dezembro 04, 2003

Um regaço para chorar

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...


Bernardo Soares in Livro do Desassossego


a uma amiga...

Publicado por dolphin.s em dezembro 4, 2003 01:52 PM
Comentários

a uma amiga...diz-se 'OBRIGADA'
a uma amiga...a uma amiga.
a uma amiga...muito.
a uma amiga...porque.
a uma amiga...
a lagrima apareceu.
o texto, bonito.
a uma amiga...belo.

ecoa, afogando as lagrimas desejadas...a uma amiga ...a uma amiga ...a uma amiga ...a uma amiga ...a uma amiga...

OBRIGADA.

Dito por: tocada por um carinho no dia 4 de dezembro 2003, às 15h56

:)************

Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 16h00

Para uma amiga de uma amiga...

(...)
Vem soleníssima
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Erbúrnea das Tristezas dos Desesperados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido
(...)
R.L.

Dito por: Rosa Leonor no dia 4 de dezembro 2003, às 16h56

Excerto de Ode à Noite
de Fernando Pessoa, claro!

R.L.

Dito por: Rosa Leonor no dia 4 de dezembro 2003, às 16h58

fico cheio de inveja sempre que vejo esta coisas bonitas a passarem-me ao lado...... .. . . .. .

:[

Dito por: kay no dia 4 de dezembro 2003, às 18h03

passou-te ao lado? mas passaste por aqui! ;)

Dito por: dolphin.s no dia 4 de dezembro 2003, às 18h41

regressar à infância, não. mas muitas vezes, um regaço para "poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro..."

Dito por: margem no dia 5 de dezembro 2003, às 00h10