Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta
A inspiradora solidão nocturna pode ser também entendida ou considerada como a brecha que se abre para a nossa melhor companhia.
Ou mesmo, pode ser entendida e considerada, já, como muito mais do que essa brecha.
A instalação em nós pode ser tão grande e tão profunda que a sua ausência seria o nosso enfraquecimento. A nossa morte com a ausência dessa solidão.
E ficariamos reféns de uma solidão sem solidão nocturna. E ficaríamos reféns do que é o contrário da escuridão. E ficaríamos reféns da ausência de um tipo de solidão que nos protege, envolve e fortifica.
A inspiradora solidão nocturna será, pois, o que nos motiva, estimula, faz ser e avançar. Mais e mais. É a força que nos inspira. É tudo aquilo que nos projecta, desenha, esculpe e faz posicionar em todos os espaços em que nos encontremos. Porque está sempre dentro de nós. Solitariamente acompanhante.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de novembro 2003, às 21h19a solidão é-nos necessária, é mtas vezes a melhor companhia
Dito por: dolphin.s no dia 16 de novembro 2003, às 21h25a solidão noturna e seu campo vasto para a nossa imaginação à galope. o sentido escuro da noite (ou devia ter escrito obscuro?), oferece-nos sempre o regaço amantíssimo para nele deitarmos as palavras : urgentes ou não. ou cansadas. ou apaixonadas. ou odiosas.
a noite tem canções que ouvimos claramente, destituídas dos ruídos diurnos, ou dos odores. concentrados enfim, nessa espécie de realidade na qual viajamos noite adentro. e criamos.
abraços, gostei tanto dos textos, minhas visitas serão frequentes.
abraços
eugênia
a solidão noturna e seu campo vasto para a nossa imaginação à galope. o sentido escuro da noite (ou devia ter escrito obscuro?), oferece-nos sempre o regaço amantíssimo para nele deitarmos as palavras : urgentes ou não. ou cansadas. ou apaixonadas. ou odiosas.
a noite tem canções que ouvimos claramente, destituídas dos ruídos diurnos, ou dos odores. concentrados enfim, nessa espécie de realidade na qual viajamos noite adentro. e criamos.
abraços, gostei tanto dos textos, minhas visitas serão frequentes.
abraços
eugênia
a noite devolve-nos tudo o que o dia nos rouba...
brigada eugênia :)
Dito por: dolphin.s no dia 17 de novembro 2003, às 10h28