Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.
Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.
Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.
Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.
Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.
Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.
Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.
Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.
Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.
Ary dos Santos
Publicado por dolphin.s em novembro 16, 2003 12:59 PMgrande poema!
Dito por: constantino no dia 16 de novembro 2003, às 13h12ary dos santos, à imagem de josé gomes ferreira. poetas do entendimento puro.
Dito por: arosendo no dia 16 de novembro 2003, às 13h23:))
Dito por: dolphin.s no dia 16 de novembro 2003, às 13h40Alguém que por ser o que é, incomoda.
Alguém que por ser o que é, excita.
Alguém que por ser o que é, amedronta.
Alguém que por ser (fortemente) o que é, fragiliza.
Alguém que por ser (fortemente) o que é, engole.
Alguém que por ser o que é, querem transformar num avesso de si.
Alguém que por ser o que é, apesar dos embates, continua a luta.
Alguém que por ser o que é, jamais desiste e continua a ser, provocadoramente.
Alguém que por ser o que é, jamais se envergonha, e avança impetuosamente.
Alguém que por ser o que é, afronta, grita, manifesta-se ferozmente através da sua poesia.
Alguém que por ser o que é, manifesta-se delicadamente através da sua poesia feroz.
Alguém que por ser o que foi, ainda está entre nós.
Alguém que por ser o que foi, permanece imortalmente, declamando.
Alguém que por ser o que foi, assiste à insuficiência de todas as homenagens possíveis.
Alguém que por ser o que foi, jamais deixará de incomodar.
Alguém que por ser o que foi, continua a fazer pensar que o melhor seria estar calado.
Alguém que por ser o que foi, continua a fazer pensar no lugar da cobardia.
Alguém que por ainda ser, se destaca.
Alguém que por ainda ser, emerge perante nós.
Alguém que por ainda ser, nos faz pensar sobre a imprescindibilidade de estarmos de determinada forma e de não permitirmos que nos transformem naquela que é a sua negação.
Alguém que por ainda ser, nos aponta o dedo da sua poesia exigindo-nos o não adormecimento e o não enviezamento daquilo que entendemos ser correcto, justo e nobre...
... Sobretudo em nós.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de novembro 2003, às 13h43a tua força também conta no meio dos poetas.
Dito por: arosendo no dia 16 de novembro 2003, às 14h05os poetas procuram muito o meio.
"Sou eu que os enforco numa corda de sonho"
Dito por: jm no dia 16 de novembro 2003, às 19h32