outubro 22, 2003

A Origem (Fala a Loucura)

Agora, auditores muito, muito... como hei-de eu dizer?... auditores muito loucos? Porque não? É o título mais honroso que a Loucura pode dar aos seus iniciados. Pois muito bem, então, auditores muito loucos, agora já sabeis qual é o meu nome. Mas como há muitas pessoas que ignoram a minha origem, vou tentar dá-la a conhecer, mediante o auxílio das Musas*.
Meu pai não me concebeu no seu cérebro, como outrora Júpiter concebeu essa vilã e impertinente Minerva; mas deu-me por mãe Neotete, a Juventude, a mais alegre, a mais bela, a mais viva de todas as ninfas. Também não sou fruto do fastidioso dever conjugal, como o coxo do Vulcano; nasci, como disse o bom Homero, dos deliciosos arrebatamentos do amor. E para que vos não iludais, não foi quando já estava velho e quase cego, como o descreve Aristófanes, que Pluto me engendrou; mas outrora, quando se sentia em todo o vigor da sua idade, quando o fogo da juventude lhe ardia nas veias, e num desses agradáveis momentos, em que o néctar, bebido à mesa dos deuses, o enchera de bom humor.
Quereis, por ventura, que vos diga, também, qual o local do meu nascimento, porque hoje em dia acredita-se que o lugar em que uma criança viu pela primeira vez a luz do sol, é muito importante para a sua nobreza. Dir-vos-ei, no entanto, que não nasci nem na ilha flutuante de Delos, nem sobre as ondas do mar, nem nas profundas cavernas; vi o dia nas Ilhas Afortunadas, país encantador, onde a terra, sem ser cultivada, produz os mais ricos frutos. O trabalho, a velhice, as doenças são ignoradas naqueles felizes campos. Ali não se vê crescer, nem malvas, nem tremoços, nem fava, nem nenhuma dessas outras plantas que não servem senão para as terras vulgares. O moli, a panaceia, o nepentes, a manjerona, as rosas, as violetas e os jacintos encantam por toda a parte o olfacto e a vista, e fazem, desses maravilhosos lugares, jardins mil vezes mais encantadores do que os jardins de Adónis.
Aparecida no meio deste ambiente maravilhoso o meu nascimento não foi anunciado com as minhas lágrimas; assim que nasci, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe. Faria muito mal se invejasse Júpiter, por ter sido amamentado por uma cabra, pois as duas mais graciosas ninfas do mundo, Meteia, a Embriaguez, filha de Baco, e Apoedia, a Ignorância, filha de Pã, foram as minhas amas. Vê-las-eis, aqui, entre as minhas companheiras, no meio do meu séquito.
Mas, já que falei do meu séquito, é preciso que vo-lo apresente. Aquele que vos olha com um ar arrogante é o Amor-Próprio. Aquela, de rosto gracioso e mãos sempre prontas a aplaudir, é a Lisonja. Ali, podeis ver a deusa do Esquecimento, que se deixa dormir a cada instante, e parece já estar a pegar no sono. Mais além, a Preguiça, de braços cruzados e encostada aos cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, pelas grinaldas, pelas coroas de rosas e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não reparais naquela que passeia por toda a parte os seus olhares descarados e impudentes? E a Demência. Aquela outra, cuja pele é tão lustrosa, e o corpo tão gordo e tão rubicundo, é a deusa das Delícias. Mas, entre todas estas deusas, também encontrareis deuses. Um é Comos, outro é Morfeu.
Com o auxílio destes fiéis servidores, submeto ao meu domínio tudo quanto existe no universo. É com eles que governo os que governam o mundo.


* Erasmo considera esta obra como uma ficção poética.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Publicado por dolphin.s em outubro 22, 2003 10:28 AM
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