outubro 20, 2003

Onde fica a Verdade?

Thomas MannOnde fica a Verdade, senhor, que anda intimamente ligada à liberdade, e cujos mártires, longe de insultarem a Terra, como o senhor pensa, permanecerão o eterno ornamento deste astro?
O sr. Settembrini tinha uma maneira vigorosa de interrogar. Estava sentado, muito erecto, e deixava cair sobre o pequeno Naphta as suas palavras honestas. (...)
—Caro amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção religiosa da Ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: «Creio para que possa conhecer». A Fé é o órgão do conhecimento; o intelecto é secundário. A sua ciência sem premissas não passa de um mito. Há sempre uma fé, uma concepção do Mundo, uma ideia, numa palavra: uma vontade, e cabe à Razão explicá-la e comprová-la sempre c em todos os casos, Trata-se de chegar ao «Quod erat demonstrandum» A simples ideia da prova contém, psicologicamente considerada, um nítido elemento voluntarista. Os grandes escolásticos dos séculos XII e XIII eram unânimes na convicção de que na Filosofia não podia ser verdade o que era falso perante a Teologia. Deixemos de lado a Teologia, se assim o quiser; mas uma humanidade que não reconhecesse que nas Ciências Naturais não pode ser verdade o que é falso perante a Filosofia, não seria uma humanidade. A argumentação do Santo Ofício contra Galileu reduziu-se a isto: os seus princípios eram filosoficamente absurdos. Não pode haver argumentação mais incisiva.
—Ora, ora! Os argumentos do nosso pobre e grande Galileu mostraram-se mais sólidos. Não, professore, falemos seriamente! Diante destes dois jovens tão atentos responda-me à seguinte pergunta: acredita o senhor numa Verdade, verdade objectiva e científica, que a lei suprema de toda moralidade nos manda procurar, e cujos triunfos sobre a autoridade formam a história gloriosa do espírito humano?
Hans Castorp e Joachim voltaram os seus rostos de Settembrini para Naphta, o primeiro mais rapidamente do que o segundo. Naphta respondeu:
—Tal triunfo não é possível, porque a autoridade é o Homem, o seu interesse, a sua dignidade, a sua salvação, e entre ela e a verdade não pode haver conflito. Confundem-se.
—A verdade seria, por conseguinte...
—É verdadeiro o que convém ao Homem. Nele se acha concentrada toda a natureza; apenas ele foi criado em toda a natureza, toda a natureza só para ele foi feita. Ele representa a medida das coisas, e a sua salvação é o o critério da verdade.


in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em outubro 20, 2003 01:35 PM
Comentários

Lembro-me bem dessa discussão... o homem é a medida das coisas, a sua salvação o critério da verdade... belas palavras...

Dito por: Paulo Silva no dia 20 de outubro 2003, às 15h32

uma das coisas que mais me deixou "à toa" nesta discussão, é que tão depressa eu inclinava para o lado do Naphta, como para o Settembrini.
E às vezes tinha vontade de esganar os dois ehehehe

Mann é magistral na construção das personagens :)))

Dito por: dolphin.s no dia 20 de outubro 2003, às 15h50

De facto, esse é um dos fenómenos desconcertantes no livro. Por mais que me incline para o lado de Settembrini, não posso deixar de dar "razão" ao que o Naphta diz.

Mann é genial por isso, consegue criar duas personagens completamente opostas em termos de ideiais, e fazê-las esgrimir estoicamente as suas ideias. Vais ver que nas ultimas discussões, eles quase que trocam os argumentos, é mesmo desconcertante!!!

Dito por: Paulo SIlva no dia 20 de outubro 2003, às 17h08

ele materializou em palavras (?!?) uma coisa que vou sentindo num grande número de discussões meta-qualquer-coisa: à excepção de temas bem definidos, de princípio; dou por mim agarrado ao 'lado' com que iniciei a discussão unicamente por motivos de congruência. todos deveríamos poder ser settembrini e naphta, ao mesmo tempo.

Dito por: josephK no dia 20 de outubro 2003, às 18h45