outubro 25, 2003

Chove muito

Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em outubro 25, 2003 05:41 PM
Comentários

Nestes dias de chuva e frio tudo faço para aquecer a alma. Nada de muito complicado. Nada disso. Um espaço escolhido e um livro desejado são(-me) tudo. E um pouco de música. Ao fundo, baixinha...
...e nada, nada de desassossego.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 25 de outubro 2003, às 18h08

Por aqui chá quente de maçã e canela, o Grace no leitor de cd e um monte de livros espalhados...

um doce desassossego...

Dito por: dolphin.s no dia 25 de outubro 2003, às 18h18

Para completar o cenário, deixo aqui um poema de Valter Hugo Mãe (http://www.valterhugomae.com), que tenho andado a descobrir...à medida que vou lendo e relendo (recordando)cada um dos seus trabalhos:

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento

(In: MÃE, Valter Hugo- "Estou escondido na cor amarga do fim da tarde". Porto: Campo das Letras, 2000, p. 42)

Dito por: Sandra no dia 25 de outubro 2003, às 18h36

mais um aconchego :)

Dito por: dolphin.s no dia 25 de outubro 2003, às 18h40

Do mesmo autor, na mesma obra:

reconhecerei o volume da alma
agarrada com unhas e dentes às réstias do corpo

... Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 25 de outubro 2003, às 18h44

E já é noite...

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 25 de outubro 2003, às 19h07