novembro 18, 2003

aqui e em todo o lado

Soldado        E tu agora concordas com tudo aquilo que eu disser.

Beija muito delicadamente Ian nos lábios.
Olham fixamente um para o outro.

Soldado         Cheiras como ela. Os mesmos cigarros.

O Soldado vira Ian com uma mão.
Com a outra aponta o revólver à cabeça de Ian.
Puxa para baixo as calças de
Ian, desaperta as suas e viola-o
— com os olhos fechados e a cheirar o cabelo de
Ian.
O
Soldado chora convulsivamente.

O rosto de Ian revela dor mas ele permanece em silêncio.

O Soldado termina, puxa as calças para cima e enfia o revól­ver no ânus de Ian.

Soldado        O cabrão premiu o gatilho na Col.
                       Como é?

Ian        (Tenta responder. Não consegue.)

Soldado        (Retira a arma e senta-se ao lado de Ian.)
                       Nunca tinhas sido fodido por um homem?

Ian        (Não responde.)

Soldado         Também me pareceu. Não é nada. Já vi milhares de pessoas arrumadas dentro de camiões como porcos a tentar sair da cidade. As mulheres atiravam os bebés para dentro dos camiões à espera que alguém tomasse conta deles. Batiam umas contra as outras até à morte. A parte de dentro das cabeças saía pelos olhos. Vi uma criança com a cara meia desfeita, uma rapariga que fodi com as mãos dentro dela a tentar tirar os meus líquidos de lá, um homem a morrer à fome e a comer a perna da mulher morta. A arma nasceu aqui e não vai morrer. Não faças um drama por causa do teu cu. Não penses que o teu cu galês é diferente de qualquer outro cu que eu tenha fodido. De certeza que não tens mais comida, estou com uma fome do caraças.

Ian         Vais matar-me?

Soldado         Sempre a tentar salvar o cu.

O Soldado agarra a cabeça de Ian com as mãos.

Põe a boca por cima de um dos olhos de Ian, suga-o, arranca-o com os dentes e come-o.

Faz o mesmo ao outro olho.

Soldado        Ele comeu os olhos dela.
                       Coitado do cabrão.
                       Coitado do amor.
                       Coitado do cabrão de merda.

Escuro.
O som de uma chuva de Outono.


in Ruínas, Sarah Kane
tradução de Pedro Marques

Publicado por jm em novembro 18, 2003 05:16 PM
Comentários

O Homem que se massacra.
O Homem que se atenta.
O Homem que se viola.
O Homem que se desfigura.
O Homem que enfraquece.
O Homem que cai abaixo do nível irracional.
O Homem que se perde.
o Homem que se nega a dignidade.
O Homem que estoura os miolos.
O Homem que chafurda no esterco.
O Homem que anseia por brutalidade.
O Homem que provoca e vive o desespero.
O Homem que se avilta.
O Homem que se destroça.
O Homem que se enlouquece.
O Homem que mete nojo.
O Homem que enoja.
O Homem que provoca vómitos.
O Homem sem um pingo de purificação.
O Homem em destroços.
O Homem em ruinas.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de novembro 2003, às 18h25

Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
E muito choro.
E muitos murmúrios.
E muitos lamentos.
E mãos que se levam à cabeça.
E mãos que levadas às cabeças as apertam de tanta dor sentir.
E olhares esbugalhados de aflição.
E olhares doridos.
E corações despedaçados.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.

E horror. E horror. E horror.

Cenários reais.
Cenários sem fantasia.
Cenários a três dimensões.
Sempre a três dimensões.
Com corpos. Com almas.
Com cadáveres.
Com pessoas ausentes de vida.
Com pessoas sem vida.
Com pessoas teatralizando a vida.
Que é negra.
Que enegrece.
Que destroi o ambiente envolvente.
Que destroi.
Que putrifica.

Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.

E ausência de tudo.
E morte de tudo.
E negação de tudo.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de novembro 2003, às 18h53

E L E P H A N T

Dito por: kay no dia 19 de novembro 2003, às 10h03

!!!!!
Enfim...

Sandra :(

Dito por: Sandra no dia 19 de novembro 2003, às 17h22

enfim, não..........o fim..........

"O Homem que se massacra.
O Homem que se atenta.
O Homem que se viola.
O Homem que se desfigura.
O Homem que enfraquece.
O Homem que cai abaixo do nível irracional.
O Homem que se perde.
o Homem que se nega a dignidade.
O Homem que estoura os miolos.
O Homem que chafurda no esterco.
O Homem que anseia por brutalidade.
O Homem que provoca e vive o desespero.
O Homem que se avilta.
O Homem que se destroça.
O Homem que se enlouquece.
O Homem que mete nojo.
O Homem que enoja.
O Homem que provoca vómitos.
O Homem sem um pingo de purificação.
O Homem em destroços.
O Homem em ruinas."

e

"Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
E muito choro.
E muitos murmúrios.
E muitos lamentos.
E mãos que se levam à cabeça.
E mãos que levadas às cabeças as apertam de tanta dor sentir.
E olhares esbugalhados de aflição.
E olhares doridos.
E corações despedaçados.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.

E horror. E horror. E horror.

Cenários reais.
Cenários sem fantasia.
Cenários a três dimensões.
Sempre a três dimensões.
Com corpos. Com almas.
Com cadáveres.
Com pessoas ausentes de vida.
Com pessoas sem vida.
Com pessoas teatralizando a vida.
Que é negra.
Que enegrece.
Que destroi o ambiente envolvente.
Que destroi.
Que putrifica.

Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.
Gritos e Silêncio.

E ausência de tudo.
E morte de tudo.
E negação de tudo."

e o Homem que ainda é menino.
e o Homem que ainda se julga livre.
e o Homem de inocência inquantificável.
e o Homem que não percebe o que é o Homem.
e o Homem que não entende a solidão.
e o Homem que desespera no silêncio.
e o Homem como outro qualquer Homem, como qualquer outro menino,
sem maldade - sem maldade - maldosamente.

eu? tu? e porque não? quero uma simples e boa razão de porque não?

pesada herança, essa do niililismo, a da concepção de que tudo é possível.

tudo é possível.

inacreditável.

prefiro acreditar que tudo o que me envolve é irreal, ficcionado, dramatizado, e que apenas num cantinho do meu cérebro onde eu mal sou capaz de chegar, se esconde a realidade em bruto.

é mais fácil. é mais real.

Dito por: kay no dia 19 de novembro 2003, às 18h23

Lamentavelmente tudo o que nos envolve é bem real. E tudo o que é teatralizado é apenas uma pequeníssima parte do real. Mesmo as peças de Sarah Kane apesar de serem o que tão bem são, são uma ilustração do muito maior e do muito pior que nos rodeia.
O que é escrito em "Ruinas", "O Amor de Fedra", "Purificados", "Falta" e "4:48 Psicose" são imagens muito bem conseguidas do que pretendem representar da "vida real" cuja veracidade é dolorosa e enjoativamente pior. Muito mais maléfica. Muito mais preversa. Demonstrador de uma indignidade ainda maior do Homem. Sim, porque a sua "meninice" só pode ser entendida como um atraso mental (ou desarranjo mental) suficientemente forte para provocar muito daquilo que diariamente se nos oferece aos olhos. E não me falem sequer em ingenuidade! Por favor! Por favor! Porque não há ingenuidade! Há maldade! Há inveja! Há ambição! Há necessidade absoluta e constante de Poder! Há sede de tudo, mesmo que esse tudo seja o sangue dos outros. Mesmo que esse tudo represente ou signifique a morte de milhares de seres humanos. Mesmo que isso se transforme em fases lentas de aplicação e vivência de terrorismo físico e psicológico, onde a fome, a miséria, as mutilações, as doenças, o analfabetismo e a ignorância são uma realidade. Uma dura realidade. Tão real que dela não podemos fugir. Nem tão pouco podemos ficar impávidos e serenos a olhar o sofrimento dos outros. Porque este sofrimento, esta dor, a degradação humana que implicam, são também estados que se alastram a nós. Porque somos todos a mesma espécie.
É, pois neste sentido que, ler e comentar Sarah Kane não se pode fazer com indiferença nem tão pouco com calma ou neutralidade. Isso não é possível! Não! Não mesmo! Porque tudo nos toca. Porque tudo nos diz respeito. Porque tudo nos deve envergonhar, indignar, criar repulsa, fazer "cuspir para o chão", vomitar, desalinharmo-nos mentalmente pelos impactos provocados. Porque tudo nos permite emocionarmo-nos. E porque essa emoção será sempre dolorosa. Se verdadeira, claro. Se não fingida. Se não enganosamente tocante.

Nada disto é fácil! Antes pelo contrário! Absolutamente, pelo contrário! Quem vê e procura interpretar realmente e com seriedade, não fica bem. Mas a realidade é como é. Ou melhor, é como a tornam/tornaram. É como queremos e deixamos que seja. Pela nossa ignorância. Pela nossa indiferença. Pela nossa mediocridade. Pela nossa fraqueza. Pela nossa canalhice. Pela nossa boçalidade. Pelo nosso imenso sentido de irrealidade. Pela nossa vocação comodista e de espírito de avestruz.

Porque pensamos que tudo é com os outros. Porque pensamos que tudo só acontece aos outros. Porque pensamos que, aqui no nosso canto, estamos libertos de todos os problemas. De todos os problemas que consideramos realmente grandes e porque, em muitos casos, só consideramos que a Paz é simplesmente a não existência de Guerra e porque pensamos que a Democracia é a mera não existência de Ditadura.

Na medida em que ler Sarah Kane nos permite pensar em todas estas coisas, faço um pedido a Dolphin.s: uns excertos de "Purificados" e "Amor de Fedra". E que a escolha seja "cirurgicamente" conseguida para nos permitir "bater com a cabeça nas paredes".

Já chega de andarmos tão adormecidos! Já chega de passarmos ao lado das coisas!
Já chega de rirmos e de fazermos piada com/a partir daquilo que realmente tal não deve permitir.
Já chega!
Definitivamente, já chega!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 19 de novembro 2003, às 19h08

"Porque pensamos que tudo é com os outros. Porque pensamos que tudo só acontece aos outros. Porque pensamos que, aqui no nosso canto, estamos libertos de todos os problemas."

é exactamente o oposto.

pq tudo pode acontecer - tudo é possível

é inacreditável - o que não quer dizer que não seja um facto

e não acredito na existência de pessoas maldosas - o mal, como imagem moral não passa de uma convenção humana, como eu já tive oportunidade de escrever (assim o acredito), sujeita a toda a e/involuções sociais - a ética, como "ciência da moral", é algo em premanente r_evolução.

existem, outrossim, pessoas perigosas
existem, outrossim, pessoas perigosas
existem, outrossim, pessoas perigosas
perigosas
perigosas

e eu acredito que a pessoa perigosa, pese embora a sua não inimputabilidade, possa ser moralmente inocente

já viste o elephant? (e ponho-te a questão com consciÊncia que esta redundância começa a ser ridícula)

eu saí do filme com a fé, sentimento de crença profunda, de que eu, há uns anos atrás, podia ter sido - sendo inocente como era - quer o agressor, quer o agredido - e nunca, mas Nunca, iria ser capaz de compreender o quÊ e porquÊ tinha acontecido.......... .. . ... . .. . .. . .. . .. ... ...... . .. ...... . . .. ... . ... ... .. .. .. . ... . ..

uma divisão entre maus e bons

agressores e vítimas

é apaziguadora

mas é falsa

eu sou capaz de matar!


pese embora seja bem mais provavel que um dia venha a ser morto

os textos de sarah kane, que não conheço para além deste blog, são de facto extremamente tocantes e perturbadores

e a importância que eu lhes leio é essa - a de que o horror de que a humanidade é capaz é o que este organismo de que sou órgão concebe

é o horror que um igual a mim, poderia em determinadas circunstâncias, exercer sobre um igual a si - eu - ou vice-versa

Dito por: kay no dia 19 de novembro 2003, às 19h46

Eu acredito em pessoas maldosas. A existência do Mal é uma realidade. Eu acredito na preversão da realidade sã (ou de uma realidade que pode ser sã) e dos sentimentos são (ou que podem ser sãos).
Penso que a consciência de certo tipo de mal só nos toca quotidianamente quando algo de grave é mediatizado e nos entra pelos olhos dentro. Aí parece que acordamos de um sono em que vivemos (preferimos ou escolhemos viver) e eventualmente nos indignamos com o sucedido/noticiado. Mas, claro, também esquecemos ou continuamos a não nos lembrar que outros males e outras tragédias existem para lá da mediatização.
Atenção! Eu não quero com estas minhas afirmações dizer que TODA a gente é assim e tem este tipo de postura. É evidente que existem pessoas atentas, preocupadas, que procuram informar-se e ir acompanhando a evolução da realidade. E posicionam-se (hiper)-criticamente face aos problemas em questão. E debatem-nos. E discutem-nos. Mas se assim (também) não fosse, a tragédia ainda seria maior. E o meu lamento muito mais profundo e indignado. Mas infelizmente existe uma grande percentagem de ignorância. Existe uma grande percentagem de deixa andar. Existe uma grande dose de comodismo e de privilegiar absoluto de outro tipo de realidades não tão determinantes nem tão relevantes. Basta ver, por exemplo, os timings ocupados com determinados "factos" nos canais de tv nacionais. E os títulos de jornais que têm altas tiragens e as revistas que são preferidas por uma percentagem razoável (em demasia) da população.
Quanto ao filme de que falas ainda não vi. Sei qual o assunto que trata e, porque o mesmo me interessa, conto ir vê-lo. Agora também te digo que conheço suficientemente a realidade de algumas escolas portuguesas- porque trabalho numa-que me permitem não me espantar com abordagens feitas no filme. Só para te dar uma ideia a violência, a miséria, a falta de amor, o abandono, a fome, a droga e a prostituição são realidades quotidianas do meio onde trabalho. Ainha há pouco tempo, por exemplo, o bairro onde a escola se situa foi cercado por "ninjas", no âmbito de uma rusga feita para captura de traficantes e toxicodependentes. Claro que no dia seguinte não se falava noutra coisa entre os alunos, até porque alguns deles viram familiares presos, entre estes pais e mães. Por outro lado, a escola, é frequentemente visitada pela polícia devido a distúrbios/destruições/assaltos feitos. O pão nosso de cada dia.
Como vês, a realidade é como é.
Quanto às peças escritas por Sarak Kane recomendo-te vivamente a leitura (todas elas estão reunidas em publicação do "Campo das Letras"). São realmente muito boas. Os excertos que aqui aparecem dão uma singela ideia do que é uma totalidade maior. E essa totalidade é realmente muito mais impressionante. Porque muito real. E é extremamente importante que nos debrucemos sobre ela e tenhamos capacidade para a discutir. O que nós os dois estamos a fazer, agora, devia ser muito mais alargado. Muito, muito mais.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 19 de novembro 2003, às 20h23

Dolphin.s:

para além das sugestões que te fiz para apresentação de outros excertos de textos da Sarah Kane, e ainda no domínio do Teatro, peço-te que consideres também a presença aqui no "Silêncio" de Harold Pinter, em particular, porque dentro destas temáticas que temos estado a tratar, de excertos das seguintes peças:

- "Um para o Caminho"
- "Língua da Montanha"
- A Nova Ordem Mundial"

Para outras abordagens tem igualmente em conta:

- "Cinzas às Cinzas"

Para os "debates" a realizar conto, obviamente, com a presença de "Key".

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 19 de novembro 2003, às 20h48

eheheheh

logo que alguém tenha a gentileza de acrescentar esses volumes à minha biblioteca ;)

Dito por: dolphin.s no dia 19 de novembro 2003, às 22h28

e acredito, tb, na diversidade de opiniões

e gostei de discutir contigo

Dito por: kay no dia 20 de novembro 2003, às 09h48

Eu tb Kay. Temos que nos cruzar mais vezes.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 20 de novembro 2003, às 12h34

Dolphin.s!!
Não tens as peças do Pinter?!!!!
Para remediar: no nº de Julho da revista dos Artistas Unidos tens a "Câmara Ardente". Porque não ires até lá? Ou também não tens a revista?

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 20 de novembro 2003, às 12h37

nope.... não consigo ter tudo o que quero ;P

nem o tempo para ler tudo.... e com a quantidade de livros que tenho abertos neste momento, não consigo arranjar tempo nem espaço mental para abrir mais.

tudo o que ponho no Silêncio são coisas que estou de facto a ler, mas tenho um limite de dosagem ehehehehe
não posso, nem quero tornar o Silêncio numa dose massiva de trabalho para mim, porque isso ia-lhe tirar o prazer que eu tiro dele.
Além de me tirar o prazer de ler os livros apenas porque me apetece lê-los.

Dito por: dolphin.s no dia 20 de novembro 2003, às 12h57

Felicidades!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 20 de novembro 2003, às 17h24

8-| ???????????????

Dito por: dolphin.s no dia 21 de novembro 2003, às 10h34