Se é com razão que se diz: Ser deus é fazer bem aos homens, se é com justiça que elevaram à categoria de Imortais os que inventaram o pão, o vinho, ou que conseguiram para o seu semelhante qualquer outro beneficio desta espécie, não devo eu ser considerada como a maior de todas as divindades, eu que espalho sobre os mortais, sem distinção, as maiores mercês e os maiores bens?
Depois dos deuses, os estóicos são, pelo menos, segundo a sua própria opinião, os mais sublimes de todos os seres. Pois bem, dêem-me um estóico, seja ele três ou quatro rnil vezes mais estóico do que todos os estóicos juntos, a ver se consigo que corte as barbas, que considera como o símbolo da sabedoria, se bem que esse símbolo tenha qualquer coisa de comum com os bodes. Mas, pelo menos, forçá-lo-ei a abandonar o seu ar tristonho, apagar-lhe-ei as rugas da fronte, fazê-lo-ei renunciar aos seus severos princípios; entregar-se-á, durante certo tempo, ao prazer, à extravagância, à loucura. Resumindo: por mais prudente que possa ser, se quiser procurar os prazeres do mundo, é a mim, e só a mim, que terá de recorrer.
in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão