito por: dolphin.s no dia 30 de novembro 2003, às 01h24

Caros amigos.

Nunca é tarde para aprender. Nunca é tarde para ler Alba, e para apreciar as lições que ele nos transmite com a sua poesia. Nunca é demais preocuparmo-nos com aqueles que tem menos do que nos, embora esse não fosse o caso do Alba. Ele não era um sem-abrigo, era andarilho... desenganem-se.

Nunca é demais preocuparmo-nos com sem-abrigos (isso sim, triste e trágico) como aquele que morreu na rua em Coimbra a semana passada..

Dito por: antipax no dia 16 de dezembro 2003, às 17h56

pois.
tens razão.
e mais triste.

a apatia com que soube

Dito por: margarete no dia 16 de dezembro 2003, às 19h35