(...) foi com um espírito altruísta que trabalhou a máquina por meio da qual a Convenção expurgou o Mundo de maus cidadãos. Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna, o que não pode dizer-se do entusiasmo exterminado dos jacobinos. Permito-me observar que toda a justiça inquisitorial e capital que não brote da fé num Além é uma estupidez animal. E quanto ao aviltamento do Homem, a sua história coincide exactamente com a do espírito burguês. O Renascimento, o Século das Luzes, as Ciências Naturais e as doutrinas económicas do século xix não se esqueceram de ensinar nada, absolutamente nada, que fosse próprio para favorecer esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do Universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura, foi transformado num insignificante planetazinho, e que pôs fim, provisoriamente, à grandiosa posição do Homem no Cosmos, sobre a qual, de resto, se fundava igualmente a astrologia.
Naphta, o jesuíta in a Montanha Mágica, Thomas Mann