Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.
Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego
Publicado por dolphin.s em novembro 9, 2003 08:24 PMnhacas :PPPP
:)))*******************
é bom ver-te e ter-te por cá ;)
Dito por: dolphin.s no dia 9 de novembro 2003, às 20h56bem vinda. estou solidário contigo.
Dito por: arosendo no dia 9 de novembro 2003, às 21h04este gajo é determinantemente (o autor do txt)aborrecido :p
afinal, se eu me afasto do que me atrai mais do que me aproximo.. também é verdade que, ao afastar-me, não me aproximo de nada... seria, talvez, melhor aproximar-me do que me atrai, inda que em desacerto do meu tempêro?
este gajo, útil enquanto útil, inútil enquanto lúcido, faz-me cócegas na barriga e eu não esboço um sorriso que seja.
este gajo, que não sou eu, e eu que até nem me importaria de o ser a ele - já teria vivido e não estaria aqui a debitar enormidades aberrantes -.. mas escrevia eu, este gajo encerra umas verdades fundamentais para mim... para mim, repito-o, e, por diferença, as verdades mentem a outros... que, se calhar, nem o lêem...
este gajo não faz mal a uma mosca...
Dito por: jm no dia 9 de novembro 2003, às 21h21este gajo faria mal a uma mosca, se os que o não lêm, o lessem. nem que fosse o mal da agonia e do vómito.
Dito por: dolphin.s no dia 9 de novembro 2003, às 21h28será sempre melhor aproximarmo-nos do que nos atraí. pelo menos teremos a certeza que vivemos... ou a confirmação de que nos enganámos... mas pelo menos, saberemos.
eu diria: este gajo não viveu. durante toda a vida, deixou-se ficar no «leito», analisando-se no «quadro». por isso foi infeliz. por isso, o outro que também é ele se diz «um fingidor». por isso, um outro que também é ele diz «Nada de estéticas com coração: sou lúcido. M****! Sou lúcido.» por isso o desassossego.
Dito por: margem no dia 9 de novembro 2003, às 22h47eu se calhar diria: se calhar ele sabe um pouco do meu desassossego
Dito por: margem no dia 9 de novembro 2003, às 23h45se calhar? eu sei que é por isso que ele me consegue irritar ;P
Dito por: dolphin.s no dia 9 de novembro 2003, às 23h47ele deixa-me perplexa
se calhar, também sabe porque tardo em encerrar esta noite que é véspera de segunda, ou qualquer outra que é sempre véspera de alguma coisa
Dito por: margem no dia 10 de novembro 2003, às 00h14a resposta para essa pergunta, eu também a tenho... é a mesma para mim ;P
Dito por: dolphin.s no dia 10 de novembro 2003, às 00h20e no entanto estou cansada...
lá fora, o vento, aquela voz primordial de que fala V. Ferreira
que digo eu?
se calhar, queria só dizer boa-noite. Boa-noite!