outubro 30, 2003

Dormimos a vida

Fernando PessoaQuando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha
adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)
Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em outubro 30, 2003 10:34 AM
Comentários

são fantasmas

Dito por: kay no dia 30 de outubro 2003, às 12h27

Pertence sem dúvida a outro mundo, este Poeta sem par. Só esta imgagem : "há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta"!!! Quem mais se lembraria de descrever esta sensação, e desta forma? Fantástico.

Dito por: Frederico no dia 30 de outubro 2003, às 13h24

Sei que isto não vem muito a propósito, mas o último parágrafo fez-me lembrar uma citação do Vergílio Ferreira:

"Um casal de velhos têm o mesmo sexo" ;)

Dito por: Paulo Silva no dia 30 de outubro 2003, às 15h12

:))))

Dito por: dolphin.s no dia 30 de outubro 2003, às 20h03

O que me ocorre a propósito deste texto!

a "perpétua novidade da sensação liberta" não parece de quem afirma "dormimos a vida"...
a percepção do real, a sensação, a reflexão, todo esse percurso parece o de quem está acordado para a vida; quererá ele excluir-se dos que dormem a vida? as últimas frases sugerem uma de distanciamento, de observação do(s) outro(s).
E, no entanto, ele dorme a vida, a sua vida! porque as suas sensações parecem estar libertas apenas para a observação dos outros, apenas para a racionalização de vidas que não são a sua.

"Tudo o que dorme é criança de novo."
Sim, o que dorme não pode fazer mal a ninguém, senão a si mesmo às vezes. Digo eu. Há o acto natural de dormir como consequência natural do cansaço e do sono; e é-se criança de novo, até quando há pesadelos. Mas há outras formas de dormir, digo eu, para quem às vezes dormir é a única forma de não viver sem morrer. E há outras formas de dormir, diz o Bernardo Soares, e está certíssimo. Só não generalizaria, como ele...

Dito por: margem no dia 31 de outubro 2003, às 00h51