novembro 11, 2003

Prisão de ventre

Samuel BeckettUm dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura. Estou agora convencido que era por causa da ansiedade. Mas estaria eu realmente com prisão de ventre? Não acredito. Calma, calma. No entanto devia estar, senão como justificar aquelas longas, aquelas atrozes sessões na retrete? Nessas alturas eu nunca lia, nem nas outras; não me punha a divagar ou a meditar, limitava-me a olhar distraído para o almanaque pendurado num prego à minha frente, com a imagem a cores de um rapaz de barbas rodeado de ovelhas. Devia ser Jesus; afastava as nádegas com as duas mãos e fazia força: um! hmm! dois! hmm!, com movimentos de remador, e só com uma ideia na cabeça, voltar ao meu quarto e deitar-me de costas. Era mesmo prisão de ventre, ou não? Ou estou a confundir com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, campas e núpcias e os diferentes tipos de evacuações. Com os meus parcos haveres tinham feito um montinho, no chão, encostado à porta. Parece que ainda o estou a ver, naquela espécie de recanto cheio de sombra que separava o corredor do meu quarto. Foi neste espaço estreito» resguardado apenas de três lados, que tive de mudar de roupa, ou seja, trocar o robe e a camisa de noite pelo meu fato de viagem, ou seja, sapatos, meias, calças, camisa, casaco, sobretudo e chapéu, espero não me estar a esquecer de nada. Experimentei outras portas, rodando a maçaneta e empurrando, ou puxando, antes de sair de casa, mas nenhuma cedeu. Se tivesse encontrado uma aberta acho que me tinha barricado lá dentro, só com gás é que me tiravam dali. Sentia a casa apinhada como de costume, mas não via ninguém. Imaginei-os fechados nos respectivos quartos, de ouvidos bem atentos. Depois todos a correr para as janelas, um pouco a medo, escondidos pelos cortinados, com o barulho da porta da rua a fechar-se; devia tê-la deixado aberta. E então são portas que se abrem e toda a gente sai, homens, mulheres, crianças, cada um do seu quarto, e as vozes, os suspiros, os sorrisos, as mãos, as chaves nas mãos, um alívio enorme, e depois o recapitular das precauções, se isto então aquilo, mas se aquilo então isto, uma autêntica festa, todos perceberam, p'rá mesa, p'rá mesa, a desinfestação pode esperar.


Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar

Publicado por dolphin.s em novembro 11, 2003 10:34 AM
Comentários

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência?

Dito por: Henrique no dia 11 de novembro 2003, às 11h03

LOL!!!

como diria a outra (e passo a blasfémia de a misturar com o Sr Beckett), Não há Coincidências eheheheh

Dito por: dolphin.s no dia 11 de novembro 2003, às 11h08

ALERTA PINK!!!

Dito por: margarete no dia 11 de novembro 2003, às 11h33

LOL!!

já te começo a imaginar com uma sirene na cabeça à caça de PINK Alerts ehehehehe

Dito por: dolphin.s no dia 11 de novembro 2003, às 11h35

Action Man Brise Continuo

Dito por: kay no dia 11 de novembro 2003, às 12h26

o kay no seu melhor do humor!

Dito por: margarete no dia 11 de novembro 2003, às 18h42