dezembro 07, 2003

A Consciência da Culpa II

Friedrich NietzsceComo seria inteiramente de esperar depois do que ficou dito, o facto de se trazerem à luz do dia essas relações contratuais desperta a mais ampla desconfiança e oposição contra a antiga humanidade que as criou ou tolerou. É precisamente aí que ocorre uma promessa; é precisamente nessas relações que se trata de fazer uma memória para aquele que promete; é aí precisamente que reside — nada nos impede de suspeitar que assim seja — uma mina rica em crueldade, dureza e sofrimento. O devedor, para inspirar confiança relativamente à sua promessa de reembolso, para oferecer uma garantia da seriedade sagrada da sua promessa, inclusivamente para reforçar na sua própria consciência a obrigação, o dever do reembolso, empenha ao credor — por força de um contrato que será aplicado no caso de não haver pagamento — uma outra coisa que «possua», sobre a qual exerça algum poder, por exemplo, o corpo, ou a mulher, ou a sua liberdade pessoal, ou mesmo a vida (ou, dentro de determinados pressupostos religiosos, a própria salvação da alma e até a paz da sepultura, como acontecia no Egipto, onde o credor não dava sossego no túmulo ao cadáver do devedor — e é preciso acrescentar que os Egípcios atribuíam uma importância especial a esse sossego). O credor podia nomeadamente infligir ao corpo do devedor toda a espécie de humilhações e de torturas, por exemplo, cortar bocados na quantidade que lhe parecesse apropriada ao tamanho da dívida... E, para estes efeitos, em tempos recuados, havia por toda a parte, com força de direito, avaliações rigorosas dos diferentes membros e partes do corpo, descendo às vezes aos pormenores mais atrozes.
A equivalência é estabelecida na medida em que, em vez de uma vantagem que compensasse directamente o prejuízo (portanto, em vez de uma compensação em dinheiro, em terra ou quaisquer outros bens), o credor recebe como reembolso e indemnização uma espécie de satisfação interior, a satisfação de, sem remorso, poder exercer o seu poder sobre um impotente, a volúpia «de faire le mal pour le plaisir de le faire»*, o gozo de violentar, gozo este que é tanto mais apreciado quanto mais baixo o credor estiver na escala social, ou seja, quanto mais aos olhos deste surgir como deliciosa pitada que lhe permite provar o sabor do poder das classes superiores. Por intermédio do «castigo» aplicado ao devedor, o credor toma parte no direito dos senhores: enfim, ei-lo chegado, ao menos uma vez, ao sentimento exaltante de poder desprezar e maltratar alguém como «inferior» — ou, pelo menos, de o poder ver desprezado e maltratado (nos casos em que o poder de aplicação, de execução das penas já está delegado na «autoridade»). A compensação consiste, portanto, numa autorização, numa atribuição do direito à crueldade...


Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em dezembro 7, 2003 08:45 PM
Comentários

Fui ontem ao talho, fiquei devedor do talhante credor, gosto de Genealogia com moral.
Nos malucos do Circo havia um que era da filosofia.
Mas não morava lá no bairro, vestia de preto e a caspa dava-lhe estilo nas discotecas onde era sempre devedor.
Até que um dia levou nas fuças por causa da crueldade do patrão credor
Havia tambem um escritor capaz de comer a mãe só parta ter assunto e vender livros mas a irmã impediu-o de ouvir musica enquanto lia dava-lhe comichão na tummy fumy.
A parvinha nunca mais abortou pensamentos gagos estava vesga de tanto ler e foi tirar férias para casa dos amigos do arrosendo, os do campo de batalha a calma regressou ao Silêncio desde que o Pinto levou nas ventas e calou o bico mas isto não fica por aqui.
A falta de transparência será punida com alguns skuds de fabrico nacional
Os fedelhos tem que entrar na ordem da nação IR á Pesca.
Peixe fresco é o que desejamos, chega de peixe a cheirar a fénico e delfinos enlatados, jms lilases.
Freakalhada, toca a atinar, acabou-se o recreio, chega de trocar cromos quero ver tudo a trabalhar na Pesca.
Hoje, sem exemplo, enfio uma sarda na boca de cada um para irem chupando e tomando o gosto do peixe fresco.
JM e Alentejano, não me virem as costas, que não abedico,
é para a boca, mais nada, tá dito!

Sempre Vosso
Capado de Tudo

Dito por: capado no dia 8 de dezembro 2003, às 03h42

Peço desculpa aos autores do Silêncio se me revelar inconveniente neste vosso espaço, mas não pude deixar de reparar na alusão à "casa dos amigos do arrosendo"...

arosendo/fernando, afinal são os teus "amigos" que brincam com o teu nome!
disseste aqui, há uns tempos atrás, que não eras responsável pelas atitudes dos teus amigos, não deixando contudo de os designar por "amigos", de te gabares que usavas os seus PCs, que sabias quem era o capado & afins, e de seres indelicado com pessoas também, ... bom, eu, que nunca até hoje fui indelicada contigo, lembro-te o ditado, "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". é só um pensamento.

ao capado, pouco tenho a dizer: as tuas intervenções têm-nos permitido um estudo “em presença” de algumas perturbações da mente humana: as obsessões, o fenómeno de transferência e sublimação, o discurso torrencial, a agressividade verbal… dirás, por exemplo, que sou esquisita, deprimida, pouco inteligente, freak, intectualóide rasca, abaixo de cão, etc, etc, etc... tudo bem, mas o mais interessante é que estes teus momentos psicoterapêuticos têm o seu lado positivo - quem não se sentiria bem consigo mesmo, tendo um termo de comparação tão... como direi? (no fundo, não deixas de ser uma pessoa generosa, um sentimental à tua maneira...)

Dito por: margem no dia 8 de dezembro 2003, às 23h40

continuo a dizer que não posso ser responsável pelo que o grupo do capado escreve aqui. eu já estava fora deste silêncio. aquilo é uma comunidade de malfeitores. só um deles é meu íntimo. eu nem devia entrar nestes pormenores. ao teu pensamento respondo que não costumo deitar os amigos fora. tudo isto me ultrapassa. e a prova é que eles também me atacam, inclusive no meu blog. é o jogo deles. agora esqueçam-me. tenho mais em que pensar.

Dito por: arosendo no dia 9 de dezembro 2003, às 00h14

claro que não falava em "deitar amigos fora", são palavras tuas. creio que temos conceitos diferentes de amizade, é só.

Dito por: margem no dia 9 de dezembro 2003, às 00h58

o que está a acontecer aqui é muito complexo, margem. é tudo muito complexo. eu estou a ser prejudicado porque houve pessoas que perderam a confiança em mim. mas eu tenho o meu trabalho e é nele que eu quero pensar com muita honestidade. lamento muito.

Dito por: arosendo no dia 9 de dezembro 2003, às 08h16

o que está a acontecer aqui é muito complexo, margem. é tudo muito complexo. eu estou a ser prejudicado porque houve pessoas que perderam a confiança em mim. mas eu tenho o meu trabalho e é nele que eu quero pensar com muita honestidade. lamento muito.

Dito por: arosendo no dia 9 de dezembro 2003, às 08h19

margem, nunca mas nunca terás que pedir desculpa aqui ;)******


ah, arosendo, não é nada complexo, é bem básico até.... muito muito básico, tão básico como as necessidades fisicas naturais: urinar, defecar, etc...

Dito por: dolphin.s no dia 9 de dezembro 2003, às 10h51