novembro 21, 2003

Brinquedos para homens

Carlos Drummond de Andrade

Embora eu seja adulto,
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma
pétala.

Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.


Carlos Drummond de Andrade, in Amar se aprende amando

Publicado por dolphin.s em novembro 21, 2003 01:33 PM
Comentários

era mesmo isto!

tou sp a dizer isto
sp

mas baralho as palavras
perco a gramática

é mm isto!

se cada um inventar o seu brinquedo
pum! catrapum!
zás trás!
lá estás!

sei lá se vêem algum sentido naquilo que tou a dizer,
já tou habituada
digo-o há tt tpo... sem me conseguir explicar.


...era mm isto...

...era mm isto...

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 15h02

:))))

o brinquedo que nos alimenta a alma... aquele que sabemos estar ali, guardado, a nossa fuga do mundo dos adultos.... o lugar para onde fujo todos os dias.

Dito por: dolphin.s no dia 21 de novembro 2003, às 15h08

Um das características das sociedades contemporâneas é a desenfreada produção em série de tudo e, por isso, também dos brinquedos.
Uma das grandes características das sociedades contemporâneas é o desenvolvimento da electrónica e da informática e a sua aplicação a cada vez mais áreas, logo, também aos brinquedos.
Uma das grandes características das sociedades contemporâneas é a tendência para tudo homogeneizar e submeter ao mesmo tipo de projecto (seja este de que tipo for),criando-se desta forma um monstro cultural e civilizacional supostamente aglutinador.
Uma das grandes características das sociedades contemporâneas é, assim, manietar o indivíduo de acordo com os grandes traços evolutivos traçados e em desenvolvimento, dificultando-lhe, desta forma, posturas com cariz efectivamente diferenciado e destoante daquilo que é globalmente entendido como o "que é".
Assim sendo, como fica o mundo do sonho e da brincadeira?
O brinquedo pode, neste contexto, e simbolicamente, ser aquilo que faz ou pode permitir fazer a distinção. Mas como também estes são milhentas vezes iguais entre si, cabe ao indivíduo alguma imaginação. E essa imaginação será tanto mais conseguida se a originalidade for uma realidade. Mas essa máxima originalidade só pode ser conseguida na identificação plena do sujeito com o objecto, sendo que nessa identificação está inerente o tal ponto para onde a fuga pode ser direccionada. E será, pois, nesta especificidade do encontro que o indivíduo se pode descobrir, encontrar e ganhar capacidade para partilhar sentimentos que, de outra forma, seriam também eles padronizados: euforia, primeiro, e desinteresse, depois.

Que este poema de Drummond de Andrade seja entendido de uma forma muito representacional. Que ele seja entendido de uma forma muito simbólica. Se assim for, na minha opinião, o que há de substância em si pode ser muito mais rentabilizado.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 21 de novembro 2003, às 16h50

mas eu entendo-o de uma forma simbólica. o brinquedo de que fala Drummond, não o vejo de maneira nenhuma como um briquedo "a sério".

para mim é como disse, a minha fuga dos mundo dos adultos, o mundo do trabalho, dos horários, das rotinas... o mundo que me é imposto...
o meu brinquedo é tudo o que tenho para além disso, o que realmente me constrói, me dá prazer e os momentos de felicidade.

Dito por: dolphin.s no dia 21 de novembro 2003, às 17h59

passei por aqui numa espreitadela. não tive tempo para brincar. mas volto. sem fugas.

Dito por: wilson t no dia 21 de novembro 2003, às 18h15

:)))

fico à espera que venhas brincar connosco ;P

Dito por: dolphin.s no dia 21 de novembro 2003, às 18h20

k a y

k a y


e l e p h a n t

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 19h02

para fugir,
canto uma canção

pigarreio, primeiro, para piorar a voz

1
2
3

1 elefante
que balançava, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como via que resistia,
foi chamar outro elefaaaante
2 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
3 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
4 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
5 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
6 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
7 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
8 elefantes
que balançavam, sobre a teia de uma araaaaaanha
e, como viam que resistia,
foram chamar outro elefaaaante
...................................................................................e l e p h a n t.................................................. está melhor assim kay?

não encontrei outra forma de remediar a situação

aproveitei
que gosto de cantar (cough cough)

e, sei lá...

está melhor a situação kay?

sai agora do cinema, caso não tenhas reparado...


(a cristal preta antes das 22h pode ser no dia 02 dez)

8)

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 19h08

Quando a rudeza da vida não permitia brinquedos tecnologicamente tão avançados, coloridos e cheios de botões, as crianças pareciam mais felizes e mais concentradas nas brincadeiras que elas próprias inventavam.

Dito por: Gotinha no dia 21 de novembro 2003, às 19h11

eu devo viver noutro planeta

eu vejo crianças

as crianças que eu vejo

ainda brincam com terra
fazem construções
inventam papas
invade~m os espaços da família, deixando as suas brincadeiras por lá até ao dia seguinte


eu devo viver noutro planeta!

estão com atenção vocês?

olharam bem para as crianças?
estarão só a repetir uma crítica?
é pá desculpem a arrogância de pretender saber o planeta opnde vivem, mas isto não é bem assim.

ainda esta semana, estive em casa de amigos,

foi mágico, deviam ter visto,

fizemos e pintámos desenhos,
a M de 4anos e o T de 10anos,
jantámos, conversámos,

mais...

vimos um vídeo, nesse bicho mau que todos querem assasinar,

vimos o Winnie the Pooh, txiiii, que mau, ainda por cima em versão brasileira, txiii, a deturparmos o português às pobres crianças...

é pá! não são lineares, as coisas

vimos o filme e divertimo-nos tanto que me doeu a barriga, rebolei nochão com eles
lembrámo-nos de dsitribuir as personagens por cada um de nós no início do filme,

a I era o piglet
o J o burro
a M o Winnie
o T o Tigre
eu o Abel

nem imaginam, a risota quefoi, impressionante vermos as semalhanças entre as personagens e o seu correspondente
a magia duma menina de 4 anos a participar em algo que podemos considerar um pouco elaborado para a idade

o J, que é o pai a mandarnos calar, começámos e acabámos com brinquedos modernos
divertimo-nos
a vida que fizémos
a vida que fazemos
só é de plástico se nós tb formos

viva a barbie!
viva terra a fingir papa!

viva a brincadeira seja com que brinquedos for!

e, adultos,

vá, vão inventar tb os vossos brinquedos...

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 19h42

desculpem a verborreia

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 19h44

adultos?!!!

eu disse adultos?!

enganei-me.

hoje um amigo disse-me 'quando eu era mais criança'

adorei!
(foi um lapsus de busca do termo pretendido)

mas eu adorei e não o deixei corrigir

...quando eu era mais criança...

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 19h50

Naquela que é a minha infância em estado bastante mais maduro (ou seja, hoje) encontro-me diariamente rodeada de crianças "em estado realmente infantil", durante a maior parte do dia. E, realmente, o planeta parece ser outro. Parece ser outro porque a maioria delas não tem ou não tem plenamente aquilo que são direitos seus: família, brinquedos, alimentação saudável, higiene, conforto, apoio, AMOR. Praticamente tudo lhes falta. E dessa forma vêem os dias passar, sem neles viver da forma que, para si, seria a mais adequada. A infância, essa, já foi perdida há muito por grande parte deles. O direito de sonhar nunca lhes foi possibilitado e as suas limitações são confrangedoramente reais. E doem muito. E fazem sentir dor a quem a tudo isso assiste (e que tenha a capacidade de ver, obviamente).
Quando estas crianças atingirem a fase adulta, a sua capacidade para construir os seus próprios brinquedos estará certamente bastante limitada. A lembrança dos mesmos, eventualmente, nem sequer existirá. Prevalecerá a resposta a estímulos e necessidades mais básicas. Mas muito cruamente. Muito realisticamente pelo passado que tiveram, que é o presente, hoje.
Se bem que os fundamentalismos deterministas devam ser interrogados, creio que para estes casos que refiro, o que prevalecerá será a ausência do sonho. O esquecimento do que é brincar. Um manto de escuridão num caminho que se desejaria diferente.
Não, não estamos noutro planeta! Estamos neste planeta. Que é tão grande e tão diverso. Tão escandalosamente diferente. Tão diferente que os íntimos de uns nem sequer são vislumbrados pelos íntimos de outros.
E lá se vão os brinquedos. Os "brinquedos, brinquedos" e os brinquedos construidos no interior de cada Homem.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 21 de novembro 2003, às 21h13

Estava a pensar naquela frase de Pessoa, aliás, B. Soares: "posso imaginar-me tudo porque não sou nada".
Mas não! nada tem a ver com essas crianças, Sandra; é como dizes: elas são já alguma coisa; e o que são (que também é o contexto em que crescem) é exactamente o que lhes condiciona a capacidade de imaginar. Quando há necessidades tão básicas e realidades que obrigam a crescer depressa, que espaço para o sonho, a brincadeira,...?
Ainda assim acredito que, mesmo com limitações, todas as crianças têm uma capacidade natural, intrínseca, de sonhar, imaginar e a escola talvez possa ajudar um pouco nesse campo (talvez, porque a escola também faz parte de um sistema com muitas condicionantes; e porque a escola não pode ser tudo, não pode substituir-se à família, à assistência social, e por aí adiante) - se calhar desviei-me do assunto, mas neste planeta há realmente crianças e crianças, e eu vejo o futuro com muito pessimismo -

Dito por: margem no dia 22 de novembro 2003, às 21h14

A escola não pode deixar de ter dificuldades em lidar com determinado tipo de situações.
De facto muitas das crianças com quem eu partilho um espaço- a escola-têm uma capacidade de sonhar muito reduzida. As suas limitações são muitíssimas. A sua realidade/o seu mundo é muitíssimo condicionado ao bairro onde vivem, às pessoas com quem convivem e aos familiares directos que têm. E garanto-te que as referências não são as melhores. Basta pensar que os pais tb não tiveram infância. Que os pais vivem realidades como o alcoolismo, a droga, a prostituição, a falta de emprego ou a máxima da precaridade. Que o modo de educar que melhor conhecem são os gritos e a pancada. Enfim...
O espaço para o sonho é realmente muito pouco. E isso é tanto verdade quanto tu olhas para alguns dos olhos daquelas crianças e vês revolta. Pela falta de algo que eles sabem que precisam, mas muitas das vezes não sabem bem o que é. E é tanto. Tu e eu sabemos que é tanto. Eles apenas têm essa impressão e desejam algo...
Claro que tudo isto se relaciona com o poema do Drummond de Andrade. Não devemos ter uma postura rígida e uma visão espartilhante da Poesia. Aqui a relação é possível.
Que brinquedos para os futuros homens e mulheres que me rodeiam, hoje crianças, diariamente?
Eventualmente a própria VIDA será/seria o melhor brinquedo. Mas não a VIDA, simplesmente. A VIDA com tudo aquilo que ela pode ter de enriquecedor e de grandioso. A grande questão é a criação de condições para essa procura interior e para algum achar exterior. E as condições faltam... A miséria parece que se perpetua. É horrivel constatar e assistir a isto. Mas a dura realidade é esta.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de novembro 2003, às 21h39

lamentavelmente, parece-me um triste ciclo vicioso...
trabalho com adolescentes e numa escola de realidades bem diferentes da tua; há casos muitíssimo pontuais, mas a generalidade tem uma VIDA, e o que me custa às vezes é ver como não valorizam o que têm;
não sei se conseguiria lidar com as situações que descreves.
tu lidas, e tens contribuido para melhorar as coisas: admiro isso e FORÇA, sempre!

Dito por: margem no dia 22 de novembro 2003, às 22h25

Ás vezes basta só dar um pouco de atenção, lançar um olhar carinhoso, dar um beijinho ou um abraço.
Aquilo que (lhes) faz muita falta.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de novembro 2003, às 22h37