outubro 28, 2003

É tudo mentira...

Herberto HelderRepeti: —Avó — e a mão agitou-se, sem eu saber o que significava isso quanto à eficácia das vozes e à existência dessa tal atenção que se reconduziria, etc. — Quer que chame o padre?
Sim, decerto: já expliquei. Ela frequentava o culto, mandava celebrar missas pelos seus mortos, confessava-se e comungava. Já disse: com que distracção, intenções, etc., etc. Bem: vejo-me assim a servir os poderes que ignoro, a realidade que ignoro, a ficção, as ficções que ignoro. Papel próprio para a juventude. E agora há mais forças. Estou cercado por forças de que mal vislumbro a natureza e a acção. Cada vez mais forças, pois estou diante da idade e ela chama novos poderes, sombrios poderes, sombrios enigmas. E depois, com a ideia de que lá fora a estação é de alto esplendor, de convite à pura exaltação, à inexperiência, à inocência — fico ainda mais inepto.
A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
— É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas — fulgurante e estúpida.
Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade, mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido — ele! — de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.
A Avó morreu nesse mesmo dia.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Equação

Publicado por dolphin.s em outubro 28, 2003 03:01 PM
Comentários

posso dizer um pouco magoada, hoje tudo vai dar à avó

faço um mix de palavras

vozes mortos comungava enigmas inocência gelada mentira estúpida vil a avó morreu dia

Dito por: margarete no dia 28 de outubro 2003, às 15h10

o único avô que tive tempo de conhecer, morreu quando eu tinha 10 anos... tenho saudades do que não tive.

Dito por: dolphin.s no dia 28 de outubro 2003, às 15h15

as heranças k recebi:

o chapéu do meu avô do bigode, cumprimento-o todos os dias
o xaile da avó velhinha, na minha cama e às costas qdo escrever me arrefece
os cabelos brancos de dentro do avô calado
o mau feitio da avó dos pais, utilizo todos os dias

Dito por: margarete no dia 28 de outubro 2003, às 15h26

a lembrança mais nitida que tenho é do meu avô, já doente, na cama. Eu e a minha irmã, uma sentada de cada lado dele. O meu avô agarra no candeeiro de mesa de cabeceira e coloca-o nas pernas.
Passamos a tarde a ver na parede os bonecos que o meu avô fazia com as mãos...

Alguns (poucos) anos mais tarde lembro-me de ter pedido como prenda de natal uma lanterna. Passei noites a fazer bonecos na parede para a minha irmã :)

Dito por: dolphin.s no dia 28 de outubro 2003, às 15h36

Lembro-me bem do meu avô paterno, um homem alto e forte de olho azul. E da minha avó, pequena, dobrada, amiga de contar hsitórias até à mentira. Hummm, talvez deva reler Herberto Helder!

Dito por: Luis Ene no dia 28 de outubro 2003, às 15h52

:)

qualquer motivo é um bom motivo ;)

Dito por: dolphin.s no dia 28 de outubro 2003, às 15h54

o meu avô paterno, que não conheci, era mulherengo e boémio...
a sua esposa, minha querida vó, que viveu até aos 97 anos, era uma matriarca poderosissima...
a minha avó materna é uma senhora delicada e hipersensível, morreu três meses depois do seu marido, meu avô, dez anos mais jovem que ela, ter falecido - dizem que de desgosto! esses três meses passou-os em continuo pranto...
esse meu avô era louco. embora nunca tal lhe tivesse sido clínicamente diagnosticado, todos tivemos a oportunidade de o poder verificar... um louco contestatário, desrespeitador de imposições sociais, libertário, em tempos de liberdade reduzida... para infantil divertimento meu e inquieta preocupação sempre presente na sua filha e sua esposa...

talvez esta genealogia explique muito de mim...

Dito por: kay no dia 28 de outubro 2003, às 16h30

ao falar da minha avó materna devia ter dito era, na vez de "é" - acto falhado...

Dito por: kay no dia 28 de outubro 2003, às 16h31

foi o coração k falou,
acreditaste k foi um lapso? (ingenuidade)
bonito erro de verdade
:)

Dito por: margarete no dia 28 de outubro 2003, às 16h43

uma loucura muito saudável kay :)
temos falta de "loucos" assim nestes tempo de suposta liberdade :)

Dito por: dolphin.s no dia 28 de outubro 2003, às 16h45

acto falhado não é erro - é tiro certeiro às cegas... :)

Dito por: kay no dia 28 de outubro 2003, às 16h50

estava inibida pela lamechice do acto mas proponho um Hurray aos avós

Dito por: margarete no dia 28 de outubro 2003, às 16h54

é lamechas de facto... é nesta altura que eu me corto...

...vou ver se arranjo qualquer coisa com que estancar o sengue...

beijos e até amanhã

Dito por: kay no dia 28 de outubro 2003, às 16h59

há coisas em que temos direito a ser lamechas ;)

Dito por: dolphin.s no dia 28 de outubro 2003, às 19h16

Sei que sou previligiada. Tive os quatro avós até aos 28 anos. Então morreu o meu avô paterno. Era o Avô Cornetto, porque quando estava connosco, presenteava-nos com as ditas gulodices. Passados 8 meses morreu o avô materno que, ao Domingo, quando eu tinha 5 anos me levava sempre a passear a um parque lindo, com pavões e lobos. Era sempre de manhã e fazia muito frio. Restam-me as duas avós, cuja presença aproveito como posso, mas não como devia.

Dito por: cm no dia 29 de outubro 2003, às 14h42

deixa o 'não como devia' assim distrais-te

aproveita aproveita

como sabes, não como manda essa coisa do como deve ser

aproveita diz 'gosto de ti' como quiseres se quiseres até mesmo em silêncio

olha uma ideia: inicia-as na blogosfera, k achas?

Dito por: margarete no dia 29 de outubro 2003, às 15h00

Como eu gostava de as ver agarradas ao teclado e a el ratón a fazer pesquisas, a criar blogs e a mandar mails... A mudança nos seus mundos ia ser tão radical como agradável, creio eu.

Dito por: cm no dia 30 de outubro 2003, às 09h57

e a cara de espanto e os risinhos quando numa qualquer pesquisa inocente lhes saltasse um daqueles pop-ups com publicidade porno ehehehehehe ;)

Dito por: dolphin.s no dia 30 de outubro 2003, às 10h06

a imagem mais forte que, infelizmente, guardo do meu avô materno (o paterno não conheci) é a da súplica... o meu avô morreu de cancro e a última imagem que dele me assalta, pertence a uma visita que eu lhe fiz. nesse dia, sem planear e sem avisar ninguém fui a casa dos meus avós, era já noite avançada, entro em casa deles sem me anunciar(a casa está sempre aberta) e entro no quarto dos meus avós sem bater à porta, silencioso. a minha avó quando me vê encostado na penumbra da porta, atrapalha-se um pouco e tenta sem êxito tapar o corpo do meu avô com os lençóis que estavam no chão à espera de irem para lavar. a minha avó estava a lavar o corpo do meu avô... foi quando vi a doença a devorar impiedosa o corpo do meu avô à frente dos meus olhos... do seu corpo apenas lhe restava a carcaça, dia após dia a doença bebia-lhe e petrificava-lhe o seu corpo. o meu avô naquele instante recordou-me os presos do holocausto amarrados a uma cerca, impotentes, indiferentes à fome porque do seu corpo apenas possuíam uma memória vaga e cujo olhar apenas pedia uma coisa, liberdade... naquele instante o rosto cadavérico do meu avô ergue a vontade de me dirigir umas palavras, com a morte a cobrir-lhe o corpo e o olhar, sinto que ele ainda me reconheceu, mas em vão, segundos depois desistiu, a doença era mais forte. eu nada consegui dizer, apenas fiquei ao seu lado a observar a minha avó a lavar os ossos do meu avô que se preparava para morrer... dois dias depois, no meu aniversário, fui ao seu funeral.

Dito por: nelson d'aires no dia 30 de outubro 2003, às 10h42