Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção — ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom» nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouço-a cair, expulsar da cidade os robots da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. Dirás tu, meu amigo, ou alguém ao pé de ti, que são eles precisamente quem me constrói o mundo onde a «aparição» é possível, este mundo do conforto de um fogão que me aquece, de um telhado que me abriga. Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista — essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças. Eu os vejo agora, passando desorientados pela rua abandonada, fugindo, espavoridos, à invasão do silêncio. De guarda-chuvas abertos, golas dos casacos erguidas, refugiam-se nas guaritas como animais acossados, aí ficam à espera de que o inimigo passe. Sim, eles conhecem a «fraternidade» e erguem-na corno bandeira da sua redenção. Mas da fraternidade eles sabem apenas a fácil estratégia das palavras trocadas, dos braços que se apoiam uns nos outros contra o medo. Mas a profunda fraternidade — tu o saberás, meu amigo— não é uma cadeia de braços, mas uma comunhão do silêncio, uma comunhão do sangue.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Publicado por dolphin.s em outubro 31, 2003 10:32 AMa verdadeira fraternidade revela-se de facto nessa serena comunhão do silêncio e do vazio, do sangue e das vísceras, sem sitio nem tempo
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 10h50mas quase sempre, a única comunhão a que assistimos é a do vazio...
Dito por: dolphin.s no dia 31 de outubro 2003, às 11h16pois, mas o vazio que falas não é o mesmo de que eu falo. eu falo do vazio simpático que quando ocorre nos faz sentir intimamente ligado a uma pessoa. e julgo que tu te estás a referir ao que nos separa...
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 11h58sim kay, eu percebi o que querias dizer, mas não consegui resistir a pegar nas tuas palavras :/
injustamente talvez, porque são 2 vazios com significados contrários.
do teu, acho que a maioria das pessoas nem conhece a existência. têm por definição que a existência de silêncio entre 2 pessoas, significa que nada há entre elas. Não percebem que a existência desse silêncio é exactamente a prova do muito que existe que dispensa palavras.
O vazio de que falo é aquele sobre o qual constroem as suas relações, não tendo noção que se esqueceram dos alicerces.... ou melhor, nunca pensaram sequer que os alicerces são a relação.
as minhas palavras não são minhas... também vou pegando nelas à medida que passo, à medida que as encontro, tás na boa para pegar e usar... "propriedade" é um conceito vil e infeccioso, a todos e qualquer nível... e a forma como explicaste os dois vazios é... é isso mesmo.
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 12h22Eu não chamaria vazio ao silêncio de que fala Kay, esse silêncio que, para V. Ferreira, parece ser o espaço-tempo de reconciliação e empatia, com o eu, o outro e, naturalmente, a vida. Esse espaço-tempo que só se alcança na "aparição" do eu a si mesmo, em toda a sua "íntima nudez", no relacionamento consigo e com os outros. Esse espaço-tempo que, para V.F., parece ser o compasso de espera para a "outra coisa", após a qual "não há mais nenhuma". A possibilidade de reconciliação com a inevitabilidade da morte -
Dito por: margem no dia 31 de outubro 2003, às 13h28não posso deixar de concordar contigo, relativamente à análise do poema...
no entanto, padeço dum acutilante egoismo... é mais importante para mim, no que leio, o que o escrito me faz pensar e sentir, do que propriamente o que o escritor estaria a tentar comunicar. só nas re-leituras consigo procurar este segundo conteúdo, que poderia (deveria?) ser o primeiro...
por outro lado, quando escrevo dou mais importância que aos outros se suscitem sensações ou pensamentos, do que entendam o que eu esteria a pensar quando escrevia... são defeitos, ou características, se quiseres...
o "vazio", quando o escreví, vi-o como o espaço transparente que separa dois seres, cuja comunhão sincera e despida os aproxima até serem (quase?) um só...
eu sou o meu 1º melhor amigo, o meu 1º amor... e os outros meus melhores amigos, e os outros meus amores, são uma parte de mim... e a forma mais completa de comunicação que temos é uma sem veículos para a mensagem... sem palavras e sem gestos... estes, deixam sempre algo por dizer...
fiquei melancólico...
vou beber um bagaço!
Também leio assim... e também ouço música assim.
Tanto uns como outros assumem o significado que preciso na altura. Não procuro saber o que um escritor pensa quando escreve algo. Ia estragar o que me deu a mim quando o li ou o bem que me fez numa dada altura, certa canção.
Os livros são dos autores na altura em que o escrevem. Depois de passarem para as mãos dos leitores, passam a ser propriedade deste.
Sabe bem agarrar num livro, ou ouvir uma música, e pensar na importância que teve para nós naquela altura.
E não dará isso mais prazer ao escritor do que queremos esmiuçar todos os pormenores de construção da obra? Não desvirtuará a principal finalidade de um livro ou de uma canção, que é essencialmente, ser sentida antes de ser entendida?
e, kay, o teu último parágrafo é lindo!
entendo agora melhor o "vazio" de que falavas
"no entanto, padeço dum acutilante egoismo..."
porquê egoísmo? na leitura, não há primeiros ou segundos conteúdos. há diferentes conteúdos. pessoalmente, uso os dois, depende. neste caso, por exemplo, como ainda tenho presente a leitura que fiz do livro e de textos sobre o existencialismo, é natural que me tivesse ocorrido este tipo de comentário. noutros casos, acontece-me diferente.
"por outro lado, quando escrevo dou mais importância que aos outros se suscitem sensações ou pensamentos"
foi isso mesmo, o que escreveste suscitou-me um pensamento, uma interrogação sobre a polissemia da palavra "vazio"
"são defeitos, ou características, se quiseres..."
definitivamente, características! ;)
"vou beber um bagaço!"
e eu vou trabalhar, que remédio!
(sabem, às vezes tenho de evitar sentir. quando estou mais frágil. tenho-me sentido a quebrar, lágrimas às vezes e não pode ser. não pode, agora não pode ser, que há que ir trabalhar e etc, e o "que tem de ser tem muita força" e etc)
Dito por: margem no dia 31 de outubro 2003, às 14h44acabo de regressar, também eu, ao trabalho. no café ali em frente, onde costumo ir ler o horóscopo do jornal no intervalo da manhã, encontrei agora o Henry... ah, ganda Chinaski... bebemos meia duzia de cervejas... ele falava-me da ultima miuda que o foi procurar a casa, em perseguição de um autógrafo sobre uma edição recente, e das suas qualidades sexuais... eu pensava, absorto, que sou mesmo, MESMO, egoísta... e que preciso de o dizer às pessoas, que tenho que o fazer saber... talvez tal me desculpe... talvez um pouco...
acho que vou beber mais qualquer coisa...
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 14h47bem.... temos o fim-de-semana à porta, margem.
o pouco tempo que nos é dado para sermos donos de nós mesmos ;)
kay, um licor beirão para aqui, por favor - a melhor bebida de inverno ;)
ó sô'Lino! leve alí um beirão à mesa daquela menina se fa'chabôr... ponha na minha conta... :)
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 15h19:)))
muito agradecida!!! e o fim da semana começa assim ;)
é muito agradável este café, não é? chamam-lhe piolho e é um dos mais antigos do porto... todos os tipos de gente o frequentam, todos se sentam na mesma e longa mesa... todos os betos, todos os tansos, todos os velhos e novos, todos os freaks, todos os poetas rebarbados, todos os loucos e alcoólicos... na realidade chama-se âncora de ouro e é o meu santuário...
ó sô'Lino!! traga mais duas...
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 16h08está-se bem e aconchega... mais um canto para a próxima viagem...
apresentas-me ao sô Lino?
mais um beirão que ainda não aqueci!
o sô lino já não trabalha lá... mas como para mim foi uma das personagens mais míticas daquele cenário eu resolví referi-lo... quem trabalha lá há tempo suficiente para eu saber o nome é, neste momento, o paulo e o barbosa... gajos porreiros... mas com pouca mistica... os donos do sitio exploram completamente os empregados e estes não se aguentam lá muito tempo, acabam por desistir... o lino, o gomes, o raul e o outro moço que vendia ganza enquanto servia os clientes foram dos poucos que se aguentaram muito tempo, tornando-se "da casa"...
ontem encontrei o sô lino no s. paulo quando fui comer uma francesinha... ele também foi lá jantar... brandiu-me o seu inigualável sorriso simpático dente sim dente não e cumprimentou-me... eu devolvi-lhe a gentileza mas com os dentes todos... desde que tentou matar um gajo à frente do café com uma faca que tirou de detrás do balcão que nunca mais lá trabalhou... mas é bom homem... muito bom homem...
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 16h36ah, desculpa... esqueci-me de pedir o teu beirão...
já não te posso apresentar ao lino, mas tenho todo o gosto em apresentar-te ao espaço...
Dito por: kay no dia 31 de outubro 2003, às 16h38lembrar-me-ei na próxima escapada até aí :)
vou beber outro, para comemorar a chegada da noite :)
Dito por: dolphin.s no dia 31 de outubro 2003, às 20h27