novembro 27, 2003

Multidão perfeita

Franz KafkaPorque não se deve supor que, apesar de todas as minhas particularidades, aliás bem à vista, estou, seja no que for, isento das leis da minha espécie. De facto, quando penso nela, e tenho tempo e disposição e capacidade suficientes para tal, vejo que a espécie canina é, em todos os sentidos, uma instituição maravilhosa. Além de nós, cães, há todas as espécies de criaturas no mundo, criaturas miseráveis, insignificantes, mudas, criaturas que não têm outra linguagem além de gritos mecânicos: muitos de entre nós, cães, estudam essas criaturas, dando-lhes nomes, tentando ajudá-las, educá-las, elevá-las, etc. Por mim, sou absolutamente alheio a essas criaturas, excepto quando elas tentam perturbar-me, confundo-as umas com as outras, ignoro-as. Porém, uma coisa é demasiadamente óbvia para me ter escapado: como essas criaturas são pouco inclinadas, em comparação connosco, cães, à união, à confraternização, como passam umas pelas outras silenciosamente, indiferentemente e até com uma curiosa hostilidade, como são grosseiros os interesses que bastam para as ligar pouco tempo, numa união conflituosa e como, com frequência, esses interesses provocam ódio. Repare-se, pelo contrário, em nós, cães: pode dizer-se que formamos uma multidão perfeita, todos nós, apesar de sermos diferentes uns dos outros devido às modificações inumeráveis e profundas que se deram entre nós com o decurso do tempo. Todos em bando! Somos atraídos uns pelos outros, e nada pode impedir que satisfaçamos esse impulso comunal. Todas as nossas leis e todas as nossas instituições, as poucas que ainda agora conheço e as muitas que já esqueci, correspondem a essa ânsia da maior bem-aventurança de que somos capazes; o conforto caloroso de estarmos juntos. Todavia, atentem agora no outro lado do quadro. Que eu saiba, não há criaturas que vivam em tão vasta dispersão como nós, cães, mais nenhumas têm tantas distinções de classe, de raça, de ocupação, distinções demasiado numerosas para serem apreendidas assim de repente.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em novembro 27, 2003 11:20 AM
Comentários

paisagem com cães - o mundo.

Dito por: arosendo no dia 27 de novembro 2003, às 20h32

tomara nós que o mundo fosse o universo canino ;)

vonjia!!!

Dito por: dolphin.s no dia 28 de novembro 2003, às 10h46