A coisa que mais me interessava no meu reino sem súbditos, em relação à qual a disposição da minha carcaça era o mais distante e fútil dos acidentes, era a supinação cerebral, o embotamento do ser e daquele resíduo de bugigangas irritantes a que se chama o não-ser, ou até, por preguiça, o mundo. Mas mesmo hoje em dia, aos vinte e cinco anos, o homem está à mercê de uma erecção, fisicamente também, uma vez por outra, é o que cabe a cada um, nem eu estava imune, se é que se pode chamar àquilo uma erecção. Ela naturalmente apercebeu-se, as mulheres cheiram um falo no ar a mais de dez quilómetros e perguntam-se: Como é que ele me conseguiu ver dali? Um tipo deixa de ser ele próprio, nessas alturas, e é doloroso não ser ele próprio, ainda mais doloroso do que quando o é, digam o que disserem. Porque, quando se é, sabe-se o que é preciso fazer para ser menos, mas, quando já não se é, é-se um tipo qualquer, irremediavelmente. Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.
Samuel Beckett in Primeiro Amor
Publicado por dolphin.s em novembro 26, 2003 10:45 AMsomos todos prisioneiros e nem o amor liberta. antes pelo contrário...
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 11h31dependo arosendo... depende...
o amor pode ser sinónimo de liberdade. mas primeiro temos que conquistar a nossa. enquanto não tivermos conquistado a nossa liberdade indivídual, não será o amor que no-la irá dar.
a liberdade pode ser vivida a dois, desde que seja primeiro vivida por cada um.
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 11h37d.s
gosto mesmo da tua assertividade (tive de dizer o palavrão)
é mm isso
quem tá preso só se vai prender + se procura a fuga no 'amor'.
além disso, só tem graça em liberdade.
e, além disso, é uma seca falar de amor.
mais giro mm é escreve-lo, faze-lo, pinta-lo, canta-lo, danca-lo e essas coisas todas que não sejam a sua discussão.
oh d.s, eu sei k sou meio (inteira) estranha a escrever, abreviar, deixar acentos e cedilhas pelo caminho mas...
"o amor que no-la (liberdade, eu sei)irá dar"... soa estranho
o'well
8)
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mas isso as pessoas só aprendem sozinhas.
Que desilusão este "Samuel Beckett in Primeiro Amor"....
Tanta mentira...
então leonor, só lês verdades em todos os livros?
Primeiro Amor é ficção, é a história de um vagabundo, um marginal solitário... um homem morto.
É a visão dele que está ali e cada um tem a sua sem ter o direito de dizer ao outro que a dele é mentira.
concordo com a dolphin. concordo com a margarete. gosto de concordar com as mulheres. não gosto quando eles dizem uma palavra que eu não senti. gosto que elas pensem que o amor é a sua forma de liberdade. não gosto quando não sentem liberdade no amor que sentem. gosto quando uma mulher pensa que pode ajudar um homem a conquistar a liberdade. não gosto quando uma mulher tem a certeza que a liberdade está no amor que se sente. concordo quando dizes que o amor não é para ser falado. escreves tão bem o amor.
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 13h53um beijinho para ti, aro.
por não cederes á tentação de ser condescendente connosco (mulheres).
cuidado. não comeces a concordar tanto, não vás perder a tua essencia e mau humor... depois não temos a quem dar traulitadas na cabeça.
uma mulher NÃO pensa que pode ajudar um homem a conquistar a liberdade
ela SABE (e desculpem a ausencia de modestia, não acredito nisso)...
SABE que ninguém pode ajudar ninguém a conquistar liberdade...
mas pode 'tar lá para dar uma mãozinha, se necessário, sem 'passar a mão na cabeça, estilo cachorrinho', isso só atrasa o pessoal.
Dito por: margarete no dia 26 de novembro 2003, às 14h01"gosto quando uma mulher pensa que pode ajudar um homem a conquistar a liberdade"
ninguém conquista a liberdade por outrém. já basta tentarmos encontrar e depois manter a nossa.
não tenho paciência para quem espera que os outros façam algo por si, sem nada fazerem por si mesmos.
a liberdade a dois só existe se os dois tiverem encontrado a sua liberdade - estou-me a repetir, mas acho que não me compreendeste.
não penso, não quero, não me acho com capacidade suficiente para ajudar alguém a encontrar comigo uma coisa que não o fez sozinho.
se só se encontra a liberdade com uma muleta, então não se conquistou nada, apenas se finge que sim, apenas se vive através dos outros.
não faço a minha liberdade depender dos outros. não deixo que os outros ponham nos meus ombros a responsabilidade da liberdade deles depender de mim.
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 14h03d,
gosto de ti.
nota:
não vale a pena achar que o aro perde a essencia, estiva agora na cena iberica e lá está ele...
... no seu melhor.
(melhor...)
traulitada!
Dito por: margarete no dia 26 de novembro 2003, às 14h13gosto quando uma mulher pensa, não quando age. lê-me devagar, dolphin.
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 14h27então não podes gostar de mim... sou demasiado impulsiva e muitas vezes reajo e ajo sem ter tempo de formular um pensamento ;p
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 14h30então muda de ideias. eu a quente é quando acerto melhor.
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 14h37mudo de ideias?? em relação a quê?
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 14h39pensar primeiro e dizer depois. há outra ciência?
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 14h45há... reagir com instinto... porque havia de mudar. nem sempre pensar antes é a melhor solução.
e quase nunca o que sai depois de pensar é tão honesto como o que sai com o instinto.
e ainda não vi motivo nenhum para mudar arosendo... muito menos por outros me dizerem para o fazer.
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 14h47quando mudar, se mudar, mudo por mim, não porque desagrado aos outros.
Dito por: dolphin.s no dia 26 de novembro 2003, às 14h48deliciosa.
Dito por: arosendo no dia 26 de novembro 2003, às 17h21Sou um Beckttiano dos mais maníacos. E, me reservando o direito de não estar errado quanto às idéias do Beckett de "Primeiro Amor", que corresponde e muito ao ensaio de primeiro aluno da classe em "Proust", Amor e Amar não têm nada a ver com liberdade. Antes. Para Beckett o Amor é impossível, uma vez que o Amor é desejo de busca da totalidade, objetividade. E, o que é objetividade, totalidade? Nada. Ela não existe. O patético na felicidade, que, como o Amor em Beckett é impossível de ser realizado pelo ser-humano, é a descoberta desse absurdo irremediável que é o pecado de haver nascido. Portanto, liberdade também é outra prerrogativa conceitual que funciona como paliativo existencial para unguento superficial das nossas dores, uma vez que o ser humano está condenado à solidão inominável e insuperável da morte. Pois como dizia Heidegger, "estar sozinho é estar sozinho com a morte". Ah, e ainda sobre Beckett, sobre o patético do amor, do desejo de posse: "O amor tem uma cara nova a cada dia", de um ditado francês muitíssimo antigo. Se o amor é um exílio, diríamos, nós beckettianos que, o exílio está justamente em recusar a solidão irremediável à qual cada um está fadado. E assim, não só em "Primeiro Amor" mas em "Godot", "Mercier e Camier", "Como é", "Fim de Jogo"... Enfim... poderíamos por em decreto também a questão da amizade, seria ela um ato de covardia, segundo este mesmo autor.
Dito por: André Luiz Cassiano de Campos no dia 27 de abril 2004, às 08h23