novembro 20, 2003

Instalado em Indiferença

Vergílio FerreiraO mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos! Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo. E uma vez mais a velha angústia de um Lucrécio, de um Pascal, em face da eternidade da noite, nos desvaira de aflição. Possivelmente, meu amigo, quando esta carta te chegar às mãos, se chegar, estarás tu já instalado em indiferença no meio de quanta nova invenção que não sabemos nem imaginamos.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em novembro 20, 2003 02:00 PM
Comentários

há muitas coisas às quais sou indiferente. depois, se pensar bem, há as coisas às quais me esforço por ser indiferente, por uma questão de defesa, de sobrevivência pessoal,... (de egoísmo, portanto, também). e há as coisas que me não são indiferentes; mas sei que nada poderei fazer para as mudar; mesmo as mais quotidianas... quando manifesto o meu descontentamento ou revolta, levo frequentemente com aqueles olhares tipo-lá-está-ela-sempre-a-reclamar-com-pequenas-coisas, lá-estás-tu-a-ser-negativista, mandam-nos-fazer-isto-assim-temos-de-fazer ou, num campo mais pessoal, estás-num-mau-dia-não-estás?

Dito por: margem no dia 20 de novembro 2003, às 14h47

lol!!

sei bem do que falas... mas deixa lá, contínuamos a fazer barulho e tanto chateamos que às vezes até nos ouvem...

tenho medo do dia em que não conseguir fazer barulho e revoltar-me e mostrar o quanto me sinto revoltada.
a indiferença deve estar muito próxima de um vazio absoluto...

Dito por: dolphin.s no dia 20 de novembro 2003, às 14h54

é estranho, nos últimos anos têm-me dito para não levar tudo tão a sério, para me distanciar mais. e até falo de pessoas que considero boas pessoas e boas profissionais; lá está, conseguem aquele equilíbrio tão necessário mas que, infelizmente, não está na minha natureza. como professora (e estive hoje a ler os mais recentes tópicos do Citador, o que ainda me fez mais pensar nisso), comecei a tentar esse equilíbrio que me aconselham; de facto, parece resultar numa maior (um pouquinho maior) tranquilidade, mas não é que me sinto estranha?

Dito por: margem no dia 20 de novembro 2003, às 15h07

.... pois.... é um equilibrio que eu não sei viver.... o meu desiquilibrio faz parte de mim...
equilibrada, ponderada, menos impulsiva não me sentiria eu mesma...
não me imagino a viver as coisas com menos intensidade, a não me sentir revoltada, a medir tudo o que digo, a pensar sempre antes de falar, a moderar o que digo..
enfim.... posso ser um veneno muitas vezes.... para mim mesma mais do que para os outros, se calhar...

Dito por: dolphin.s no dia 20 de novembro 2003, às 15h12

entendo e admiro isso tudo em ti.

ser um veneno, só o sou para mim, aliás, essa é outra das coisas bem intencionadas (e não estou a ser irónica) que ouço frequentemente:«não vês que assim tu é que ficas mal, tu é que acabas a sofrer e mais ninguém?»

Dito por: margem no dia 20 de novembro 2003, às 15h49

deixar o veneno sair de vez em quando, pode ser o único remédio que nos dá um pouco de bem estar ;)

Dito por: dolphin.s no dia 20 de novembro 2003, às 16h13


Esse excerto da Carta ao Futuro é um dos seus momentos apoteóticos... quase que choro sempre que o leio.

Tristeza, conformismo ? Não... serenidade, a plena serenidade, é o que me transmite, e por isso me dá vontade de chorar... a paz, o sentir-me bem comigo próprio e com o mundo... tanta corrida, tantas quezilia, tantas coisinhas pequeninas (todas o são) que não significam nada... e leio este texto e varre-se-me tudo... atinjo a calma, a plena calma... qual Murphy (de Beckett) na sua cadeira de baloiço, todo nu a libertar-se do seu corpo em plena suspensão.

E então reflectir, e então inquietar-me, e então ... agir !!! É um ciclo vicioso, mas é uma espiral ascendente... e é isso que importa!

Dito por: Paulo Silva no dia 20 de novembro 2003, às 18h07

Indeferença, Quietude.

A serenidade que cultivo, mas que por vezes me escapole..

Dito por: Carlos Pedro no dia 20 de novembro 2003, às 23h11

chuif

esteve cá o cêpê

e eu não o vi.


caramba, alentejano, andamos desencontrados.

Dito por: margarete no dia 21 de novembro 2003, às 14h43