outubro 31, 2003

Bicarbonato de Soda

Fernando PessoaSúbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!


Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em outubro 31, 2003 01:52 PM
Comentários

Há alturas em que temos a sensação ou, mais do que isso, a certeza, que andamos cá por engano. Que somos um equívoco (desnorteado) de nós próprios e que tudo à nossa volta parece realisticamente surrealista.
Nem o corpo, e muito menos a alma, se adaptam ao existente que, objectivamnente, não é "em si", mas é para cada um de nós. E chegamos a desesperar. Corremos, por isso, em busca de um abrigo dentro de nós, o qual, por vezes, se mostra irremediavelmente pequeno. Apesar do esforço não conseguimos entrar e, muito menos, penetrar. Ou seja, não conseguimos fundir-nos nele e sentir que ali estamos seguros. O refúgio do exterior é parco. O refúgio em nós encontra-se comprometido. E emerge a náusea. A náusea. Sempre a náusea.
Procuramos algo que nos refresque. Algo que nos dê vida sobre fingida ou teatral vida. Encontramos. Por vezes encontramos e lá nos sentimos ressuscitar para "aquilo". Para "aquilo" que é o exterior. Grande. Muito grande. E para os outros. Todos. Muitos. MuitoS. Demasiados. Excessivos.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 31 de outubro 2003, às 18h15

Arre!
Deixem-me existir!
Deixem-me fazer uma pausa nos 3 actos e 1 epílogo que vivo todos os dias!
Deixem-me baixar o pano e apagar as luzes!
Deixem as lâmpadas arrefecer!
Deixem o pano descair na sua plenitude!
Deixem o teatro escaziar-se!
Deixem o teatro desintoxicar-se!
...de respirações...
...de sensações de presença(s)...
...de representações...
...da actriz...
...do actor...
...dos actores no seu todo...
Deixem as fusões separarem-se!
Deixem os desdobramentos deixar de existir!

...Deixem-me ser!
Eu.
Só eu.
Na companhia de mim.
Sem mais ninguém.
Sem mais nada.
Sem mais esforços...

... Deixem-me beber um copo de... tranquilamente...
... sem pressas...
... sem tempo a envolver-me... e a empurrar-me para a frente, desmesuradamente...
... deixem-me ficar só, na companhia daquilo que dentro do copo me volta a dar vida...
... a minha vida...

Sandra

Dito por: Sandra no dia 31 de outubro 2003, às 18h39

li e reli o teu 1º comentário.... :)
que poderia eu dizer mais.....

Dito por: dolphin.s no dia 31 de outubro 2003, às 20h30

nada.

Dito por: arosendo no dia 31 de outubro 2003, às 20h51

:))
Dolphin.s:
acrescenta aquela tua especificidade.Sim. Aquela. Aquela que é tua. Vai lá ao teu interior buscá-la. E põe-a aqui.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 31 de outubro 2003, às 21h12

Arre! Sandra,
deixa-me ler mil vezes estas tuas palavras.
Dizem tanto de tanta coisa!

(e dirão elas do teu "antídoto"?
é que li há pouco o "Antídoto" do J.L.Peixoto, um pouco apressadamente talvez, e vou ter de reler. fiquei baralhada. o seu antídoto escapou-se-me entre mortes, tantas...)

Dito por: margem no dia 1 de novembro 2003, às 10h52

Não se pode ler o "Antídoto" apressadamente. É que se assim fôr, não faz efeito...

"Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo".

(1º Conto [da novela]- "Dentro e sobre os homens".

... a partir daqui o que se toma e a forma de digestão não pode ser brutal, devoradora, apressadamente rápida...
Faça-se a ingestão e a assimilação com uma calma deliciosa, sempre, acompanhando o aroma e o sabor de cada uma das palavras.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 11h17

Já agora, menina Dolphin.s, para quando o José Luís Peixoto de novo no "Silêncio"?
E o "Antídoto" continua escandalosamente a tardar. A tardar. A tardar...
Deves andar muito cansadinha...

Sandra :)))))))))))))))))))))))

Dito por: Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 11h21

ehehehe

Com a quantidade de livros que tenho abertos, tem sido complicado agarrar no Antídoto, e como tu disseste, é para ler com calma e tempo dedicado só a ele.

Mas lá chegarei ;)

Dito por: dolphin.s no dia 1 de novembro 2003, às 13h48

"Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram.(...)"
única, absolutamente única, a maneira como ele nos fala do medo "dentro e sobre os homens", melhor, a maneira como ele nos mostra o medo a falar na 1º pessoa, talvez até protagonista do livro, esse medo que percorre o livro como um "leitmotiv" (é assim que se diz?)

têm razão, tenho de reler devagar, para não me prender a um só elemento, para apreendê-los todos. e depois, a prosa poética...

Dito por: margem no dia 1 de novembro 2003, às 14h56

Margem:

o livro é como o Medo (encarna-o ao falar dele): prende-te completamente e faz-te prender a todos os momentos. Por mais que tentes fugir ou ignorar, não consegues, porque ele - o livro- está entre e no meio de nós. Mesmo entre e no meio de todos o que o ignoram e ainda não o leram, sentiram ou pressentiram.
Com ele, envolves-te com o veneno e com o antídoto. Com os dois. Ao mesmo tempo. E, claro, sem pressas... nem desejo de pressas... Porque não consegues que assim seja, mesmo com o ímpeto devorador da leitura.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 15h41