novembro 15, 2003

As sombras da cidade

Al Berto

Caminho, as sombras da cidade vão revelando, pouco a pouco, rostos que despertam para a noite, gestos cúmplices, corpos, atrevimentos inesperados, danças, seduções...
Caminho pela cidade que se oferece à voluptuosidade do olhar. Ao fundo das ruas e das escadinhas, no âmago da noite, o Tejo - essa presença invisível que, por vezes, nos aflora os ossos com seu canto de ternas neblinas.
E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma, de olhar em olhar - conheço a cidade como conheço as linhas das minhas mãos.
Percorro-a, há anos, como se esperasse não sei bem o quê - como se nessa espera, um dia, acabasse por se me revelar uma outra cidade, ou um rosto se me incendiasse nos dedos, ou uma ruela apercebida ao fundo de um sonho se chamasse Travessa da Espera, ou uma paixão qualquer, ali ao Príncipe Real, me magoasse o coração...


Al Berto, in O Anjo Mudo, Lisboa (© Assírio & Alvim)

Publicado por dolphin.s em novembro 15, 2003 06:57 PM
Comentários

Na escuridão da cidade posso reencontrar a minha alma.

Na escuridão da cidade eu sei que encontras a tua alma.
Essa, que com a luz se encontra acorrentada no interior de ti, sem conseguir entre tremendos esfoços vir à superfie. Ou procurará, quanto muito, chegar, tão só timidamente.
A escuridão da cidade permite que a Alma grite. Permite que a tua alma grite. Que seja outra naquela que é.
Permite trazer-te à tona. Ao brilho conjunto com as sombras.
Na escuridão vês-te melhor. Sentes-te melhor. Respiras-te. Rejuvenesces.
Vives!
Vives!
Longe de tudo o que te trás desconforto, pesadelo, insónia.
E reflectes-te no todo e no maior que há em ti.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 19h08

sim... na escuridão consigo recomeçar a respirar... renasço com a noite :)

Dito por: dolphin.s no dia 15 de novembro 2003, às 19h14

Entremos, agora, no meio das sombras que não amedrontam.
E deixemo-nos ficar...
Deixemo-nos ficar...
Abraçamos esse imenso de nada.
Abraçamos esse imenso que nos permite ser outro.
Sintamos o ar e o cheiro do que nos dá prazer.
Percorramos ruas, ruelas, becos, estradas...
Percorramos tudo no sítio onde estamos.
E abracemos o nada.
Abracemos o nada que é tudo.
O nada que nos é tudo.
Por entre as sombras...a caminho para a noite...
Mais profunda... Mais escura...
Mais profundamente escura...
E leve. Leve. Leve.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 19h14

:)

Dito por: spencer no dia 15 de novembro 2003, às 21h05