dezembro 07, 2003

Um veneno

Franz KafkaCompreendo os meus semelhantes, sou carne, da sua miserável, sempre renovada, sempre ansiosa carne. No entanto, não são apenas a carne e o sangue que temos em comum, mas sim também o conhecimento, e não só o conhecimento mas ainda o segredo para o alcançar. Por mim, não possuo esse segredo, a não ser em comum com todos os outros; não posso tê-lo sem a sua ajuda. Os ossos mais duros, que contêm o tutano mais precioso, só podem ser vencidos se forem trincados por todos os dentes de todos os cães em conjunto. Isto, evidentemente, é apenas uma figura de retórica; se todos os dentes estivessem afiados, nem sequer precisariam de trincar, os ossos estalariam por si mesmos e o tutano estaria facilmente ao alcance mesmo dos cães mais fracos. Se permanecer fiel a esta metáfora, então o objectivo das minhas investigações parecerá, decerto, monstruoso. Pois dessa forma quero levar todos os cães a reunirem-se, quero que os ossos se abram debaixo dessa pressão colectiva e depois quero mandá-los embora para a vida banal que eles amam, enquanto que, entregue a mim próprio, totalmente só, sorvo o tutano. Isto tem a aparência de uma coisa monstruosa, é quase como se eu quisesse comer o tutano de toda a própria raça canina. Mas isto é apenas uma metáfora. O tutano de que estou a falar aqui não é comida; pelo contrário, é um veneno.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em dezembro 7, 2003 02:40 PM
Comentários

Vim agora do trabalho, o mar tava feito n´um cão.
It`s been a Hard day and night, I´ve been working like a dog!
Agora vou dar de comer à minha cadelinha Kafka que tem um apetite para ossos e tutanos que nem o talho do Herr Nietch consegue satisfazer, apesar de todos os matadouros do sobrinho Adolfo.
Acho que vou pedir ao JM para lhe dar o osso que tem na cabeça, o que trás enrolado no cabelo, é claro, o de dentro ele precisa para pensar.
Mestra do Capado

Dito por: ca ga do no dia 8 de dezembro 2003, às 13h27