Ah, a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem. Porque uma pedra é consistente, conhece-se, sem alarme, na dureza com que nos cria as próprias mãos, nos define, sem sombras, a cabeça que nos feriu, o sangue que nos inundou a face. As pedras constroem-nos a rua que pisamos e onde podemos sentir-nos vivos dessa vida imediata que sabe o donde e o para onde, dessa vida articulada como engrenagem certa de relógio, a cujo rumor compassado pode até apetecer dormir...
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Publicado por dolphin.s em novembro 15, 2003 12:33 PMPensemos o quanto o atirar de pedras (ou das pedras) nos fazem antes acordar para a realidade... porque esta não nos é imediata.
Pondo assim término a uma fase ilusória ou de afastamento do que realmente é, as pedras comportam-se ou assumem-se como o choque terapêutico que nos faz ou está a fazer falta.
E deitam abaixo uma frágil estrutura montada. E obrigam a pensar no erguer de uma estrutura efectivamente consistente ou, pelo menos, mais consistente (ou ainda, com uma consistência diferente).
E transformam-nos em passeios ou calçadas de nós próprios. E levam-nos a assumir o peso dos pés (de todos os pés), dificultando a abertura de buracos. Ou facilitando o seu recuperar com a busca rápida e imediata de materiais de concerto.
Com mais ou menos sangue, com mais ou menos feridas, com mais ou menos espaços com negro... e com arranhões, e com cicatrizes e com tudo isto que é susceptível de repetição, o efeito do "baque" poderá ser sempre diferente. Mais ligeiro. Menos doloroso. Mais distantemente real, porque mais facilmente e não tão traumatizantemente suportável.
Porque a pedra é. Porque a pedra existe. Porque a pedra se (auto)-esculpe, porque existe algo ou alguém que dá movimento à pedra. E porque esta atinge. Porque nos atinge. Porque atinge a realidade fazendo-a acordar de um sono. De um sono que é nosso. De um sono que apaga o que é. De um sono que nos prende num sonho em que as pedras não existem e em que o mais pesado será eventualmente feito de algodão.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 13h16" e transformam-nos em passeios ou calçadas de nós próprios..." sim, somos o chão que pisamos.
eu levo sempre pedras para casa.
defendemo-nos mais facilmente de uma pedra que nos atirem, porque a pedra não é dissimulada, não tem como propósito apanhar-nos de surpresa. É frontal.
Dito por: dolphin.s no dia 15 de novembro 2003, às 14h17não falo das pedras que nos atiram
falo daquelas que nos surgem no caminho abruptamente
poderia uma dessas pedras
ferir de morte a minha estupidez,
despertar-me para a minha realidade imediata,
assentar-me bem os pés no chão,
e ser alicerce de uma nova estrutura?
as pedras em que tropeçamos, as pedras que não esperamos, serão talvez as únicas capazes de nos fazer cair e procurar outro caminho
Dito por: dolphin.s no dia 15 de novembro 2003, às 15h14em todos os caminhos existem pedras. às vezes também somos as pedras que dirigimos a nós próprios. portanto, somos o caminho dessas pedras.
Dito por: arosendo no dia 15 de novembro 2003, às 15h45Dando sequência ao que diz o Arosendo, há alturas em que sou pedra de mim, assim como a pedra que atiro para mim própria. Esta metamorfose ou deslocação identitária pode redundar em ferida ou na abertura de um buraco transformado em caminho, naquela que é a construção da minha realidade. E esta surge, então, como posicionada da senda de uma Existência em plena evolução. Porque nela não há nem nada pode haver em definitivo.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 15h55as pedras são as feridas dos nossos dias.
Dito por: arosendo no dia 15 de novembro 2003, às 16h12Concordo com a Margem quando diz que, para além de nos serem atiradas, as pedras também podem surgir abruptamente no caminho.
Mas surgem por que motivo(s)? Alguém as andou a espalhar por lá? Se sim, quem? Surgiram resultante de situações nas quais participámos e não demos a devida importância a elas a devida sensibilidade? Surgiram por acaso? E o acaso existe? Nessa situação abrupta onde nos posicionamos verdadeiramente? E como ficamos perante o inesperado? Como resolveremos o problema?
Claro que temos uma estrutura. Eventualmente boa ou eventualmente má, ela existe. Mas é construída ou foi erguida à custa de quê? E por quêm? Houve auxílios? Ou fomos nós que, na nossa máxima possível independência, nos encarregámos dela?
E nessa e com essa estrutura quem somos nós? Quem poderemos vir a ser? Temos condições para a mudança? E para os reajustes? Em que graus? Com que intensidades? Com que motivações? Com que vontades? E existem estímulos? Ou somos estupidamente amorfos? E em que consiste a nossa estupidez? Quem define essa estupidez? Nós? Os outros? A consciência inteligente que (repentinamente) passamos a ter da fragilidade e da deficiência da nossa estrutura?
E as pedras. E novamente as pedras! Como surgem? Porquê? A que propósito? Em que contexto(s)? Só nos momentos de fraqueza ou também em momentos que julgamos de força? E a força com que nos atingem é desmesuradamente fraca, mas doi-nos brutalmente na mesma ou é raivosamente forte e causadora de impacto que nos destroi definitivamente? E de rastos, conseguimos levantar-nos? E a estrutura? E a estrutura? E nós na estrutura?
Sandra
As pedras podem ser marcas das auto-flagelações nos nossos dias. Daqueles que correm. Daqueles que correm connosco. Daqueles que correm dentro de nós. E esses dias podem ser muito longos ou podem passar num ápice. Mas as pedras estão lá. A acompanhá-los. A harmonizar-se com os seus ritmos. Com os seus ritmos que não são necessariamente reais, mas antes, e mais conformemente, psicológicos. Tudo é psicológico. As pedras também pode ser talhadas e moldadas nesse espaço do psíquico. E a dor resultante da auto-flagelação também. E só nós sentimos. E só nós percepcionamos de determinada forma. E só nós, evidentemente, poderemos alterar esse estado. Querendo. Desejando ultrapassar o momento da crucifixação. Desejando nem sequer passar por ele. Fazendo predominar, a ressureição. Essa, essa que é a nossa Encarnação. Apesar de todas as pedras. Apesar de todos os caminhos. Apesar de todos os julgamentos. Apesar de todos os eventuais e possíveis Pilatos.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 16h29as pedras também podem ser usadas para a reconstrução de novos caminhos. a direcção que a pedra leva é uma forma de aprendizagem.
Dito por: arosendo no dia 15 de novembro 2003, às 16h37Claro! É isso que eu digo no meu 3º comentário (sem contar com este) atrás.
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 16h50sim, Arosendo, mas penso:
estou cansada. onde, a força para a reconstrução?
penso: a principal pedra no meu caminho sou eu (pensamento antigo este. a minha casa construiu-se sobre ele. estupidez a de construir uma casa sobre um pensamento assim. ou não terei dado «a devida importância» ao pensamento?)
Dito por: margem no dia 15 de novembro 2003, às 16h55Depois de tantas interrogações que deixei, as respostas começam a surgir.
(Estamos no domínio absoluto do exercício mental)
É absolutamente fundamental identificarmos todas as possibilidades ou vertentes de pedras, assim como posicionarmo-nos perante elas.
Igualmente importante, na sequência da reflexão que a tais respostas conduziram, conseguirmos ir desbravando toda a floresta (mais ou menos densa) que está dai para a frente. Mas cuidado! Não nos esqueçamos de limpar o que é devido. Não o fazendo fica o "lixo vegetal" (resquícios ou lixo existêncial) que podem provocar fogos, e resultar em montes enormes de cinzas muito muito negras (e voltamos às "Cinzas").
Sandra
Dito por: Sandra no dia 15 de novembro 2003, às 17h04faltam-nos sempre pedras para a reconstrução do ser no caminho do pensamento. uma pedra é suficiente para recomeçar a viver.
Dito por: arosendo no dia 15 de novembro 2003, às 19h35são cíclicas as cinzas
mas tens razão, Sandra, esse exercício mental é importante e o primeiro passo é questionarmos e questionarmo-nos. e tu fá-lo de forma bem sincera e generosa. :)