novembro 21, 2003

E são sombras

Fernando PessoaRemoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem desatentamente, e construo cm mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exactamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das «Errata» umas «Não-Errata», c dizer: a frase «a este incerto movimentos», na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjectivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. Á roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos.
E são sombras, sombras...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em novembro 21, 2003 10:39 AM
Comentários

1ª Cena:

Futilidade fluída da vida.
Remoinhos, redemoinhos.
E as pombas e as sombras.
E as pombas que são sombras.
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2ª Cena:

A vida que corre na triste normalidade.
Onde há remoinhos e redemoinhos.
E onde existem pombas e onde existem sombras.
E onde as pombas podem ser sombras.
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3ª Cena:

A vida corre num tormento de remoinhos.
E de redemoinhos. E de outros remoinhos de redemoinhos.
E as pombas voam em várias direcções.
E as sombras das pombas acompanham-nas em dias onde aparece o sol.
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4ª Cena:

A vida corre, também, com a qualidade que lhe queremos imprimir.
E a vida corre e nós esbracejamos dentro dos remoinhos e dos redemoinhos.
E vemos as pombas naquele que é o caminho escolhido para o seu voo.
E acompanhamos as sombras das pombas e olhamos para aquelas que são também as nossas sombras.
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5ª Cena

E a nossa vida corre num controle crescente dos remoinhos e redemoinhos.
E corre, também, no inflingir derrotas aos remoinhos e redemoinhos e aos remoinhos dos redemoinhos.
E acompanhamos as pombas no seu voo.
E acompanhamos as sombras das pombas com aquelas que são as nossas sombras.
E traçamos o caminho. E retraçamos o caminho. E somos cada vez mais livres na escolha do caminho.
E com as pombas a nossa vida vai.
E com as pombas a nossa vida vem.

(Esta, claro, é a representação de um final que nos é favorável. Evidentemente que nem todos conseguem fazer tais constatações, observações, acompanhamentos e traçar os caminhos a tudo isso inerente. Nesse caso as 5 cenas serão, com toda a certeza, muito mais dolorosas. Porque se vão arrastar naquele que é o arrastamento para a máxima futilidade e vazio da vida de determinados indivíduos).

Sandra

Dito por: Sandra no dia 21 de novembro 2003, às 17h16