outubro 23, 2003

Nós, os fracos, somos de facto fracos

Friedrich NietzscheQuando os oprimidos, os esmagados, os violentados, do fundo da sua astúcia vingativa, se põem a dizer: «Sejamos diferentes dos malvados! Sejamos, portanto, bons! Bom é aquele que não violenta, que não ofende ninguém, que não ataca, que não retalia, que entrega a vingança a Deus, aquele que, como nós, permanece na obscuridade, que evita o mal e que muito pouco exige da vida, como nós que somos pacientes, humildes e justos...», o que isto significa, observado friamente e sem preconceito, é afinal apenas o seguinte: «Nós, os fracos, somos de facto fracos; é bom que não façamos nenhuma daquelas coisas para as quais não somos suficientemente fortes...» Mas esta constatação crua, esta prudência da mais baixa ordem, que até os insectos mostram possuir (quando, em situações de maior perigo, se fingem mortos, para não fazerem nada «em demasia»), graças à falsificação e ao auto-engano que são próprios da impotência, mascarou-se com as roupagens pomposas da virtude que sabe renunciar e esperar em total quietude, como se a fraqueza do fraco — ou seja, afinal a sua essência, o seu modo de agir, a sua realidade única, inelutável, inalienável — fosse ela própria algo de livremente escolhido, algo resultante da vontade, um acto, um mérito. Esta espécie de homens, por via de um instinto de sobrevivência e de auto-afirmação que consegue santificar todas as mentiras, precisa da crença na liberdade de escolha de um sujeito neutro. É por isso que o sujeito (ou, em termos mais populares, a alma) é talvez o melhor dogma até hoje surgido no mundo, uma vez que veio abrir à multidão de mortais, de fracos e de oprimidos de toda a espécie a possibilidade de se enganarem a si próprios com a sublime mentira que interpreta a fraqueza como liberdade e o facto de serem assim como um mérito.


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Publicado por dolphin.s em outubro 23, 2003 02:12 PM
Comentários

ninguém é perfeito.

Dito por: arosendo no dia 23 de outubro 2003, às 14h15

e alguém o ambiciona ser?

Dito por: dolphin.s no dia 23 de outubro 2003, às 14h17

não, mas ambicionamos aperfeiçoar os outros.

Dito por: arosendo no dia 23 de outubro 2003, às 14h32

ambicionamos?

os que a isso ambicionam normalmente acabam por matar exactamente aquilo de que mais gostavam no outro.

Dito por: dolphin.s no dia 23 de outubro 2003, às 15h17

então porque é que vives, lutas, estudas, e amas? não é para te aperfeiçoares-te e transmitires esses valores aos outros? estás a matar o quê nos outros que te admiram pelo teu esforço?

Dito por: fernando esteves pinto no dia 23 de outubro 2003, às 16h02

Querer mudar-me/aperfeiçoar-me não é o mesmo que querer mudar os outros.

E querer transmitir os meus valores, os meus ideais ou até os meus gostos, não é de certeza impingir ou obrigar os outros a "comê-los".
E mesmo que consiga que o outro os aceite, será por vontade dele - logo será o outro a mudar-se (ou a aperfeiçoar-se) por sua vontade, e nunca porque eu o quis ou forcei.
Quem muda apenas porque os outros o forçam a tal, é fraco e no fundo não aprendeu nada.

E tudo isto não tem nada com querer mudar a essência da pessoa. Por exemplo:
conhecer alguém com um estilo de vida diferente do teu. Gostas dessa pessoa talvez principalmente por ser diferente de ti e por viver de maneira diferente da tua. Passado algum estás a tentar mudar essa pessoa porque achas que o estilo de vida dela não é o melhor, porque a tua maneira de viver é que é a correcta.

Consegues o que queres, mesmo que seja por pouco tempo. E depois? Depois descobres que já não gostas daquela pessoa e que ela afinal já não é a pessoa de quem aprendeste a gostar...

Dito por: dolphin.s no dia 23 de outubro 2003, às 16h19


Isso de querer aperfeiçoar os outros tem muito que se lhe diga !!!!

Mas alguém é dono da verdade, ou julga que a sabe melhor que os outros ?

Quantos ao longo da história arrograram-se a pensar que sabiam a verdade, e quantas chacinas e milhões de pessoas inocentes foram mortas (inquisção,holocausto, e quantos, quantos mais, pequenos e grandes genocidios).

Não, não busco aperfeiçoar os outros. Quando muito ter a minha própria experiência e deixá-la, como mais uma; se alguém depois pegar nela ou nalguma ideia dela, e isso servir para se sentir melhor perante si próprio e a vida, óptimo, terei contribuído para a melhoria da humanidade.

Mas, aperfeiçoar os outros ??? Cuidado !

Dito por: Paulo Silva no dia 23 de outubro 2003, às 17h48

"se alguém depois pegar nela ou nalguma ideia dela, e isso servir para se sentir melhor perante si próprio e a vida, óptimo"

exacto!! :)))

Dito por: dolphin.s no dia 23 de outubro 2003, às 18h15

É bonito falar-se assim, mas, no fundo, todos nós temos tendência para moldar o outro. Na relação do eu com o outro há sempre esse processo. O problema consiste na existência de personalidades acentuadamente fortes e outras acentuadamente fracas. O ponto de desiquilíbrio. Mas é natural, o eu moldar o outro, é...

Dito por: aquele no dia 23 de outubro 2003, às 18h30

não posso deixar de concordar contigo...
será natural numa relação um moldar-se ao outro, mesmo que um não tente moldar o outro. A própria relação poderá depender da capacidade de cada um se moldar ao outro e da capacidade de aceitação de cada um em relação ao outro.

Em relação ao desiquilibrio de uma relação entre um ser mais forte e um mais fraco, já leste este excerto do Musil?
http://silencio.weblog.com.pt/arquivo/013865.html


Dito por: dolphin.s no dia 23 de outubro 2003, às 18h48