outubro 26, 2003

Poema pouco original do medo

Alexandre O'NeillO medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O'Neill

Publicado por dolphin.s em outubro 26, 2003 12:12 PM
Comentários

O Medo é o que caridosamente nos resguarda e impede de naufragarmos em nós próprios. Ajuda-nos na ilusão. Ajuda-nos na segurança ilusória.
O Medo o que evita naufragarmos num mar mais amplo e tanto mais perigoso quanto é a nossa incapacidade de/para nadar. Para encontrar a salvação. Aquela que é nossa. A salvação equivocada. A salvação, também ela, ilusória. Consistentemente perene

Sandra

Dito por: Sandra no dia 26 de outubro 2003, às 12h51

O Medo é o duplo de nós. Aquele que nos segue, sempre, e nos faz constantemente lembrar a sua existência. Desdobra-nos. É o nosso desdobramento. É o "eu" que quero evitar, mas que ao mesmo tempo desejo como escudo protector. Porque o mundo lá fora é perigoso. E porque a emoção precisa de um freio. Precisa de uma consciência. E o Medo assume-se como essa consciência. Mesmo que racionalmente não o queiramos, querendo. Mesmo que racionalmente nisso não acreditemos, acreditando.
O ele lá esta. Como uma sombra. Como um outro de mim. Como um Ser que se me arranca de tão entralhado que está.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 26 de outubro 2003, às 12h59

:):)

Dito por: rimusi no dia 26 de outubro 2003, às 13h55

O sorriso era pelo poema, por gosto muito de O'Neill, e também porque tenho saudades tuas.

Quanto ao medo, preocupa-me a fronteira entre os confrontos necessários e os confrontos inúteis. Ser cobarde onde não sei ver essa linha e decidir. Sendo certo que, de uma maneira muito nietzscheana, só se pode ser senhor de um reino, ainda que mínimo, sabendo distinguir essa fronteira e não fugindo nunca aos confrontos necessários. Isto foi a minha vida desde os 18 anos, a idade do primeiro grande confronto. E faz-me muita confusão encontrar pelo caminho o esqueleto informe dos escravos.

Beijos

Dito por: rimusi no dia 26 de outubro 2003, às 14h01

errata: onde se lê caminho leia-se livre de caminhos. Não era a palavra que eu queria empregar. Mas vamos vivendo e as pessoas vão passando por nós e nós por elas, de alguma forma. Era isso.

Dito por: rimusi no dia 26 de outubro 2003, às 14h03

olááá!! :))

talvez nos encontremos quarta, no S. Luiz?? ;)

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 14h19

o medo é necessário à nossa sobrevivência. impede-nos de dar um passo em falso num abismo sem pararmos um momento antes, talvez o momento suficiente para nos fazer voltar atrás.

mas ao viver com o medo como o único ou o elemento preponderante nos nossos passos, teremos uma vida tolhida, triste e pequena.

os saltos no abismo são necessários muitas vezes para conseguirmos avançar.

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 14h34

Com certeza que temos que ter a capacidade de correr e fugir da sombra. Deixar o duplo, cansado, para trás. Mas que não haja dúvidas: em toda a sua amplitude e possibilidades, quem diz que não o sente é porque mente.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 26 de outubro 2003, às 14h45

O medo não é um sentimento "humano", construido ou induzido. Faz parte da natureza animal.

Quem não o sentir, não existe ;)

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 14h49

Adaptando Descartes:

"Sinto, logo existo".

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 26 de outubro 2003, às 15h14

é bonito ver a timidez com que se sabe que o medo não é original, por isso se pode dizer dele

é o medo

(só digo Antídoto)

Dito por: maragrete no dia 26 de outubro 2003, às 21h20

esse antídoto ainda me espera... estou a tardar....

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 21h22

Isso nem parece teu, Dolphin.s! Atrasos...
Ai o que estás a perder!...

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 26 de outubro 2003, às 21h24

tenho várias desculpas para me atenuar o atraso: ;P

- reacções alérgicas a medicamentos usados por dentistas

- ataques de rinite

- ameaças de gripe

o meu cerébro está a meio gás... anti-istamínicos mal me deixam abrir os olhos... shuif.. shuif..

pronto.. já acabou a sessão de auto-comiseração eheheh ;)

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 21h31

não te esqueças, o efeito só é garantido se o ouvires ao mm tpo

Dito por: margarete no dia 26 de outubro 2003, às 21h32

isso nem é problema... o feitiço da lua é sempre uma boa companhia ;)))

Dito por: dolphin.s no dia 26 de outubro 2003, às 21h33