Há uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte. Assim nos surpreendemos até ao absurdo, até à incredibilidade, quando nos morre um parente, um conhecido, ou seja, de algum modo, uma fracção de nós; e só admitimos que ele tenha de facto morrido quando definitivamente se afastou para o passado, saiu do nosso mundo, deste mundo estável, harmónico, regular, e faz já parte das sombras indistintas de outrora, é, em suma, uma ficção: só entendemos a morte quando a sabemos de cor, quando ela não significa já a aniquilação de uma vida como a nossa, mas é apenas as margens desta vida e que a prolongam, o nada que nunca a ela pode aceder, a pode pôr em causa, quando ela é o contorno que lhe não altera a sua (a nossa) perenidade.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro (© Bertrand)
Quer a "Verdade" quer a "Morte" têm inerente a si uma percentagem razoável de falta de evidência e de (absoluta) transparência. Pensemos, pois, naquilo que em ambas há de subjectivo para os sujeitos e a forma diferenciada como são ou podem ser encaradas. Não existem, portanto, evidências nestes domínios.
Neste sentido, face a uma e outra, o Homem encontra-se sempre na travessia de uma corda onde por baixo não existe qualquer tipo de rede. Daí as perplexidades. Daí as admirações. Daí as confusões e equívocos. Daí a perenidade de tudo o que com elas se encontra relacionado.
Sandra
demorei muito tempo a acreditar que a minha melhor amiga, a minha amiga de infância, tinha de facto morrido... aliás, acho que ainda hoje, quando escrevo isto, que ela morreu, não consigo perceber o que é isso...
o facto de ela já viver longe de mim ajudou a alimentar essa sensação de irrealidade... no fundo, nunca senti a morte dela... nunca aconteceu.
morte... morreu... parecem palavras estranhas e sem significado... um monte de letras agrupadas que não significam mais do que um som.
não sei se compreendo o que é a morte... não, não sei o que é.
Vamos considerar o seguinte, e pensando concretamente, nessa tua amiga: o que aconteceu terá sido, tão "só", o seu desaparecimento físico. Ou seja, o corpo dela deixou de reunir as condições para continuar a mover-se e a fazer uso de todos os sentidos que completam a existência humana. Isso acabou. Parece de facto que acabou. Mas ela terá realmente desaparecido na totalidade? Achas que ela desapareceu completamente? Sentes que ela se ausentou de ti de forma absoluta? Naquele tempo como foi? E hoje, o que é ainda possível sentires?
Quanto à "Morte" na sua generalidade: é sobretudo (para mim) assustadora, pelo que tem ou pode ter de imprevisível e de desconhecido. É dolorosa pelo que faz ausentar fisicamente para sempre muitos dos que gostamos e amamos. É grotesca pela transformação/putrefacção/decomposição/definhamento que provoca nos indivíduos.
Mas também pode ser pretexto para a Arte: pelo que pode levar a representar e pelo que a partir dai nos pode levar a pensar e a sentir.
Sandra
para aceitares o significado de algo, tens que acreditar nele ou compreendê-lo. se falas em chuva, sentes a sua realidadea, mas ao falar de morte, não consigo sentir a realidade da palavra.
a teoria, eu sei-a... o porquê, até posso analisar.
mas o sentir que lhe dá sentido e o torna real para mim, não o tenho.
a morte é tudo isso que dizes, mas para nós que apenas falamos dela e não a vivemos, não é nada.
para quem morre, também não é, porque para quem morre, a morte não existe.. nada mais existe.
ausência fisíca de um corpo? saudade? não consigo concretizar o sentido da morte... talvez por isso também não me assuste, se bem que afirme que gosto de viver.
é que viver, eu vivo, e sinto-o todos os dias. mas a morte não a sinto.
a morte é um vazio, o nada.... também se pode ser morto em vida, e então qual é a diferença de estar morto, sem corpo?
Estar morto com corpo será duplamemte penoso: porque se está num estado limbático. Entre dois mundos distintos, ambos com exigências e envolvências sobre o sujeito. Mas é também um estado que muitas vezes o sujeito não tem consciência. Porque essa sua morte (ou parte de morte) o é apenas aos olhos de alguns e de acordo com as referências de vida que esses alguns têm.
Que a Morte é o vazio...o nada... para quem tem uma determinada noção da Vida e daquilo que É.
A Morte poderá ser sentida para além do estado da Vida. Será um estado de Vida diferente. Mortalmente vivencial. Espacialmente diferenciado e fisicamente ausente.
Qualquer que seja o estado da Morte (em Vida ou em Morte como término da existência física), este é sempre possível de representação e de estetização. Literária, musical, através da pintura. Aqui mesmo no "Silêncio" já nos deparámos algumas vezes com essas variáveis representacionais. O que prova, quanto mais não seja, que a Morte ou a ausência de Vida plena são duas faces de uma mesma realidade que nunca deixa de estar presente.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 17 de novembro 2003, às 21h27mas não será essa representação artistica apenas uma maneira de procurar dar um significado e uma consistência à morte? uma tentativa de, de alguma maneira, a tornar mais real, ao representá-la, e assim mais compreensível e aceitavel para nós?
Acho que temos consciência de nos sentirmos mortos, de quando nos sentimos vazios e em que nada faz sentido... em que morrer ou viver, sendo ambas vivências vazias de significado, será indiferente.
Dito por: dolphin.s no dia 17 de novembro 2003, às 21h33Diz a Dolphin: "se falas em chuva, sentes a sua realidade, mas ao falar de morte, não consigo sentir a realidade da palavra."
E eu sugiro: nem todas as palavras correspondem a realidades que se sintam e esse é, para mim, um dos mistérios maiores da linguagem. Deixo, por isso, uns versos de Daniel Faria, cujas palavras apetece repetir até que se colem à pele e aos olhos e sejam apenas sons...
"Pensa que morrerás
No chão
À tua porta.
E nunca mais acabarás
De regressar"
Daniel Faria ('Charles de Foucauld' in Homens Que São Como Lugares Mal Situados)
Abraço,
Sara
as palavras são fortes.. .as de Daniel sê-lo-ão sempre.... têm a capacidade de nos derrubar.
mas quando falo da realidade das palavras, não falo do seu sentido real, escrito, literal. falo da realidade que lhes dá o nosso sentir. é o sentir que lhes dá substância... e eu ainda não conseguir encontrar a substância da palavra morte.
E essa é mesmo a única realidade possível para as palavras...
:)
A Morte, tal como outras coisas (ou outros algos), é também passível de muito se representar para aquisição de consistência e reforço de significado(s). Assim sendo, não há um estado etéreo absoluto. E o simbolismo representacional é absolutamente fundamental. A morte pode ser corporizada, esqueletizada ou fazer-se apresentar através de símbolos que a fazem distinguir-se e entranhar-se entre os humanos.
A Morte é, claro, em estado de Alma. E a Alma é o que dá vida ao Corpo. A sua ausência de funcionamento "normal", imbuído de todos os sentidos, é a resignação da ou à sua essência. E o indivíduo desfalece. Vegeta. Ouve mas não escuta. Ou não ouve nem escuta. Olha mas não vê. Ou não olha nem vê. Toca sem sensações. Toca não tocando. Respira sem encher de ar os pulmões. Respira não se enchendo de ar. E não pensa. Tem só massa encefálica. Tem ausência de estímulos, de motivações, de atractivos.
A Alma (absoluta) não se revê nisto. E isso é igualmente possível de representação.
Tudo é possível de representação. A tudo é possível atribuir uma coloração representacional. A tudo é possível encontrar uma composição num cenário. Tudo é possível teatralizar. Tudo é passível de fazer chocar.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 17 de novembro 2003, às 22h02As palavras são, a partir do significado que nós lhes atribuímos. Ou seja, as palavras são para nós. Cada palavra é para nós, apesar e independentemente de um significado universal.
A "M-O-R-T-E" para além do que visivelmente é (o que é percepcionado através dos sentidos) é aquilo que nós quisermos que também seja. Também ela "é para mim, desta maneira, à minha maneira. Mesmo que cheia de incompreensões". Mas É. É sempre. E não tem que ser igual "ao que é para ti, que a sentes de forma diferente. Eventualmente, também um sentir cheio de incompreensões".
Deixemos a Morte Ser!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 17 de novembro 2003, às 22h08"As palavras são, a partir do significado que nós lhes atribuímos. Ou seja, as palavras são para nós. Cada palavra é para nós, apesar e independentemente de um significado universal."
acho que é isso mesmo... não adianta quererem convencer-nos qual o significado de alguma coisa... enquanto não o sentirmos, não será real para nós...
era aí que estava a tentar chegar Sandra... resumiste isso neste pequeno parágrafo :)))