A Democracia não tem outro sentido a não ser o de um correctivo individualista de toda a forma de absolutismo do Estado. A Verdade e a Justiça são as insígnias reais da moral individual, e no caso de um conflito com os interesses estatais talvez assumam até a aparência de potências inimigas do Estado, posto que, na realidade, visem o seu bem superior, digamo-lo: o bem supra-terreno do Estado. O Renascimento como origem da idolatria do Estado! Que lógica bastarda! As conquistas—emprego essa palavra no sentido literal!—as conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu caro senhor, chamam-se a Personalidade, os Direitos do Homem, a Liberdade!
Os ouvintes soltaram a respiração que haviam contido durante a grande réplica do sr. Settembrini. A seguir, porém, ambos se voltaram para o interlocutor que acabava de ser vitoriosamente rechaçado. Hans Castorp fê-lo com tamanha impaciência, que fincou o cotovelo na mesa e o queixo no punho mais ou menos na posição de quem desenha um porquinho, e fitou o sr. Naphta de muito perto e com imensa atenção.
Este achava-se sentado, calmo e cortante, apoiando as mãos magras sobre os joelhos. Disse:
—Tento introduzir um pouco de lógica na nossa discussão e a sua resposta baseia-se em frases generosas. Que o Renascimento deu à luz tudo aquilo que se chama liberalismo, individualismo, humanismo burguês é um facto que eu não desconhecia. Mas o seu «sentido literal» deixa-me frio. A idade «conquistadora», heróica, dos seus ideais há muito que passou; esse ideal está morto ou pelo menos agonizante, e aqueles que lhe darão o golpe de misericórdia já se acham próximos. Se não me engano, o senhor arvora-se em revolucionário. Mas se acredita que o resultado das revoluções futuras será a Liberdade, iludiu-se redondamente. O principio da Liberdade cumpriu o seu destino e gastou-se em quinhentos anos. Uma pedagogia que pretende ser ainda hoje a filha do Racionalismo e vê os seus meios formativos na crítica, na libertação e no culto do Eu, na destruição de formas de vida determinadas de um modo absoluto — tal pedagogia pode obter hoje ainda triunfos passageiros, porém o seu carácter atrasado é óbvio para os espíritos avisados. Todas as organizações verdadeiramente educadoras souberam sempre o que na realidade deve ser o último objectivo da pedagogia: a autoridade absoluta, uma disciplina de ferro, o sacrifício, a renúncia do Eu, a violação da personalidade. Em última análise, é desconhecer e não amar a juventude pensar que ela sente prazer na Liberdade. O seu prazer mais profundo é a obediência.
Joachim empertigou-se. Hans Castorp corou. O sr. Settembrini, agitado, torcia nervosamente o belo bigode.
—Não—prosseguiu Naphta.—O segredo e a exigência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do Eu. O de que ela necessita, o que deseja, o que criará é o Terror.
in a Montanha Mágica, Thomas Mann
Excelente, dolphin.s, bem extraído esse excerto, lembro-me de o ter lid quando lia a "Montanha". Mas, de facto, merece esse destaque.
Faz-me lembrar a história de "O Grande Inquisidor" que vem dentro de "Os Irmãos Karamazov", de Fiodor Dostoievski, sobre uma hipotética volta de Cristo à terra em plena época de inquisição.
O inquisidor-mor tem uma discussão com Cristo, e bate-o aos pontos, precisamente com esse tipo de argumentos. Algo do género de que "os homens precisam de um lider e gostam de ser mandados".. mas muito mais refinado, claro.
Vale a pena pegar nos "Irmãos Karamazov", e ler apenas este conto, que é um dos (muitos) momentos apoteóticos do livro.
A propósito, acho que tenho por aqui uma transcrição desse conto num documento.... se quiserem.... peçam-me.
Dito por: Paulo Silva no dia 24 de outubro 2003, às 12h30lindo... nunca li Thomas Mann (que recorde... não, não li!)... excelente citação!!! é ciclico, de facto... a liberdade predispõe a massa ao extremismo e ao culto de autocratas que depois de ganharem poder sobre aquela e a dominarem pelo período subsequente passarão a ser a imagem do inimigo n.º 1 da luta pela reconquista da liberdade... isto formulado de uma forma demasiado simplista, mas prontos...
Dito por: kay no dia 24 de outubro 2003, às 12h53as discussões entre o Naphta e o Settembrini deixam-me tonta!!!
São ambos tão fundamentalistas que não deixam margem sequer para outras ideias para além daquelas em que acreditam... ou pelo menos que eles acham que acreditam, porque às tantas e apenas pelo prazer de discutir, damos por eles a defender exactamenta as ideias contrários, porque algum pegou na ideia do outro e já nem eles sabem bem o que defendem...
é insano!!! :)))
Dito por: dolphin.s no dia 24 de outubro 2003, às 14h57Kay: experimenta a Morte em Veneza.
Foi o primeiro livro que li dele. É muito bonito :)
:) tenho uma lista imensa de coisas para ler... mas vou tomar nota desse.
Dito por: kay no dia 24 de outubro 2003, às 16h32LOL!!
acho que por aqui encontras muita gente que sofre do mesmo mal ehehehe
e por mim falo ;))
Dito por: dolphin.s no dia 24 de outubro 2003, às 16h35Cometas e Estrelas
Há pessoas estrelas;
Há pessoas cometas.
Os cometas passam. Apenas são lembrados pelas datas que passam e retornam.
As estrelas permanecem. Os cometas desaparecem. Há muita gente cometa.
Passam pela vida da gente apenas por instantes, gente que não prende ninguém e a ninguém se prende. Gente sem amigos. Gente que passa pela vida sem iluminar, sem aquecer, sem marcar presença. Há muita gente cometa. Assim são muitos e muitos artistas. Brilham apenas por instantes nos palcos da vida.
E com a mesma rapidez com que aparecem, também desaparecem.
Assim são muitos reis e rainhas de todos os tipos. Reis de nações, rainhas de clubes ou concurso de beleza. Assim rapazes e moças que se enamoram e se deixam com a maior facilidade. Assim são pessoas que vivem numa mesma família e que passam pelo outro sem serem presença. Importante é ser estrela.
Estar presente. Marcar presença. Estar junto. Ser luz. Ser calor. Ser vida.
Amigo é estrela. Podem passar os anos, podem surgir distâncias, mas a marca fica no coração. Coração que não quer enamorar-se de cometas que apenas atraem olhares passageiros. E muitos são cometas por um momento. Passam, a gente bate palma e desaparecem. Ser cometa é não ser amigo. É ser companheiro por instantes. É explorar sentimentos. É ser aproveitador das pessoas e das situações.
É fazer acreditar e desacreditar ao mesmo tempo. A solidão de muitas pessoas é conseqüência de que não podem contar com ninguém. A solidão é resultado de uma vida cometa. Ninguém fica. Todos passam. E a gente também passa pelos outros.
Há necessidade de criar um mundo de estrelas. Todos os dias poder vê-las e senti-las.
Todos os dias poder contar com elas. Todos os dias ver sua luz e calor. Assim são os amigos. Estrelas na vida da gente. Pode-se contar com eles. Eles são uma presença.
São aragem nos momentos de tensão. São luz nos momentos escuros. São pão nos momentos de fraqueza. São segurança nos momentos de desânimo.
Olhando os cometas é bom não sentir-se como eles. Nem desejar prender-se em sua cauda. Olhando os cometas é bom sentir-se estrela. Marcar presença. Ter vivido e construído uma história pessoal. Ter sido luz para muitos amigos. Ter sido calor para muitos amigos. Ter sido calor para muitos corações. Ser estrela neste mundo passageiro, neste mundo cheio de pessoas cometas, é um desafio, mas acima de tudo uma recompensa. É nascer e ter vivido e não apenas existido.
Reinilson Câmara
Dito por: Luciana Lemos no dia 2 de novembro 2003, às 13h23Um texto muito bonito Luciana.
a existirem objectivos de vida, ambicionar a ser uma estrela será de certeza o mais bonito.
quantas estrelas aparecem na nossa vida? cometas serão muitos....
Dito por: dolphin.s no dia 2 de novembro 2003, às 14h15Vamos tentar agarrar as estrelas?
Sim, agarrá-las, com muita força!
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 2 de novembro 2003, às 14h30