Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobre tudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azafama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro
uma prenda! :)))
Nós parecemos uns intelectuais "chanfrados"!!
Sandra :))
Dito por: Sandra no dia 24 de outubro 2003, às 21h36Blogar é escrever epístolas.
Dito por: Rui MCB no dia 24 de outubro 2003, às 21h43eh eh eh....
se tu gostares estás tramada... bem vinda ao clube dos vergilianos anónimos
de qualquer forma, todo este "hype" sobre o VF já me fez conhecer uma pessoa (Silabas Abensonhadas) que tem pelo menos tanto fervor pelo Vergilio como eu... sem desdenhar vocês outros (Sandra,arosendo) que também gostam bastante dele.
Quem sabe, daqui a uns anos, não vamos fazer com que a sociedade portuguesa lhe dê o destaque que ele merece ?
Para já tenho que ler apenas toda a obra dele... eh eh eh e depois vê-se
Dito por: Paulo Silva no dia 24 de outubro 2003, às 22h01O Rui pegou numa ideia que eu tinha em mente: "blogar é escrever epístolas". Vou adaptar um pouco: os nossos comentários- estes que fazemos- são epístolas. Cartas que, diariamente, a nossa alma vai escrevendo com uma caneta cuja tinta é sangue. Aquele que é nosso. Aquele que vem de dentro de nós. Que nos vem de dentro. Do fundo. De tão fundo, que nos vai mostrando. Que nos vai revelando. Que nos vai fazendo espelhar. Que nos vai fazendo, também, adivinhar-nos num percurso que tem sido, é, e será nosso. Até ao futuro. Ao nosso futuro.
As nossas cartas conduzem-nos para lá. Fixam-nos sempre lá. E de lá aparecerão para os constantes presentes. De outros. Dos outros. De todos aqueles que nos lerem.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 24 de outubro 2003, às 22h18Por cada mês de epístolas escritas há um dia de reclusão, de receio, de pudor.
Dito por: Rui MCB no dia 24 de outubro 2003, às 22h30Tive uma surpresa boa esta noite e acabei na Aula Magna com o John Cale, por isso ainda não agarrei na carta como tinha planeado.
Mas valeu a pena... uma lenda em palco.
Por isso vou só pensar nos vossos comentários amanhã, porque esta noite na minha cabeça só há música :)
vou sonhar... até amanhã!
Esta Carta ao Futuro ainda vai muito que falar... espero. :-)
Como disse - e bem Jorge de Sena em relação ao VF "Ele tem uma letra tão miudinha, tão miudinha, tão miudinha, que a sua Carta ao Futuro cabia numa estampilha dos correios" :-))
Espero que dê! Era tão bom sinal ouvir-se falar muito dela....
Dito por: dolphin.s no dia 11 de novembro 2003, às 18h08Ouvir-se falar muito não sei... mas alguma coisa isso de certeza que sim! :-)
Ando a reler a Carta ao Futuro por vários motivos entre os quais um: mais uma vez VF (como toda a gente, toda mesmo, que passa por lá mais demoradamente...) fala do mistério de Évora, de ser uma cidade mortal, silenciosa, secular. Mas no de pior isto possa significar. Ele escreve - e dizia-o muito em vida - que em Évora somos intrusos. Que Évora faz chorar. Que Évora provoca um turbilhão de sentimentos desesperantes sem aparente justificação. E agora, quem explica isto? Será por Évora ser uma cidade erguida sobre a morte?
Não sei... Évora exerce sobre mim um encanto que não sei explicar, desde a primeira vez que a visitei - uma excursão da escola primária :)
Nunca visitei a cidade mais demoradamente... o máximo que lá passei foram 3 dias.
Não sei explicar que fascínio é, mas não me sinto como um intruso... Uma viagem no tempo, uma cidade que pertence a outra era... uma sensação de irreal, mas que parece fazer todo o sentido.
Sinto-me confortável lá. Sinto-me como se fizesse parte das muralhas e da história.
Pois, mas não se sente quando se vai de passagem. Isto é dito por pessoas que lá estiveram anos a fio. Tenho uma amiga minha que deu lá aulas durante 8 anos. O VF esteve lá 14 anos. Sugiro uma leitura do João Miguel Fernandes Jorge, disponível em
http://www.silabas.blogger.com.br/2003_11_01_archive.html#13172974
E agora: porquê?
Dito por: ip no dia 12 de novembro 2003, às 10h35ehehehehe
pois... contínuo sem saber como responder...
mas esta passagem reflecte o que sinto por Évora:
"Temos de lhe resistir, porque senão acabamos por perder nela, para sempre, os nossos dias, como quem procura alguém que nunca existiu ou que, ainda, existiu menos que nós."
Uma atracção irrestivel, saudades e vontade constante de lá voltar :)
Acho que não sinto isto por nenhum outro pedaço de chão...
não conheço Évora, mas este fim de semana vou lá (fotografia) e aí vamos lá ver o aquele chão me diz.
Dito por: nelson d'aires no dia 12 de novembro 2003, às 11h27A questão é mesmo essa: segundo os testemunhos, não se sente na passagem, mas sim na permanência. Eu também já fui a Évora e tive a melhor impressão. Mas fui, não estive em Évora... de qualquer modo, fico curiosa por saber a sua reacção à cidade... e já agora, boas fotografias! :-)
Dito por: ip no dia 12 de novembro 2003, às 11h51ip, prefiro que me trates por tu, pode ser? para mim também é mais fácil :)
quanto às fotografias, obrigado.
Dito por: nelson d'aires no dia 12 de novembro 2003, às 12h06ok, combinado! :-)
Dito por: ip no dia 12 de novembro 2003, às 12h37