Detesto amarelo. Detesto todos os sinais da Primavera. Não sabes que só estou feliz quando estou deprimida? Não sabes que só estou feliz quando me visto de negro? Que só estou feliz à noite. Sim. Sou uma criatura da noite. Vejo-te chegar ao meu bairro com o teu carro novo, a tua dentadura nova e a tua camisa em sólidos tons pastel limão verde-vómito verde-pálido rosa alperce, que vai bem com qualquer outra peça, e visitas os saldos enquanto avanças, tendo a Gap por mascote. Bom, eu vim aqui para te dizer que a Gap é o demónio. Dar a toda a gente o aspecto mais inofensivo possível, fazer com que toda a gente se acomode o mais possível — apesar de quem veste aquela roupa ser por dentro tão ofensivo quanto possível. Tu queres que toda a gente tenha o mesmo aspecto, para que venham talvez a sentir o mesmo e se tornem então mais fáceis de controlar, de dominar.
Vens pois até ao meu bairro, até às nossas vidas de etnicidade, de diferença, de pobreza, de expressão artística, e vens até ao meu bairro para tentares cooperar, para tentares condominimizar as nossas vidas de modo a poderes fazer um grande negócio imobiliário. Bom, eu serei a tua consciência.
Por isso tomei demasiados comprimidos para dormir e nada aconteceu.
Por isso apontei uma arma à cabeça e nada aconteceu.
Por isso pus a cabeça no forno e nada aconteceu.
Por isso fodi-te a noite toda e nada aconteceu.
Por isso comecei a fazer dieta e nada aconteceu.
Por isso tornei-me macrobiótica e nada aconteceu.
Por isso fui a todas as casas de diversão nocturna da Cidade Grande e nada aconteceu.
Por isso tentei entrar na cena artística, fui para o Soho, e nada aconteceu.
Por isso fui para a universidade e nunca paguei aquele empréstimo para estudantes, porque já sabia que nada iria acontecer.
Por isso larguei a bebida e as drogas mas nunca aconteceu nada.
Por isso tornei-me a modos que política - trabalhei para a ERA, votei no Jesse Jackson - mas nunca aconteceu nada.
Por isso decidi tornar-me doméstica — limpei, cozinhei e servi em hotéis rascas - mas nunca aconteceu nada, nada.
Por isso abaixo-assinei, revoltei, aterrorizei e organizei, porque eu vou fazer com que algo aconteça.
Não vou deixar que voltes a fazer de mim um alvo de violação colectiva, sr. Yuppie, sr. Homem-de-Negócios, sr. Empresário. Não vou deixar que leves as minhas ruas, as que construí com a minha alma, a minha criatividade, o meu espírito. Em toda a minha arte, sr. Milhões, tu vês apenas mais uma oportunidade de investimento. O meu suor, a minha música, a minha moda, são para ti apenas mais um esquema para fazer dinheiro. Tu és a razão pela qual as bolachas David's e o McDonald's são os símbolos da minha cultura. Tu és a razão pela qual a fast food é a única indústria em crescimento nesta nação.
Por isso vens até ao meu bairro, após o teu emprego das nove às cinco, e aos fins-de-semana, à procura da experiência artística. Para que possas voltar ao trabalho e exibir a tua experiência da boêmia. Terei todo o gosto em mostrar-te a experiência artística. Sou a rapariga indicada para o serviço.
Por isso pego em ti, sr. Empresário, sr. Yuppie, sr. Sim-senhor, e amarro-te a toda a tua moda, ao teu Calvin Klein, ao teu Ralph Lauren, também à tua Anne Klein, ao teu Bloomingdale's, ao teu Macy's, e ato-te a tudo isso, ato-te a todas as tuas camisas de algodão em tons pastel lilás e verde-menta, e, sabes que mais? Tu gostas. E o sr. Yuppie diz «É isto a experiência artística?» E eu sorrio e ele gosta, ele gosta.
(...)
Eu sei que queres experimentar a inspiração da artista.
Por isso pego no teu corpo de yuppie e arrasto-o pela Avenida B e deixo que a tua língua se desenrole ao longo da rua a lamber a merda e o mijo, o suor e o sangue de mim, e, sabes que mais? Tu gostas. Tu gostas. Depois faço-te lamber os pneus do teu BMW. Depois deixo-te à esquina e roubo-te o BMW, porque sei que não vai acontecer nada.
Por isso conduzo rua abaixo a toda a velocidade. Aterrorizo todos os que pareçam deter um cargo político, todos os que pareçam possuir propriedades privadas (eu mostro-vos o fardo que é a propriedade privada), e todos os que andem vestidos com fato. Porque, segundo o sr. Andy Somma, os fatos são coisa que não combina com o rock'n'roll.
Conduzo até Wall Street e irrompo pela Bolsa de Valores adentro. Vou-me a todos os corretores e corto-lhes os tomates. Não sai deles sangue algum, somente uns cifrões de dólar.(...)
Oh, eu vingo-me. Oh, eu vingo-me.
Senhor, Deus das alturas, por que não surges agora diante de mim?
Será por seres homem?
O que aconteceu à Fada Madrinha? O que aconteceu ao Coelhinho da Páscoa? O que aconteceu ao Andy Warhol?
Estão mortos, miúda. Mortos.
Sei que vivo numa época sem saída. Sei que tenho uma casa sem saída, que há um futuro sem saída para os meus filhos, sei que tenho um emprego sem saída. Tenho uma cultura sem saída, é um mundo sem saída. Eu sei, eu sei que é um longo, longo caminho sem saída.
in Tratamento de Choque, Karen Finley