Nessa altura eu não percebia as mulheres. Aliás, agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores. Penso-as todas, todos os dias, não demora muito, o pensamento corre tão depressa, mas não estão todas no pensamento, nem todas. Sim, há momentos, especialmente à tarde, em que fico todo sincretista, à la Reinhold, Que equilíbrio! Aliás, também as percebo mal, às minhas dores. Deve ser por causa de eu não ser todo dor. Eis o estorvo. Então elas recuam, ou eu, até que me enchem dê surpresa e espanto, vistas de um planeta, melhor. Não muitas vezes, mas não peço mais. Não é parva nenhuma, a vida. Não ser senão dor, como simplificaria as coisas! Omnidolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. No entanto hei-de falar-vos delas um dia, se me lembrar, se puder, das minhas estranhas dores, em pormenor, distinguindo entre os diferentes géneros, para maior clareza, as do entendimento, as do coração ou afectivas, as da alma (mais bonitas não há) e finalmente as do corpo propriamente dito, primeiro as internas ou latentes, depois as da superfície, começando pelo cabelo e couro cabeludo e descendo metodicamente, sem pressas, até aos adorados pés, lugar dos calos, caibras, frieiras, joanetes, unhas encravadas, pústulas, gangrena, pé boto, pé de pato, pé-de-galo, pé-de-cabra, pé chato, pé de atleta e outras bizarrias. E, aos que tiverem a gentileza de me ouvir, falarei também, na mesma ocasião, de acordo com um sistema inventado já não me lembro por quem, daqueles instantes em que, sem se estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.
Samuel Beckett in Primeiro Amor
as minhas maiores dores são as mulheres.
as minhas maiores dores são as minhas dores... e as dores dos que amo
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 14h22A minha maior dor é não sentir a dor
Dito por: Paulo Silva no dia 2 de dezembro 2003, às 15h40ah Paulo! e eu que não acredito nisso!!
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 15h44...aquelas que eu amo.
e elas as dores que amam em mim.
e eu o amor que elas amam na dor...
Eu gostava de acreditar que não acredito nisto... mas por mais voltas que dê à cabeça, acredito... e quanto mais sei, quanto mais conheço, quanto mais leio, mais acredito.
Comovo-me, é certo, ajo contra a dor e os seus efeitos, também, mas a resignação e a fatalidade e a inutilidade de se sentir a dor tomam conta de mim.
Claro que agora também podia começar a chorar-me, a dizer que já passei por várias coisas na vida que fizeram com que ficasse com este sentimento, mas não vale a pena... todos sofremos, numa maior ou menor medida, dos acasos da vida que, aos poucos, nos tornam cada vez mais imunes à dor - ou mais sensiveis, isso depende de cada um, isso também é verdade. No meu caso, cada novo revés encontra-me com uma couraça cada vez mais espessa. Nada que me dê razões para me gabar, no fundo a sensibilidade é mais importante, o que é a vida sem a sensibilidade ?
Dito por: Paulo Silva no dia 2 de dezembro 2003, às 16h23Paulo, tu não és uma pessoa insensível. Mesmo não sentido as dores do mundo - e isso acredita que eu compreendo - sentes as dores de quem te é próximo e preocupas-te.
A couraça contra os outros, mais ou menos, todos a desenvolvemos.
Também a minha está muito grossa e por isso sou apelidade de bruta tantas vezes. Não me importa, isso é o meu instinto de auto-preservação.
E por isso digo, só os que nós amamos, só os que nos são queridos, têm o "poder" de nos magoar, precisamente porque são os únicos a ter lugar dentro da carapaça.
E por isso digo que só sinto as minhas dores, aquelas com que vivo, os meus fantasmas e as minhas pancadas. E a dor dos que amo - porque já estão cá dentro.
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 16h28É melhor eu ficar por aqui.... confesso que me assustei com a leitura de "O Estrangeiro", de Albert Camus - pois identifiquei-me demasiado com o Mersault - a maneira de ele (não) sentir o mundo, mesmo os que lhes estão mais próximos, é muito parecida com a minha
Dito por: Paulo Silva no dia 2 de dezembro 2003, às 16h44okie... não te faço "esticar" mais.
mas também te digo que senti isso ;)
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 16h51eu talvez dissesse ao Paulo que é realmente difícil conhecermo-nos a nós próprios. e que há as chamadas "falsas crenças", ou seja, muitas vezes acreditamos que acreditamos em coisas, em que, de facto, no fundo, lá no fundo, não acreditamos. acreditamos que somos insensíveis e, numa dada situação, damo-nos conta que não o somos ou pelo menos não como pensávamos; ou acreditamos que podemos ser fortes e, de repente, percebemos que nem sempre o conseguimos ser; e por aí fora...
Paulo, aqui como na outra "casa" onde te vou encontrando, tens tido palavras, gestos, de sensibilidade. Mas a luta que é a vida, as responsabilidades que se tomam, tudo isso, faz-te neste momento valorizar mais a couraça de que falavam.
e ela é necessária, sim. acredita (digo eu, agora...) de quem, com esta idade, ainda nem conseguiu perceber se tem uma se não tem se é demasiado sensível ou quase nada mesmo nada.
Tu o disseste, margem !!
"e que há as chamadas "falsas crenças", ou seja, muitas vezes acreditamos que acreditamos em coisas, em que, de facto, no fundo, lá no fundo, não acreditamos. acreditamos que somos insensíveis e, numa dada situação, damo-nos conta que não o somos ou pelo menos não como pensávamos"
... acho que estava a precisar de ouvir isso... obrigado ;)
A minha sensibilidade não é nada linear, isso eu o sei. O problema é que me vejo muitas vezes a fazer um esforço para ser sensivel, por parecer que nesta e naquela sensação "tenho" que ser sensivel... é isso que me assusta... mas de resto... aquilo que digo aqui e na outra "casa" é sempre frontal, tão frontal quanto consigo ser. Se calhar não devia, há sempre por aí abutres que se aproveitam e depois largam por aí uma verborreia cínica (não estou a falar em ninguem em particular!!!), mas os beneficios superam sempre as agruras... o calor humano... isso nunca dispenso, por mais insensivel que eu me pareça a mim próprio... só que esse calor pode vir das mais variadas formas, não me prendo a nenhuma em especial, um dia pode vir de um lado, outro dia vir do outro, e deixar de vir do primeiro; ...daí a minha "insensibilidade"
Dito por: Paulo Silva no dia 2 de dezembro 2003, às 18h18margem.... tu consegues sempre dizer tudo :)))
Dito por: dolphin.s no dia 2 de dezembro 2003, às 18h29"O problema é que me vejo muitas vezes a fazer um esforço para ser sensivel, por parecer que nesta e naquela sensação "tenho" que ser sensivel... "
- foi o Paulo que disse e eu estou também um pouco nesta sintonia. Da vivência aprendemos a resistência às dores. Algumas acabam por nem ter valor, são pieguices ridículas. Outras, são tão grandes que nos defendemos delas mandando-as para o fim de tudo. Aqui está o perigo! O segredo está em conseguir continuar sensível com dignidade. É difícil! E depois o hábito ao inevitável...é muito provável que iniba a capacidade de sentir, de se ser sensível. Saber ver, saber ouvir, grandes qualidades.
Saber ouvir... sim, saber ouvir... grande qualidade... prezo-a muito, acima de todas as outras... mais vale um bom ouvinte do que um tagarela, que à foça de tanta conversa, quebra o mistério, a empatia, a cumplicidade - as palavras tornam os pensamentos vulgares, obrigando-os a se delimitarem.
Saber ouvir... é o que tento fazer, sempre. Ouvir, ouvir bem primeiro, deixar acender o pensamento dentro de nós, manter-nos quente com ele, viver, em vez de vomitar cá para fora meia duzia de bardas sem deixar que o que ouvimos faça a sua digestão, ainda este estava no esófago.
Conversas de reacção e resposta rápida deixam-me, na maioria das vezes, com uma grande sensação de vazio... faz-me sentir que não deglutimos suficientemente bem o tema.
Bom, isto que falei em cima é sentir ? É isto a sensibilidade ? LOLLLLL !!!!!!
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 08h28"sentir,
caos em letargia"
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 08h52""O problema é que me vejo muitas vezes a fazer um esforço para ser sensivel, por parecer que nesta e naquela sensação "tenho" que ser sensivel... "
- foi o Paulo que disse e eu estou também um pouco nesta sintonia."
eu também, Leonor. e penso: o que entendemos por "sensibilidade"? ter a sensação de quem se tem de ser sensível e fazer um esforço nesse sentido, como diz o Paulo, não revela sensibilidade? acho que sim.
"Da vivência aprendemos a resistência às dores."
isso é que me continua difícil mesmo. daquelas áreas em que sou péssima aluna ;)
"O segredo está em conseguir continuar sensível com dignidade. (...)Saber ver, saber ouvir, grandes qualidades."
gostei muito das tuas palavras, Leonor.
Margem!!!
à mm hora!
será possível?
8*
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 09h23pois, mas estou já já de saída.
bom dia para ti! :))
Também gostei muito das palavras da Leonor
Saber ver... saber ouvir...
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 11h10Suponho que Sartre dizia que apenas por egoismo choramos os nossos mortos (entequeridos). De maneiras que a dor, essa dor, é um subproduto do eu em confronto com o eu.
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 12h31choramos sp a falta que nos fazem.
mas a falta que eles fazem à vida é maior. quando eles eram vida e agora são morte no nosso coração de tão vivos tão vivos, os nosso mortos chorados somos nós, claro. nós a deambular. interessa muito saber se é egoísmo? não sei. seia faltam que fazem os meus mortos. sei a falta que fazem à vida ela pp. sei que os meus mortos sabia gostar da vida, e mm os de 80 anos, tinham ainda tanto para viver, choro isso e não me interessa se é egoísmo, pois o altruísmo (não confundir com pseudo-bondade), o altruísmo é gasto em vida para talvez chorar em egoísmo.
qualquer coisa assim...
8|
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 12h47O VF dizia alguma coisa do género "por que é dizes eterna saudade nos funerais ?"... não és mais eterno que aqueles que se foram
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 13h17Qualquer coisa assim...
Ninguém sabe se aquele que morre vem a ter remorsos ou arrependimento ou lamento disso mesmo. Sabe-se que a morte é de evitar, apenas porque nada mais se sabe para além dela. Pode ser que um dado sujeito, depois de morto, possa estar mais feliz ainda. Pode ser...mas eu cá não quero dar a notícia.
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 13h21e é sempre de evitar, a morte?
às vezes é apenas indiferente... às vezes não se sente que se vive.
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 13h24altino,
não sei se concordo que a morte seja a 'evitar',
aliás, discordo mm.
sr citador,
com o mm respeito que me merece qq outra persona, quanto a VF, não esqueçamos, eternamente... até morrer e por aí fora dando voltas de 360º. os meus mortos são ausentes até á eternidade, a minha.
...qq coisa assim.
8|
Eu, no minimo, evito-a. Não pq dela tenha medo mas sim porque sei que ela causaria dor. E não há maior dor do que me por a imaginar a dor dos meus filhos. E a vida também nos dá vazios, sim senhor. E muitas vezes não passamos de simples autoclismos das coisas boas que estão defronte a nós, sem as apreciar, sem as viver. Apenas despejando-as "autoclisticamente".
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 13h31" E não há maior dor do que me por a imaginar a dor dos meus filhos."
esta frase explica aquilo que defendes :)
acredito - falando sem conhecimento de causa - que tendo filhos, e tendo-os perto, será difícil sentir o vazio que nos faz não tentar evitar a morte..
mas agora lembrei-me dos idosos abandonados.... esses devem pedir a morte todos os dias... todos os minutos
Gostei de falar. Agora vou almoçar e, em genero de citação (e brincadeira) aqui deixo o maior exemplo de egoismo perante a morte:
Um homem olha para o seu penis e comenta:
- Nascemos juntos, crescemos juntos,
brincamos juntos, casamos juntos...
Por que razão queres morrer primeiro que eu?
LOL! altino.
he he.
e há aqueles homens cujo pénis está mais vivo do que eles e sua mente...
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 14h04O pénis morrer antes que o homem é um bem, não um mal... o homem tem muito por onde se realizar, e o pénis estorva-o...
O grande cinismo é que ele morra mas o desejo se mantenha intacto, segundo dizem... isso sim, isso é uma barbaridade.
Ter o desejo mas não ser capaz de o satisfazer... mas também não é isso que também acontece em muitas áreas da nossa vida ?
Volta e meia, vêm-me à cabeça (acho que já tinha dito isso aqui) aquela citação do VF: "Um casal de velhos não tem sexo" - é muito dificil de engolir, esta....
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 15h01Paulo, tudo bem. E também há aquele duo de velhos, sentados no jardim a dar milho aos pombos: "Não sei que fazer amigo. Não consigo dormir e tem sido um castigo. Faça como eu. Masturbe-se. Ai sim? E tu vens-te? Nops pah...mas canso-me".
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 15h06mas eu espero que tenha....
sexo, desejo, são parte de nós. tão parte como outra qualquer coisa de nós...
pele.. cheiro.., carne..., corpo....
Oh Altino!!! LOOOOOL!!!!
lembraste-me de uma citação da Simone de Beauvoir: A morte parece menos terrível quando se está cansado
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 15h10tás-me a provocar d.? queres david mourão-ferreira?! é, é?
sr citador! atão! atão! "o homem tem muito por onde se realizar, e o pénis estorva-o..." - que ganda citação, ó sr citador! LOL!!!
não acredito.
ó sr altino, parexe o meu pai, tem sp uma anedota para cada ocasião... essa tb tá boa.
...a propósito, numa tira da mafalda (quino)...
a mafalda: que bom! chegou a primavera!
um velho: que bom! cheguei à primavera!
8|
Brincadeira à parte, eu espero ser velho um dia e poder despertar numa nova sexualidade. Por ventura menos fogosa mas apaixonada. E depois tem sempre essa coisa boa do cheiro, da carne, o corpo enfim. E de repente lembro a morte daquele amante em pleno extase no filme "O imperio dos Sentidos" (quem o não viu?). Um estertor assim era o que eu desejaria se quizesse morrer.
Dito por: Altino torres no dia 3 de dezembro 2003, às 15h12eu não vi.
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 15h13:(
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 15h15ias gostar...
e penso como tu, Altino :)
ou melhor, espero como tu ;)
prontch
tou-me a sentir e.t.
8(
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 15h17minha frase:
beam me up Scottie :P
tu és um ET...
pois sou.
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a começar pelos olhos arregalados...
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 15h22ET phone home...
já sabes qual o número a digitar, pelo menos?
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 15h25""Brincadeira à parte, eu espero ser velho um dia e poder despertar numa nova sexualidade. Por ventura menos fogosa mas apaixonada. E depois tem sempre essa coisa boa do cheiro, da carne, o corpo enfim. E de repente lembro a morte daquele amante em pleno extase no filme "O imperio dos Sentidos" (quem o não viu?). Um estertor assim era o que eu desejaria se quizesse morrer.""
A minha sexualidade é o que menos me preocupa para a minha velhice. A sério. Mas concordo com o teu ponto de vista... é isso mesmo, temos que nos realizar dentro dos nossos limites, pois soms sempre limitados, mesmo quando pensamos que estamos na nossa plenitude...
Isto é que vai aqui uma açorda !!!! Oh malta, tenho que trabalhar, porra !!!
Bom, acho que tenho de vos deixar por agora. já li aqui coisas muito interessantes. Por sinceridade, adorei ler que alguém leu "O estrangeiro" de AC e alguém leu qualquer coisa ontem, a ouvir o velho Tom. Que bom. E que mau eu não poder ler assim tanto! Eu que tenho mil missões para fazer, mil amigos para ver, mil cervejas para beber, por vezes ainda tenho tempo para um livro, mas raramente. O que me tem acudido são estes textos de rara oportunidade que apanho no SILENCIO diariamente. Obrigado pois.
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 15h27pois pois sr cidator... e o estorvo!!! LOL
já lhe ouvi chamar mtas coisas, menos estorvo.
também eu!!! mas tu provocas!!!
a minha sexualidade não é o que me preocupa mais ou preocupa menos. aliás, acho que ainda não consigo preocupar-me a sério com a minha velhice - tirando a tua saída fantástica (grrrrr) que o máximo que conseguimos ler até morrer são uns 2000 livros.
Por enquanto preocupo-me muito mais com a velhice dos meus pais, que já não está tão longe como nós queremos acreditar.
A sexualidade é parte integrante da minha vida. Irá preocupar-me tanto como o deixar gradualmente de fazer as coisas que faço hoje.
E isto sou eu a pensar hoje, claro...
xau altino,
ter mil livros para ler não é proporcional a ter mil minutos para os ler.
devemos estar no mm pé de igualdade.
8|
d.,
é favor não falar da velhice dos pais, fico já deprimida
A SÉRIO!
vou mudar de Post.
entretanto... o sr citador fugiu da 'seringa'.
he he
'a citação virou-se contra o citador'
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 15h32para as cervejas, arranja-se sempre tempo Altino ;)
oh stouts e guinnesses!!
e o Licor Beirão... e o bom bom vinho tinto...
sem filhos, é sempre mais fácil arranjar tempo, penso eu... e mais fácil desperdicá-lo também...
leio mais nos transportes. em casa há dias, como ontem, em que leio bastante... outros em que só leio quando me deito.. e outros em que não leio nada.
e ouço música... sempre :))
"pois pois sr cidator... e o estorvo!!! LOL
já lhe ouvi chamar mtas coisas, menos estorvo."
É o que sinto, muitas vezes... sinto-me muitas vezes animal e imbecil por causa desse estorvo... mas não há como não ceder a ele... é mais forte que o nosso intelecto... é a nossa parte animal... faz parte do ser humano, tudo bem, mas tal como as reacções genéticas que nos vêm dos tempos da caverna (descontrole na irritação face ao perigo, por exemplo, o instinto de sobrevivência a tomar conta de nós em mil e um pequenos gestos do dia a dia, sobretudo nos espontâneos) é algo que não é fácil de conjugar com o intelecto...
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 15h37ai! é! é!
não tem de ser uma relação paradoxal, paralela ou contraditória.
sr citador!
tsc. tsc.
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Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 15h40mas será assim tão animal???
nós não vivemos a sexualidade apenas com instinto animal. se assim fosse o objectivo seria apenas procriação.
e para mim está aliada ao intelecto, à poesia, à música....
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 15h40sintonia d.
sr citador, a natureza, é o que primeiro nos permite amar seja o que for,
as ideias são a água mais bonita que nasce das emoções da natureza, o sexo, é forma mais mais de te sentires filho da natureza e poderes daí estar livre para parir as ideias.
...fiz algum sentido?
8|
"sem filhos, é sempre mais fácil arranjar tempo, penso eu... e mais fácil desperdicá-lo também..."
È bom que te sintas assim segura... eu não me sentiria realizado se não tivesse um filho... tenho-o e adoro-o... mas tenho consciência que não fui feito para ser pai... nada de negligências, nem pensem nisso !!!! mas fui feito para viver sozinho, eu sei-o... mas algo dentro de mim (genes?) impeliu-me para este trajecto na vida... de forma consciente... sei que tomei o passo que devia de tomar... mas de quanto eu tive que abdicar !!!! No final, terá valido a pena ? Pelos momentos que vivo agora com ele, sim, sem sombra de dúvidas!!
Pelo futuro... nem por isso.
Não me admiraria que ele deixasse de me ligar quando chegar a determinada idade... o mundo é mesmo assim... e tento mentalizar-me para isso... gozar o que tenho a gozar sem colocar esperanças no futuro, em relação ao meu filho... para não me defraudar.
lembro-me que que a minha avó morreu depois de eu ter passado mais de um ano sem a visitar... isto é crueldade... isto é insensibilidade... mas o que é que eu posso fazer se uma pessoa se intitula minha avó mas não tem rigorosamente nada a ver comigo ?
Por isso, essa cena dos filhos é muito complicada.
Eu cumpro-me, pronto. Tenho familia. Pronto. Agora que venha a mim o resto do mundo (sem descurar o que já tenho, obviamente).
Dito por: Paulo Silva no dia 3 de dezembro 2003, às 15h43Um tipo quase quarentão, com dois filhos que já ficam em casa sozinhos, inclina normalmente para duas coisas: a cerveja e os amigos. Pelo menos é o meu caso. Fico horas e horas a beber e a conversar. Depois encontro gente que me diz ter ido ao teatro e a este ou aquele concerto, e eu fico cheio de inveja dessa gente que tem tempo para tudo. E muita dessa gente confessa ter inveja por eu ser um tipo casado e "aldeeiro".Por eu andar sempre de mão fria e cigarrilha na beiça.
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 15h47sr citador,
essa cena de 'ser feito para viver sozinho', acho que é o eterno paradoxo...
sim, eu tb acho.
mas, não é tão bom tb ter uma família, ter sorrisos certos ao fim do dia, um lusco-fusco luminoso.
acho graça, aos meus amigos que t~em filhos...
...aqui há dias uma lamentava-se de não ter feito uma vida independente (a nossa vida é sp mais atraente para os outros, a velha história 'a vaca da vizinha...')...
...pois, eu conversei com ela, A+B=
a filha dela tem 12 anos, daqui a 6 vais para fora, tenho a certeza
o casamento dela, aguenta-se até lá e depois, o que for sei que não será um drama
eu... não tenho filhos, se tivesse agora, tinha de esperar pelos menos 19 anos até que ele/ela 'andasse' +ou- sozinho e voltar a mim com mais tempo
voilá!
uns t~em umas coisas outros... e por aí.
"Agora que venha a mim o resto do mundo "
sim srs, sr citador.
"Depois encontro gente que me diz ter ido ao teatro e a este ou aquele concerto, e eu fico cheio de inveja dessa gente que tem tempo para tudo."
são opções.. .e gostos, mesmo!!!
passo tanto tempo sem ir ao cinema, mas ao teatro vou ver todas as peças que os Artistas Unidos fazem. Mas praticamente só vejo coisas deles mesmo. E sempre que vou, a noite prolonga-se nas cervejas com os amigos eheheh
Acho que o único tempo que me roubo mesmo, é ao sono... O resto, garanto-te que desperdiço tanto... tanto...
E é raro passar uma semana sem noite de bairro alto ;)
Crueldade Paulo?
não... não acho que seja...
a família é uma coisa complicada... não existe nenhuma lei escrita que nos diga que temos que amar incondicionalmente a nossa família. A maior parte das vezes criamos laços bem mais forte com pessoas que acabamos de conhecer e que se tornam mais carne da nossa, do que a maior parte da nossa família.
Sentir afinidade com quem não se conhece? Ou com quem somos obrigados a conviver. Com quem, provavelmente nem gostariamos se nos cruzassemos noutras circunstâncias... É, no minimo, difícil ;)
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 16h03e a segurança, que pelo menos aparento, sobre não ter filhos, tem a ver mais com filosofias de vida do que opções...
um dia conversamos sobre isso... acho que é sempre complicado falar disso com quem tem filhos...
e ainda a semana passada uma grávida me obrigou a falar.. e eu não queria... acho que se arrependeu :/
Aqui temos a Ribeira do Porto e o Cais de Gaia. Confesso que nem um nem outro local me atrai. Bom, justiça seja feita ao "O meu mercedes é melhor que o teu" na Ribeira. No mais, em verdade vos digo: a noite mora em Olissipo.
Dito por: Altino torres no dia 3 de dezembro 2003, às 16h07yep, d.,
basta estar consciente desse facto.
sr citador, quando dizes 'crueldade' estás a revelar exig~encia para contigo que pode ser utópica,
os sentimentos e a disponibilidade de um sorriso e de um toque não são formulados nem garantidos
são gestos espont~âneos que nemsempre estão directamente ligados à família
não obstante, acredito na família (he he, mas não numa que eu desconstruísse...)
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 16h07"O meu mercedes é melhor que o teu" na Ribeira
Esse eu gosto!!! Esse eu gostei MUITO!!! :)))
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 16h07altino!
às x, qdo vou ao porto, tb vou ao mercedes!
8)
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 16h08ops!
parece que sou fundamentalista, afinal (a excepção...)
não vou ao cais de gaia
fico sp pela ribeira.
8|
Dito por: margarete no dia 3 de dezembro 2003, às 16h09Contentinho por vos saber conhecedoras desse covil de boa musica. O meu mercedes sabe bem...
Dolphin's,
grande enfase nesse "Esse eu gosto!!! Esse eu gostei MUITO!!! :)))"
sabes d.,
não há x que eu não vá lá que não haja...
...tinder...
não vou assim tantas x, altino, saio muito pouco, qdo saio é por aí, acho simpático mas é mais o estilo 'vou pq os meus amigos me levam'.
tenho invejo desse mercedes e dos concertos que têm passado por aí grrrrr
essa coisa da descentralização é uma coisa muito muito má ;P
estive aí na altura dos concertos de Radiohead. o bar estava cheio de apanhadinhos de todo o mundo, montes de gente com t-shirts da banda... e claro que o DJ achou simpático passar músicas deles eheheh
foi uma festa :))
Então, para variar, quando lá voltares leva-me contigo
Dito por: Altino Torres no dia 3 de dezembro 2003, às 16h24Estou a lembrar-me do Mark Kozelek... ainda o vi num showcase aqui.. mas foram só 3 canções... shuif...
Dito por: dolphin.s no dia 3 de dezembro 2003, às 16h25Já conheço este blog faz algum tempo e de vez em quando dá-me muito prazer passar por aqui, mas até agora nunca tinha deixado uma mensagem.
Queria dizer que considero, de longe, o melhor, porque é de todos o que trata de coisas mais sérias, importantes e infelizmente tao raras e dificeis de encontrar por aí. O que mais me surpreende é a quantidade e a frequência com que aparecem as palavras e imagens todas de tao boa qualidade neste blog. Por isso Parabens!
Encontrei um texto do Fernando Pessoa que quero partilhar aqui, pois parece-me reflectir um pouco isso que sinto em relaçao a este blog e em particular a este texto e aos seus comentários:
"Toda a gente que conheço e se fala comigo
Nunca teve um acto ridículo,
Nunca sofrerá afrentas,
Nunca foi se nao princepe-todos eles princepes-
Na vida...
Quem me dera ouvir de alguem a voz humana
Que confesasse, nao um pecado mas uma infamia
Que contasse, nao uma violência mas uma cobardia...
Oh, Princepes, Irmaos Meus!
Estou farto de semideuses!
Aonde há gente neste mundo?"
FERNANDO PESSOA
obrigada pelas palavras... obrigada pelo poema... e obrigada pela presença :)
e espero que tenhas mais vezes vontade de conversar connosco... este espaço é mesmo uma tertúlia de amigos :))
Dito por: dolphin.s no dia 6 de dezembro 2003, às 21h10